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quarta-feira, agosto 19, 2026

Ou o Brasil acaba com os juros altos, ou os juros altos acabam com o Brasil

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O naturalista e botânico francês Auguste de Saint-Hilaire disse, no século 19, uma frase que se transformou em uma metáfora dos grandes problemas brasileiros. “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. A “praga” no século 21 são as altas taxas de juros, que estão acima de 10% desde fevereiro de 2022 – hoje estão em 14%.

A consequência dessa política de juros acima de dois dígitos por tanto tempo na economia real é uma onda de pedidos de recuperação judicial e extrajudicial. Na B3, por exemplo, há 21 empresas de capital aberto em RJ e outras 4 em RE. São nomes como Toky, dona da Tok&Stok, GPA, Raízen, Oncoclínicas, Ambipar, AgroGalaxy, Bombril, Estrela e Rossi Residencial, entre outros nomes. A varejista Casas Bahia é o nome mais recente nessa lista.

A inadimplência também explodiu. De acordo com a Serasa Experian, em junho deste ano, o número de CNPJs com dívidas em atraso chegou a 9,1 milhões, atingindo um valor de R$ 232,9 bilhões. O endividamento das famílias brasileiras atingiu 82% em julho de 2026, o maior patamar histórico da série da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

No caso das empresas, pode-se justificar que chegaram a essa situação por diversas razões que vão de má gestão, M&As mal digeridos, estratégias equivocadas e estruturas de capital que deixaram de ser sustentáveis. Mas há um fator que é comum a todas: as taxas de juros acima de dois dígitos.

O NeoFeed ouviu, nesta semana, empresários, economistas e advogados sobre os juros e as causas que têm levado o Brasil a praticar essa política monetária. De uma certa maneira, o sentimento reinante pode ser resumido parafraseando Saint-Hilaire: “Ou o Brasil acaba com os juros altos, ou os juros altos acabam com o Brasil”.

“Conheço várias empresas que pararam de fazer investimentos”, afirma Rubens Menin, dono de um grupo diversificado de negócios que tem marcas como MRV, Log, Inter, além dos grupos de mídia CNN Brasil e Itatiaia e SAF do Clube Atlético Mineiro.

“Não há investimento que pague Selic de 14%, mais spread. Acaba indo para 18%, 20%. Primeiro, tem pouco recurso disponível, depois o recurso é muito caro e, por último, o investimento não dá o retorno. Não tem jeito, esses juros altos estão arrebentando com o futuro do Brasil”, complementa.

“Não há investimento que pague Selic de 14%, mais spread. Esses juros altos estão arrebentando com o futuro do Brasil”, diz Rubens Menin

Para Ricardo Lacerda, fundador e CEO do BR Partners, a questão é muito mais complexa. “O problema não é só que o juro está alto por muito tempo. Quando se olha para o futuro, ele fica alto indefinidamente. E isso é impossível de conviver. Isso faz com que a capacidade de se financiar das empresas desapareça”, diz Lacerda.

Em sua visão, quando os juros estavam em um dígito, uma companhia podia carregar uma dívida equivalente a três ou quatro vezes seu Ebitda e encontrar um caminho relativamente administrável de desalavancagem. Hoje, empresas com alavancagem de duas a 2,5 vezes podem enfrentar dificuldades para reduzir o passivo.

“Isso vai gerar uma crise muito grande. Vamos ter problemas sérios de crédito. É preciso trabalhar para reverter essa expectativa. Não dá para conviver com isso por tempo indeterminado”, afirma Lacerda.

Economia real

O efeito na economia real fica cada vez mais visível nos balanços. Observe o exemplo da rede de supermercado GPA, que recorreu a uma recuperação extrajudicial e renegociou R$ 4,5 bilhões em dívidas, reduzindo o passivo sujeito à operação para R$ 2,3 bilhões e alongando seu prazo de dois anos e quatro meses para seis anos.

“Uma das reflexões importantes que temos de ter sobre os juros não é somente o nível em que eles estão, mas a duração”, diz Alexandre Santoro, CEO do GPA. “Ter uma alta por um trimestre ou outro é uma coisa, mas um ciclo como o que estamos vivendo é diferente.”

Além da reestruturação financeira, a companhia também precisa adequar sua estrutura ao tamanho atual da operação. Centros logísticos construídos para um GPA muito maior estão com capacidade ociosa e devem ser negociados. E a abertura de novas lojas, ao menos neste momento, está descartada.

“Para você fazer um investimento, é preciso ter uma clareza muito grande do retorno. E, num cenário como esse, com o dinheiro muito caro e os juros muito altos, aumenta o custo de um possível erro. Portanto, não tem sentido fazer expansão. Vamos, no momento adequado, investir nas lojas que já temos. E, mesmo assim, com muita disciplina. Porque, de novo, a margem de erro é muito pequena”, afirma Santoro.

O GPA está no varejo, um dos setores mais sensíveis às taxas de juros. Mas o segmento em que as RJs mais crescem é no agro, apesar dos recordes sucessivos de produção. A explicação é financeira. O setor exige capital antes de produzir receita. O produtor compra insumos, planta, financia a operação e só recebe depois da colheita.

