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sábado, junho 13, 2026

Na nova geopolítica verde, o Brasil tem a chance de ser a grande potência

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Há uma mudança silenciosa e profundamente estratégica acontecendo na economia global. Enquanto parte do mundo ainda discute a transição energética como uma agenda ambiental, as grandes potências já entenderam que ela é, na verdade, uma disputa industrial, tecnológica e geopolítica.

E o reposicionamento relativo entre Estados Unidos e China surge como o movimento mais importante deste momento. Historicamente, os Estados Unidos lideraram a inovação, a pesquisa aplicada e o desenvolvimento tecnológico. Foram os arquitetos da economia digital, do venture capital moderno e da integração entre universidades, indústria e mercados financeiros. Mas os sinais recentes mostram uma inflexão preocupante.

A proposta orçamentária da Casa Branca para o ano fiscal de 2027 prevê o cancelamento de mais de US$ 15 bilhões em programas ligados à energia limpa, veículos elétricos, fontes renováveis, captura de carbono e pesquisa climática. Mais do que um corte fiscal, isso representa uma escolha estratégica.

Ao reduzir estímulos às tecnologias verdes, os Estados Unidos correm o risco de desacelerar justamente os setores que devem liderar a próxima onda de produtividade global. O mundo que emerge será moldado por inteligência artificial aplicada à eficiência energética, baterias, minerais críticos, hidrogênio, novos materiais, agricultura de baixo carbono, bioeconomia e infraestrutura resiliente. Esses setores não representam apenas sustentabilidade. Representam competitividade.

Enquanto Washington desloca parte crescente de sua energia política para tensões geopolíticas, tarifas, contenção comercial e fortalecimento militar, Pequim acelera no sentido oposto e usa a transição energética como política industrial em larga escala. A China já domina aproximadamente 85% da capacidade global de fabricação de baterias, e mais de 75% dessa capacidade pertence a empresas chinesas.

Além disso, consolidou uma posição quase hegemônica no refino de minerais críticos, no processamento de terras raras, em painéis solares, veículos elétricos e infraestrutura energética. Em 2025, as exportações chinesas de tecnologias limpas ultrapassaram US$ 165 bilhões, o equivalente a cerca de 50% do comércio global do setor. Não se trata apenas de liderança ambiental. Trata-se de controle de cadeias produtivas.

O professor Stephen Walt, de Harvard, recentemente provocou o debate internacional ao afirmar que uma hegemonia chinesa na Ásia já não parece improvável. E talvez essa seja a chave central da discussão atual: a hegemonia contemporânea não se constrói apenas com força militar. Constrói-se com domínio tecnológico, capacidade produtiva, infraestrutura energética e influência econômica. A China compreendeu antes de muitos países que clima é indústria.

E é exatamente nesse contexto que a oportunidade brasileira pode se materializar. O Brasil é um dos poucos países do mundo capazes de conectar simultaneamente segurança energética, abundância mineral, produção agroindustrial, bioindústria e potencial climático em uma mesma plataforma econômica.

Nossa matriz elétrica já é uma das mais limpas do planeta. Em 2024, 88,2% da eletricidade brasileira veio de fontes renováveis. Quando se observa toda a matriz energética, incluindo transportes e indústria, o Brasil alcançou cerca de 50% de renovabilidade, quase quatro vezes acima da média global.

Poucos países possuem simultaneamente esse diferencial competitivo. Esse conjunto cria uma oportunidade rara que permite ao Brasil tornar-se uma plataforma industrial da nova economia verde.

Isso significa produzir mais do que minério ou soja. Significa produzir baterias, combustível sustentável, hidrogênio verde, aço verde, químicos de baixo carbono, biotecnologia tropical e soluções energéticas associadas à descarbonização global. E isso impacta diretamente setores centrais do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

O AGRONEGÓCIO, responsável por aproximadamente um quarto do PIB nacional, tende a ser cada vez mais pressionado por rastreabilidade, carbono, água e cadeias resilientes. Ao mesmo tempo, pode se tornar um dos maiores vencedores globais na produção de alimentos de baixo carbono, biocombustíveis e biomateriais.

A mineração ganha relevância inédita porque a transição energética depende diretamente de minerais críticos como lítio, níquel, cobre, grafite e terras raras. A indústria siderúrgica brasileira pode capturar competitividade estrutural ao utilizar energia renovável mais barata para a produção de aço verde.

O setor elétrico brasileiro pode se transformar em uma plataforma exportadora indireta de competitividade industrial, atraindo data centers, química verde, hidrogênio e manufatura intensiva em energia limpa. E o mercado financeiro brasileiro pode assumir protagonismo regional no financiamento da transição. Mas existe um ponto fundamental: essa oportunidade não é automática.

O mundo está reorganizando cadeias produtivas em uma velocidade impressionante. Empresas buscam segurança energética, resiliência logística e redução da exposição geopolítica. O capital global procura geografias capazes de combinar estabilidade, energia limpa e competitividade. O Brasil possui os ativos. O desafio agora é a coordenação estratégica.

E é exatamente por isso que as eleições brasileiras deste ano têm relevância muito maior do que normalmente se imagina. Independentemente de quem vença, o debate central do próximo ciclo presidencial deveria ser menos ideológico e muito mais econômico: qual será a estratégia brasileira para ocupar espaço na nova geografia industrial do século XXI?

Como vamos acelerar a pesquisa aplicada? Como transformar universidades em plataformas de inovação? Como desenvolver uma política industrial para minerais críticos? Como conectar venture capital, indústria e infraestrutura? Como transformar energia limpa em diferencial competitivo? Como atrair manufatura verde? Como monetizar biodiversidade e bioeconomia? Como liderar mercados globais de carbono, combustível sustentável e agricultura regenerativa?

A grande disputa global daqui para frente será entre países que conseguem transformar sustentabilidade em produtividade e países que ficam presos ao modelo econômico do passado.

Os Estados Unidos ainda possuem uma capacidade gigantesca de inovação e dificilmente deixarão de ser protagonistas globais. Mas o recuo relativo em tecnologias verdes cria espaço para rearranjos relevantes de liderança econômica.

A China entendeu isso cedo, e o Brasil talvez esteja diante da maior oportunidade estratégica das últimas décadas. A transição energética e industrial vai acontecer, e o vencedor será quem souber capturar o valor econômico gerado por ela.

*Ricardo Assumpção é sócio-líder de Sustentabilidade e CSO LATAM da EY

 






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