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quarta-feira, junho 17, 2026

Fundação Bradesco aposta no ensino integral e foca onde a educação é ausente

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Prestes a completar 70 anos, em 26 de novembro, a Fundação Bradesco chega à segunda metade de 2026 com números recordes. Dona de uma trajetória rara no investimento social privado brasileiro, a instituição combina patrimônio bilionário, presença nacional e uma ambição renovada: deixar de ser reconhecida apenas como um projeto social de grande escala para se consolidar também como uma rede educacional de alta performance.

Criada em 1956 por Amador Aguiar, fundador do Bradesco, a fundação nasceu de uma decisão incomum no Brasil. Em vez de estruturar uma iniciativa filantrópica convencional, Aguiar destinou parte de suas ações pessoais para formar uma instituição voltada à educação gratuita de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. A lógica era garantir perenidade ao projeto. Como acionista relevante do banco, a Fundação Bradesco passaria a receber dividendos e juros sobre capital próprio para financiar sua missão educacional.

“O fundador tinha a pretensão de tornar a fundação perpétua”, afirmou ao BRAZIL ECONOMY Murilo Nogueira, diretor administrativo financeiro da Fundação Bradesco. “Ele imaginava que o banco passaria dividendos e JCP com seus resultados para que a fundação se tornasse cada vez mais rica, cada vez mais potente para oferecer educação gratuita e de qualidade para milhares de brasileiros todos os anos.”

A escala ajuda a explicar a relevância da instituição. A Fundação Bradesco mantém 40 escolas próprias, com pelo menos uma unidade em cada estado, atende mais de 42 mil crianças e jovens por ano e reúne cerca de 4,2 mil funcionários, dos quais aproximadamente 2,5 mil são professores. Seu orçamento previsto para 2026 é de R$ 1,6 bilhão, avanço de 15% em relação ao ano anterior, enquanto o patrimônio líquido é estimado em R$ 97 bilhões. Nos últimos dez anos, foram mais de R$ 10 bilhões investidos.

O modelo educacional é integralmente gratuito para os estudantes. A fundação oferece uniforme, material didático, suporte socioemocional, atendimento odontológico, recursos tecnológicos e acompanhamento pedagógico. A jornada começa na educação infantil e se estende até o ensino médio, em um ciclo que pode durar 13 anos. A seleção dos alunos considera a renda familiar, priorizando famílias em maior vulnerabilidade.

“Quanto menor a renda mensal familiar daquela família, mais chance ela tem de entrar na Fundação Bradesco”, diz Nogueira. “Esses alunos reconhecem essa oportunidade e entendem que estudar na fundação é uma possibilidade de transformação de vida.”

Embora não pretenda ampliar o número de escolas, a fundação está em plena fase de modernização. Há 14 obras simultâneas de grande porte em andamento, com investimento anual aproximado de R$ 350 milhões. A meta é revitalizar todas as unidades ao longo dos próximos anos, melhorar a infraestrutura, preparar parte da rede para o ensino integral e elevar os indicadores acadêmicos.

Segundo Nogueira, três escolas devem ser entregues no meio do ano e outras três até o fim de 2026. A cada semestre, novas obras serão iniciadas, em um ciclo contínuo de reformas. Uma escola em Minas Gerais já funciona como piloto do modelo integral. A expectativa é que pelo menos cinco unidades estejam nesse formato no próximo ano, embora a expansão dependa de espaço físico e da aprovação das secretarias estaduais de educação.

A adoção do ensino integral representa um dos principais desafios operacionais da nova fase. Diferentemente de uma escola privada, que poderia reduzir o número de alunos para ampliar a carga horária, a Fundação Bradesco precisa preservar sua capacidade de atendimento. Isso exige, em muitos casos, duplicar estruturas físicas para acomodar em turno único estudantes que hoje frequentam a escola em períodos distintos.

“O custo da escola integral é mais elevado, mas a ideia é crescer nos próximos anos dentro de um patamar entre R$ 1,6 bilhão e R$ 1,8 bilhão, sempre priorizando educação de qualidade e esse esforço de reforma e reconstrução das escolas”, afirmou o diretor.

A busca por excelência pedagógica também passa pela contratação e formação dos professores. Nogueira afirma que a fundação seleciona docentes com critérios semelhantes aos de escolas particulares de alto padrão. A rede é gerida de forma centralizada, com acompanhamento de indicadores, metas de evolução e tratativas específicas para cada unidade.