Nesse intervalo, está exposto simultaneamente a juros, preços internacionais e clima. Uma boa safra, portanto, não impede uma crise de balanço. “Nos últimos três anos, a inadimplência aumentou a ocorrência de reestruturações no agro e criou um ciclo vicioso e negativo”, afirma Eron Martins, CEO da Belagrícola.

“O problema não é que o juro está alto por muito tempo. Quando se olha para o futuro, ele fica alto indefinidamente”, diz Ricardo Lacerda, do BR Partners

Martins chegou à distribuidora agrícola em fevereiro para liderar seu plano de recuperação extrajudicial. Antes, esteve à frente da recuperação judicial da AgroGalaxy, iniciada em setembro de 2024.

Na Belagrícola, o ajuste teve efeitos concretos: a empresa reduziu pela metade seu quadro de funcionários em quatro meses e concentrou a operação em regiões de maior margem, maior rentabilidade e menor exposição ao risco de crédito.

“Vai haver um incremento nos processos de recuperação, seja na forma judicial ou extrajudicial, porque, infelizmente, as companhias não terão tempo hábil para continuar respirando por muito mais tempo sem um acordo”, diz Giuliano Colombo, sócio da área de reestruturação do escritório Pinheiro Neto Advogados.

Para ele, o ritmo de cortes da Selic é lento para trazer um maior alívio às empresas. Colombo estima que as companhias demorem até quatro trimestres para incorporar os benefícios dos cortes ocorridos em 2026. “A tendência é que ainda ocorram processos grandes e ‘icônicos’ de recuperação, ao menos até o próximo ano”, afirma.

O custo na bolsa

O custo das reestruturações também aparece na bolsa de valores. Um levantamento da consultoria Elos Ayta, com companhias abertas em recuperação judicial ou extrajudicial, feito para o NeoFeed, mostra que, entre as 23 empresas com histórico de negociação disponível desde a entrada no processo, 22 acumulam queda nas ações – a única exceção é a Hotéis Othon. Na mediana, a perda chega a 66,25%.

Entre as grandes empresas, parte crescente das reestruturações migrou da recuperação judicial para a extrajudicial, instrumento menos estigmatizado e que permite negociar previamente com os credores. Somente Raízen, GPA e Oncoclínicas somam cerca de R$ 75 bilhões em passivos reorganizados dessa maneira.

“Temos casos de companhias que passaram por reestruturações, melhorias de eficiência e turnaround, mas o resultado desse esforço ainda é insuficiente para pagar o serviço da dívida, que disparou nos últimos anos”, diz Ivo Waisberg, sócio-fundador da TWK Advogados. “Não tem milagre que faça o resultado operacional cobrir essa diferença.”

Os “sem crédito”

A duração faz o juro percorrer toda a companhia. Primeiro, aumenta o custo de carregar a própria dívida. Depois, atinge o consumidor, que também passa a comprometer uma parcela maior da renda com juros. A pressão que começou na despesa financeira volta, então, para a empresa por meio da receita.

Quando o risco aumenta e os balanços se deterioram, o crédito fica mais caro – ou desaparece. “São poucos projetos, hoje, em que você vai conseguir ter uma rentabilidade em um patamar de 20%, 25% que justifique você fazer um investimento”, diz Leopoldo de Bruggen e Silva, CEO da Sequoia.

Para a empresa de logística, que está em recuperação extrajudicial desde março do ano passado, em um mercado já seletivo, empresas nessa situação vão para “o último lugar da fila” do crédito.

“Não tem sentido fazer expansão. Vamos, no momento adequado, investir nas lojas que já temos”, diz Alexandre Santoro, do GPA

Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, identifica a mesma transmissão de outro lado da economia. “As famílias são empurradas para linhas de crédito mais caras, como o rotativo, acelerando o endividamento”, afirma.

Menos renda disponível significa menos consumo, justamente quando as empresas também enfrentam custos financeiros maiores. Para Vitória, o aperto monetário prolongado tem relação direta com uma política fiscal que manteve a demanda aquecida por mais tempo e obrigou a política monetária a fazer um trabalho maior para desacelerar a economia.

“Agora que o impulso fiscal perdeu força e o espaço para novos estímulos se esgotou, o peso total dos juros elevados está finalmente sendo sentido pela economia”, diz ela.

Corrosão e despesas financeiras

O que tem acontecido nesses últimos anos é que o lucro das empresas vem sendo corroído por despesas financeiras, o que culmina na recuperação judicial. A projeção dos especialistas é que mais empresas entrem nessa situação ao longo deste segundo semestre.

No fim do primeiro semestre, havia 6.341 empresas em recuperação judicial, de acordo com o Monitor RGF-Bizdoc, um levantamento produzido pelas consultorias RGF e Bizdoc, especializadas em reestruturação. Em 12 meses, o estoque havia crescido 21,2%. Considerando uma base mais ampla de CNPJs, eram 7.980 registros.

