A transformação dos meios de pagamento no Brasil começa a avançar para uma etapa em que concluir uma compra poderá exigir cada vez menos ações do consumidor. Depois da popularização do Pix, dos cartões por aproximação e das carteiras digitais, tecnologias como inteligência artificial, Open Finance e tokenização criam condições para que a própria etapa de pagamento se torne quase imperceptível.
O movimento é impulsionado pela busca dos consumidores por experiências mais rápidas, pela multiplicação das formas de pagamento e pela necessidade de reforçar mecanismos de segurança diante do avanço das fraudes. Nesse cenário, o Brasil parte de um mercado que já apresenta elevada adoção de tecnologias financeiras.
Atualmente, 74,8% dos pagamentos com cartões são realizados por aproximação, enquanto as operações instantâneas por Pix já representam a maioria dos pagamentos efetuados no varejo. No crédito, pouco mais de 50% das transações com cartões ocorrem de forma parcelada. Essa combinação coloca o mercado brasileiro entre os mais avançados na incorporação de diferentes modalidades de pagamento.
A evolução, porém, não deve terminar nessas tecnologias. A disseminação das carteiras digitais, a criação de uma infraestrutura ampla de pagamentos instantâneos e a cultura brasileira de parcelamento no varejo formaram as bases para uma nova geração de serviços financeiros.
O próximo avanço tende a ser sustentado pela combinação de novas funcionalidades incorporadas ao Pix, pela consolidação do Open Finance e pela adoção crescente da inteligência artificial por consumidores e empresas. O resultado pode ser uma mudança na própria lógica das transações, com menos etapas visíveis entre a decisão de compra e a liquidação do pagamento.
Autorização antecipada
Entre as soluções que começam a ganhar espaço estão pagamentos agênticos, cobranças apoiadas na tokenização de garantias, modalidades de parcelamento ou diferimento garantido e pagamentos por check-in.
Apesar das diferenças entre esses modelos, eles compartilham uma característica: a identificação das partes e as condições da cobrança podem ser avaliadas previamente por quem paga e por quem recebe. Dessa maneira, procedimentos de segurança e validação deixam de ficar concentrados exclusivamente no instante da compra e passam a ocorrer antecipadamente.
A mudança permite simplificar ou, em determinadas situações, eliminar a etapa convencional de autorização. O princípio já aparece em serviços digitais. Ao solicitar uma corrida por aplicativo ou reservar um imóvel em uma plataforma de aluguel por temporada, por exemplo, o usuário não precisa executar novamente todo o processo de pagamento ao final da experiência.
A novidade está na possibilidade de transportar essa lógica para estabelecimentos físicos e diferentes meios de pagamento.
Compra sem caixa
A evolução dessas tecnologias pode disseminar relações financeiras baseadas em confiança previamente estabelecida, conceito que já existe nos débitos automáticos e ganha novas possibilidades com o Pix Automático.
Outra consequência é a criação de estabelecimentos nos quais o consumidor não precisa passar por caixas tradicionais nem mesmo por terminais de self-checkout. A identificação do cliente, o registro da compra e a cobrança podem ser integrados à própria experiência dentro da loja.
A inteligência artificial acrescenta uma terceira dimensão a esse processo. Agentes de IA poderão assumir determinadas funções relacionadas à execução dos pagamentos e aos controles de segurança, dentro de parâmetros previamente estabelecidos pelo usuário ou pela empresa.
A infraestrutura tecnológica necessária para desenvolver essas soluções já está disponível. O principal desafio para as companhias passa a ser estruturar sistemas inteligentes e dinâmicos de cadastro e identificação, capazes de manter atualizadas as informações utilizadas para estabelecer relações de consumo e autorizar transações.
Menos fricção
A adoção dos pagamentos invisíveis tende a ser impulsionada principalmente por conveniência, redução de custos e segurança. Ao diminuir etapas entre a intenção de compra e a conclusão da transação, as empresas podem reduzir a fricção em um ambiente no qual consumidores estão mais impacientes e têm facilidade para abandonar uma compra.
A possibilidade de selecionar automaticamente modalidades de pagamento mais econômicas também pode diminuir custos para empresas e consumidores. Ao mesmo tempo, a evolução das fraudes digitais aumenta a pressão sobre sistemas tradicionais de autenticação.
Senhas e até mecanismos de reconhecimento visual podem se tornar progressivamente mais vulneráveis diante da disseminação da inteligência artificial. Sistemas baseados em identificação antecipada, contexto da transação e relações previamente autorizadas surgem, assim, como alternativas para reforçar a segurança.
A combinação entre infraestrutura tecnológica disponível e demanda por experiências mais simples cria as condições para acelerar esse mercado nos próximos dois anos. Se essa tendência se confirmar, a próxima transformação dos meios de pagamento poderá ser justamente aquela que o consumidor quase não percebe.
*Juan Ferrés é fundador e sócio da Teros, plataforma de hiperautomação inteligente para decisões financeiras




