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sábado, agosto 8, 2026

Ningxia quer aposentar o título de “Bordeaux da China” e revelar seu próprio terroir

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Entre o deserto de Gobi e as montanhas Helan, a província de Ningxia passou por uma transformação que levou terras degradadas a se tornarem uma das novas fronteiras do vinho chinês, o que lhe rendeu a alcunha de “Bordeaux da China”.

Dos 214 vinhos premiados no Decanter World Wine Awards 2026, metade foi produzida em Ningxia. Um deles, o Helanhong Jiangnan Reserva Tinto 2019, da vinícola estatal Helanhong, recebeu a medalha Platina com 97 pontos — uma distinção concedida a poucos.

Por décadas, a região viveu do pastoreio, da agricultura de subsistência e do carvão, mas, no final dos anos 1990, o governo chinês decidiu investir em viticultura. Hoje Ningxia reúne 130 vinícolas, responsáveis por 140 milhões de garrafas por ano.

Embora o foco principal seja o mercado doméstico, parte da produção já chega a cerca de 40 países. França, Reino Unido, Hong Kong e Macau concentram metade das exportações estratégicas para a projeção internacional dos vinhos de Ningxia.

Apostando no potencial da região gigantes como os grupos franceses LVMH e Pernod Ricard e a australiana Treasury Wine Estates já estão produzindo vinhos em Ningxia.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Todo outono, após a colheita em Ningxia, no norte da China, milhões de videiras são podadas. Trabalhadores soltam cada planta das treliças e dobram os troncos rente ao solo, cobrindo-os com terra para protegê-los do frio de 20 graus negativos até a primavera.

Conhecida como vine burial, a técnica é comum em regiões de inverno extremo. Em Ningxia, porém, a escala da operação impressiona: quase 40 mil hectares de vinhedos, uma área equivalente a toda a superfície de parreirais da Nova Zelândia. Mais surpreendente ainda é a rapidez com que a província, entre o deserto de Gobi e as montanhas Helan, foi reconhecida internacionalmente pelos seus vinhos.

“A China é um país continental e poderia ter diversos terroirs onde uma vitivinicultura poderia florescer, mas Ningxia foi ‘a’ eleita para ser a joia da coroa”, explica Diego Arrebola, tricampeão brasileiro de sommeliers, em entrevista ao NeoFeed .

“A qualidade não está na técnica empregada, mas no clima seco, da sanidade das uvas, da amplitude térmica e da maturação equilibrada”, complementa.

Desde 2011, a região vem acumulando honrarias em alguns dos concursos mais importantes do mundo. Em junho, por exemplo, Ningxia respondeu por metade dos 214 prêmios conquistados pela China no Decanter World Wine Awards 2026 — em 2015, foram apenas 33.

Entre os destaques está o Helanhong Jiangnan Reserva Tinto 2019, da vinícola estatal Helanhong. Elaborado com Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc, o rótulo recebeu a medalha Platina com 97 pontos na competição — uma distinção concedida a poucos.

O prestígio conquistado pelo terroir nasceu de uma transformação radical da paisagem. Durante décadas, Ningxia viveu do pastoreio, da agricultura de subsistência e, em seguida, da mineração de carvão. A exploração intensiva deixou crateras de até 40 metros de profundidade, agravou a poluição do ar e acelerou a desertificação.

No final dos anos 1990, o governo apostou na viticultura como barreira contra o avanço do deserto, levando água do rio Amarelo aos vinhedos e oferecendo incentivos fiscais.

140 milhões de garrafas

O investimento em infraestrutura e pesquisa deu resultado. Em 2011, a Helan Qingxue conquistou o Troféu Internacional do Decanter. No mesmo ano, quatro rótulos de Ningxia ficaram entre os cinco mais bem avaliados em um teste às cegas com provadores franceses e chineses. A partir daí, a região passou a ser chamada de “Bordeaux da China”.

“A comparação fez sentido no início, pela presença dominante de Cabernet Sauvignon e Merlot. Mas hoje ela já não traduz completamente a realidade”, avalia o sommelier. “Além da grande variedade de castas, os melhores vinhos apresentam características próprias, com fruta mais intensa, taninos maduros e uma expressão ligada ao clima seco e à elevada luminosidade.”

Atualmente, as 130 vinícolas estabelecidas em Ningxia produzem 140 milhões de garrafas por ano — o que equivale a 50% de todo o vinho nacional chinês.

Embora o foco principal seja o mercado doméstico, parte da produção já chega a cerca de 40 países. França, Reino Unido, Hong Kong e Macau concentram metade das exportações estratégicas para a projeção internacional dos vinhos de Ningxia.