“A fundação não quer aumentar o número de escolas e sim buscar excelência pedagógica e indicadores de alta performance”, disse. “A gente precisa garantir que essa criança seja potente o suficiente para entrar em qualquer faculdade, fazer o curso que quiser, conhecer possibilidades e lutar por isso.”

Além da educação básica, a Fundação Bradesco está retomando a Educação de Jovens e Adultos. A modalidade, iniciada pela instituição em 1985, passou por dois anos de reestruturação curricular e foi relançada em 2026 em oito escolas. A meta é ampliar a oferta nos próximos anos e alcançar de 15 mil a 20 mil estudantes por ano. A iniciativa atende jovens, adultos e idosos que não concluíram o ensino fundamental ou médio na idade regular.

Outra frente estratégica são os cursos presenciais de Formação Inicial Continuada, voltados à qualificação profissional e à geração de renda nas comunidades próximas às escolas. As trilhas incluem AGRONEGÓCIO, arte e design, comunicação, elétrica e eletrônica, gastronomia, negócios, empreendedorismo, produção visual, design e tecnologia da informação. Todos os anos, a fundação oferece mais de 8 mil vagas gratuitas nessa modalidade.

A Escola Virtual, criada em 2001, também será remodelada em 2026, ano em que completa 25 anos. A plataforma registrou mais de 2 milhões de acessos em 2025 e oferece mais de 80 cursos gratuitos em áreas como inteligência artificial, programação, tecnologia da informação, dados, negócios, produtividade e desenvolvimento pessoal e profissional. A ideia é ampliar parcerias com empresas como Microsoft, Oracle e Google, transformando a plataforma em uma vitrine de formação gratuita com certificações e trilhas de aprendizagem.

“A perspectiva da fundação para os próximos 70 anos é continuar investindo na evolução pedagógica em cada uma das suas localidades, seja como prioridade para as crianças da educação básica regular, mas também pensando na comunidade como um todo”, disse Nogueira.

A dimensão internacional também aparece na agenda institucional. A Fundação Bradesco já teve o projeto estudado como case em Harvard e mantém interlocução com universidades e organizações estrangeiras. Alunos de alta performance podem ser direcionados a oportunidades fora do país, incluindo cursos de curta duração, concursos internacionais e programas vinculados a instituições como MIT e Harvard. Para Nogueira, porém, o desafio não é apenas abrir portas, mas garantir suporte para que estudantes em situação de vulnerabilidade possam atravessá-las.

“Muitas vezes esse aluno é uma peça fundamental no cuidado familiar dentro daquela comunidade”, afirmou. “A gente precisa sempre encaminhar esse aluno com suporte.”

No ano de seu aniversário de 70 anos, a Fundação Bradesco também investe em uma estratégia de comunicação para reforçar seu legado. Com o conceito “De geração em geração, transformando histórias”, a campanha busca associar a trajetória da instituição ao impacto concreto da educação sobre famílias e comunidades. As primeiras peças foram exibidas no intervalo do Fantástico e terão desdobramentos em cinema, mídia exterior digital e redes sociais.

A celebração inclui ainda um selo comemorativo inspirado na imagem de uma pedra lançada na água, cujas ondas se expandem gradualmente. A metáfora resume a ambição original de Amador Aguiar e o desafio atual da fundação: transformar uma decisão tomada há sete décadas em impacto social crescente, mensurável e contemporâneo.

Em um país ainda marcado por desigualdades profundas no acesso à educação de qualidade, a Fundação Bradesco chega aos 70 anos tentando combinar tradição e reinvenção. O plano não é crescer em número de escolas, mas ampliar a potência das unidades existentes. Menos expansão territorial e mais profundidade pedagógica. Menos celebração institucional e mais disputa por resultado educacional.

A mensagem de Murilo Nogueira sintetiza essa virada. A Fundação Bradesco quer continuar sendo o maior projeto de investimento social privado do país, mas, sobretudo, quer ser reconhecida como uma rede capaz de formar estudantes vulneráveis com o mesmo padrão de exigência das melhores escolas brasileiras. Aos 70 anos, a fundação parece olhar menos para o tamanho de sua história e mais para a responsabilidade de seu próximo ciclo.






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