A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender neste domingo (26), ao menos temporariamente, uma nova escalada militar contra o Irã começou a retirar dos mercados globais parte do prêmio de risco acumulado nas últimas semanas. O primeiro reflexo apareceu no petróleo, que chegou a despencar mais de 7% neste domingo (26), enquanto os contratos futuros das bolsas americanas avançaram, indicando um início de semana mais favorável aos ativos de risco.
O movimento representa uma inversão importante em relação ao cenário que predominava até sexta-feira. Depois de 13 noites consecutivas de ataques americanos contra alvos iranianos e de declarações de Trump indicando a possibilidade de uma ofensiva ainda maior, investidores passaram a trabalhar com o risco de uma expansão do conflito no Oriente Médio e de novas interrupções no fornecimento mundial de energia.
No fim de semana, porém, Washington interrompeu os ataques, enquanto Teerã também suspendeu suas ações de resposta. A mudança foi suficiente para provocar uma forte correção nas commodities energéticas. O petróleo Brent, referência internacional, caiu mais de 7% nos primeiros negócios da semana e chegou a ser negociado abaixo dos US$ 90 por barril, antes de reduzir as perdas e operar próximo de US$ 92.
A reação mostra o tamanho do prêmio geopolítico incorporado às cotações. Apesar da queda deste domingo, o Brent ainda acumula valorização superior a 25% em julho, resultado da preocupação com os efeitos da guerra sobre as rotas de transporte e a infraestrutura energética do Oriente Médio.
O recuo de Trump não significa necessariamente uma mudança definitiva na estratégia americana. Segundo The New York Times, a decisão ocorreu depois de uma reunião de Trump com assessores de alto escalão e integrantes de seu gabinete na sexta-feira. Uma das principais preocupações apresentadas ao presidente foi o desgaste dos estoques americanos de interceptores Patriot e de outras munições utilizadas na defesa aérea das bases dos Estados Unidos no Oriente Médio.
Segundo a reportagem, o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, teria alertado que uma nova grande operação militar contra o Irã seria possível, mas poderia reduzir perigosamente os interceptores disponíveis para o Comando Central americano.
O problema ganhou dimensão adicional depois que três militares americanos morreram na Jordânia na sexta-feira (24), quando um míssil balístico conseguiu atravessar as defesas durante uma ofensiva iraniana com mísseis e drones. Uma campanha americana mais ampla poderia provocar uma resposta ainda mais intensa de Teerã e aumentar a necessidade de munições defensivas para proteger instalações dos Estados Unidos e de seus aliados.
Além da questão militar, havia preocupações econômicas e diplomáticas. Integrantes do governo americano avaliavam os riscos de afastamento dos aliados estratégicos do Golfo, de agravamento das crises energética e humanitária e, sobretudo, da possibilidade de o conflito desencadear uma crise econômica global.
Apenas um dia antes da mudança de postura, Trump havia afirmado que considerava realizar um ataque de grandes proporções contra o Irã. O Pentágono também havia deslocado tropas, armamentos e suprimentos adicionais para a região diante da possibilidade de uma nova fase da ofensiva.
Alívio financeiro
Para os mercados, a suspensão dos ataques altera principalmente a percepção sobre o risco de um choque energético. O Oriente Médio permanece no centro do abastecimento mundial de petróleo e gás. Desde o início do conflito, ataques contra instalações energéticas e ameaças às principais rotas marítimas aumentaram o temor de redução da oferta global. Em março, a Agência Internacional de Energia chegou a anunciar uma liberação histórica de 400 milhões de barris das reservas mundiais diante da dimensão das interrupções provocadas pela guerra.
Quanto maior o risco de interrupção da produção e do transporte, maior tende a ser o prêmio incorporado ao barril. A suspensão dos ataques americanos produz o efeito contrário: reduz, pelo menos momentaneamente, a probabilidade de novos danos à infraestrutura energética e permite a retirada de parte desse prêmio.
A queda do petróleo tem implicações que vão além das companhias do setor. Energia mais barata reduz pressões sobre custos de transporte, indústria e cadeias de produção, além de diminuir o risco de uma nova aceleração da inflação mundial.
Esse mecanismo é particularmente importante neste momento porque a disparada recente do petróleo havia reacendido o temor de que bancos centrais fossem obrigados a manter juros elevados por mais tempo para impedir que o choque energético contaminasse os índices de preços.
Com a redução desse risco, o ambiente torna-se mais favorável para ações, principalmente empresas de tecnologia, consumo, transporte e outros setores mais sensíveis aos juros e aos custos energéticos.
Bolsas reagem
Os primeiros negócios confirmam essa mudança de percepção. Na noite deste domingo, os futuros do Dow Jones avançavam cerca de 0,5%, enquanto os contratos ligados ao S&P 500 subiam 0,6%. Os futuros do Nasdaq 100, índice com forte concentração de empresas de tecnologia, registravam valorização próxima de 1,2%.
O movimento abre espaço para uma recuperação das bolsas globais ao longo da semana caso a redução das hostilidades seja mantida. Não se trata, porém, de uma tendência garantida. O mercado continuará extremamente sensível a declarações de Washington e Teerã e, sobretudo, a qualquer novo ataque na região.
Os investidores também terão uma agenda econômica carregada. Nos Estados Unidos, as atenções estarão concentradas na reunião do Federal Reserve e na temporada de resultados corporativos, com balanços de algumas das maiores empresas americanas.
A combinação de petróleo mais barato, redução do risco geopolítico e eventual diminuição das pressões inflacionárias pode melhorar a relação entre risco e retorno dos ativos de renda variável. Mas uma retomada dos ataques poderia desfazer rapidamente esse movimento.
Trégua frágil
O principal ponto de cautela está justamente no caráter provisório da decisão americana. A Casa Branca mantém publicamente todas as opções em aberto. Steven Cheung, diretor de comunicações do governo Trump, afirmou que o presidente prefere uma solução diplomática, mas continua considerando outras alternativas caso o Irã mantenha ações no Estreito de Ormuz ou contra aliados americanos.
Também permanecem focos de tensão fora do confronto direto entre Washington e Teerã. Os houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, afirmaram ter atacado instalações da Saudi Aramco em Jizan e Yanbu, embora até este domingo nem o governo saudita nem a companhia tivessem confirmado a ofensiva.
Yanbu ganhou importância estratégica porque fica no extremo oeste do oleoduto Leste-Oeste saudita e passou a funcionar como uma das principais alternativas para o escoamento de petróleo diante das dificuldades no Estreito de Ormuz. Um agravamento das hostilidades nessa região poderia recolocar rapidamente pressão sobre as cotações.
Por isso, o comportamento dos mercados nesta semana dependerá menos da queda de braço verbal entre Trump e o governo iraniano e mais da capacidade dos dois lados de transformar a suspensão dos ataques em algum tipo de retomada diplomática.
O que mudou, por enquanto, foi a avaliação do risco extremo. Na semana passada, investidores precisavam precificar a possibilidade de uma ofensiva americana de grande escala, retaliação iraniana e novas interrupções na oferta de energia. Neste domingo, esse cenário perdeu força.
A queda superior a 7% do Brent e a alta dos futuros de Wall Street são a tradução financeira dessa mudança. Se a trégua sobreviver aos próximos dias, o petróleo poderá devolver parte adicional do prêmio acumulado durante a escalada e as bolsas terão espaço para recuperar terreno. Se os ataques forem retomados, porém, a volatilidade pode retornar com a mesma velocidade com que diminuiu.