Toda essa engrenagem é viabilizada por um modelo governamental. Como toda a terra pertence ao Estado, o governo prepara a infraestrutura — limpa o terreno, constrói canais de irrigação e puxa a rede elétrica. Então arrenda os lotes a preços baixos para atrair capital privado.

É o caso da vinícola Xige Estate, fundada em 2017 pelo enólogo Zhang Yanzhi. Seu tinto Jade Dove Single Vineyard (US$ 45 a US$ 60) ganhou projeção global em abril de 2023, quando foi servido no jantar oficial de recepção do presidente Emmanuel Macron. O líder francês gostou tanto da bebida, marcada por notas herbáceas, couro, geleia de morango e taninos finos, que pediu algumas garrafas para levar para casa.

Produzido pela vinícola estatal Helanhong, o Helanhong Jiangnan Reserva Tinto 2019 recebeu a medalha Platina com 97 pontos no Decanter World Wine Awards 2026

Um corte de Cabernet Sauvignon e Merlot, o Preety Pony, da Kanaan Winery, custa cerca de US$ 50

A cerca de US$ 80, o rótulo The Summit deu à vinícola Silver Heights o status de cult

Em visita oficial à China, o presidente Emmanuel Macron gostou tanto do tinto Jade Dove Single Vineyard que quis levar algumas garrafas para casa

Para proteger as vinhas do frio extremo, elas são enterradas no inverno e desenterradas na primavera

Ningxia aposta na uva Marselan para construir uma identidade própria no cenário internacional do vinho

Fundada em 2018, vinícola Helanhong está entre os produtores que impulsionaram a projeção internacional dos vinhos de Ningxia

Em 2025, a australiana Treasury Wine Estates comprou 75% da Ningxia Stone & Moon por cerca de US$ 18 milhões (Foto: tweglobal.com)

Há ainda os produtores familiares da região. Entre eles, está a pioneira Silver Heights. Criada em 2007 por Emma Gao, a vinícola alcançou status de cult com o rótulo The Summit (US$ 80), blend de Cabernet e Merlot.

Ao lado dela, projetos independentes de prestígio como a Kanaan Winery, da enóloga Wang Fang, consolidaram a reputação dos produtores autorais da província. Seu destaque é o premiado tinto Pretty Pony (cerca de US$ 50), um corte de Cabernet Sauvignon e Merlot marcado por aromas de groselha preta fresca, café e chocolate amargo.

Ningxia também atraiu gigantes internacionais. A francesa Pernod Ricard assumiu a Helan Mountain, onde produz o tinto Helan Mountain Grand Reserve (entre US$ 60 e US$ 80). A LVMH fundou a Chandon Ningxia, cujo carro-chefe é a Chandon China Brut (entre US$ 25 e US$ 35).

E, em 2025, a australiana Treasury Wine Estates comprou 75% da Ningxia Stone & Moon por cerca de US$ 18 milhões para produzir o Penfolds CWT 521 (US$ 120). Foi uma estratégia para reduzir a exposição do grupo às instabilidades geopolíticas — anos antes, a China impôs tarifas de 218,4% aos vinhos da Austrália.

Uva de assinatura

Com o amadurecimento da vitivinicultura local, o desafio agora é construir uma identidade de origem autêntica. E a aposta está na Marselan como uva de assinatura.

Criada na França em 1961 a partir do cruzamento de Cabernet Sauvignon com Grenache, a variedade nunca foi protagonista nas regiões vinícolas tradicionais. Mas, em Ningxia, ela se adaptou muito bem, dando origem a vinhos concentrados, de cor rubi-púrpura retinta, taninos muito doces e aromas florais de violetas.

Hoje, cerca de 4 mil hectares de Marselan são cultivados na China, tornando o país o segundo maior produtor da casta, atrás apenas da França.

Embora ocupe apenas 5% dos vinhedos de Ningxia, os rótulos elaborados com a espécie conquistam, desde 2017, os principais prêmios em competições internacionais e aparecem cada vez mais na lista dos 100 melhores vinhos da China de James Suckling, um dos críticos mais influentes do mundo.

Apesar do prestígio internacional, provar um vinho chinês — mesmo os famosos de Ningxia — ainda é para poucos. A presença da bebida no exterior segue estratégica e focada no segmento ultrapremium .

“A região já provou que consegue produzir grandes vinhos”, diz Diego. “O desafio agora é fazer com que o consumidor compre um vinho de Ningxia não porque ele lembra outro terroir, mas porque ele expressa algo único.”



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