Há, atualmente, 1.028 empresas classificadas como grandes ou muito grandes em recuperação judicial. Mas o próprio levantamento mostra que, no topo da pirâmide, empresas pressionadas passaram a utilizar com maior frequência a recuperação extrajudicial.

Ao mesmo tempo, o problema começa a descer de tamanho: desde 2023, a incidência de recuperação judicial cresceu entre micro, pequenas e médias empresas. “Assim como qualquer outro fenômeno conjuntural, os juros atingem com mais força quem está vulnerável”, diz Claudio Damasceno, sócio da RGF Bizdoc.

É o caso do Grupo Gennius Brasil, que controla as marcas Habib’s (restaurante de comida árabe), Ragazzo (rede de massas), Mita (marmitas para delivery) e Tendall Grill (churrascaria).

Conforme revelou com exclusividade o NeoFeed, a dona do Habib’s pediu no início de julho à Justiça uma blindagem de execuções de cobranças por um período de 60 dias para tentar evitar a RJ com uma dívida acumulada de R$ 312,4 milhões.

“Estamos em uma fase de tantos casos que nem todos estão no radar”, afirma Marcelo Ricupero, sócio da área de reestruturação e insolvência do Mattos Filho.

Em crises anteriores, o mercado normalmente possuía uma espécie de lista de companhias consideradas candidatas naturais a uma recuperação, as chamadas usual suspects. Agora, esse radar ficou mais difuso.

Questão estrutural do País

Se o juro é tão prejudicial para investimento e crescimento, por que continua tão alto? Para Márcio Holland, professor da FGV EESP e ex-Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a resposta não está apenas na conjuntura.

“As causas principais incluem uma reforma monetária e fiscal inacabada desde o Plano Real”, afirma Holland, que é autor do livro Taxa de Juros no Brasil, lançado recentemente.

Segundo Holland, o Brasil combina problemas fiscais, particularidades de seu mercado de crédito e questões institucionais que ajudam a explicar por que permanece há décadas entre os países que pagam os maiores juros do mundo.

O ex-Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda chama atenção para um paradoxo recente: mesmo em um período de crescimento econômico robusto, a dívida pública avançou.

“É um ciclo que se retroalimenta. O PIB cresceu mais de 3% ao ano, mas a dívida pública avançou dez pontos percentuais, para 81,9% do PIB. É um contrassenso”, afirma, acrescentando que o País, segundo ele, gasta mais de R$ 1 trilhão por ano com juros da dívida pública.

Por essa razão, uma das demandas dos empresários ouvidos pelo NeoFeed é que o governo que ganhar a eleição, independente de quem for, ajuste as contas públicas.

“Precisamos pensar no Brasil para um cenário de curto, médio e longo prazos. E não apenas fazer planos para navegar 500 milhas ou mil milhas”, afirma Laércio Cosentino, da Totvs

“Temos de brigar pelos juros, mas brigar também por um Brasil mais competitivo. E um Brasil que tem um plano. Precisamos pensar no Brasil para um cenário de curto, médio e longo prazos. E não apenas fazer planos para navegar 500 milhas ou mil milhas”, afirma Laércio Cosentino, presidente do conselho de administração da Totvs.

Menin faz coro à opinião de Cosentino. “É muito difícil baixar os juros com o déficit fiscal não resolvido. Todos os candidatos à presidência precisam passar a mensagem de que vão atacar esse problema, independentemente de quem ganhar a eleição.”

Lacerda, do BR Partners, reforça. “Passada a eleição, vamos precisar de um fato novo para que o governo ganhe credibilidade e para que a trajetória da dívida pública se reverta. A palavra choque fiscal é um pouco dramática e dura. Não acho que seja a palavra adequada. Mas precisamos de um fato novo.”

De onde vêm os juros altos?

Os economistas Tiago Berriel e Mateus Della, do BTG Pactual, analisaram a alta dos juros nominais brasileiros de dez anos desde a média observada entre 2017 e 2019. Naquele período, a taxa estava próxima de 9,9%. Em julho de 2026, havia alcançado aproximadamente 14,5%. Uma abertura de cerca de 4,6 pontos percentuais.

De acordo com o estudo, a maior parte desse movimento não veio simplesmente de um aumento do prêmio cobrado pelo investidor para correr o risco Brasil. Cerca de 305 pontos-base (aproximadamente dois terços da abertura) vieram do componente de juros esperados. E os outros 159 pontos-base vieram do prêmio a termo.

Na conclusão de Berriel e Della, o mercado está dizendo tanto que o Brasil ficou mais arriscado quanto que é preciso cobrar mais para emprestar ao País. E, com isso, o País precisará conviver com juros maiores por mais tempo.

Mas o estudo do BTG mostra que nem tudo está na conta do que acontece em Brasília. Olhando apenas para a parcela explicada pelos fundamentos que podem ser observados, pouco mais de 60% é doméstica e pouco menos de 40% externa.

O principal choque externo foi a alta do juro real americano. Segundo o estudo, historicamente um aumento de 100 pontos-base no TIPS americano de cinco anos está associado a cerca de 98 pontos-base nos juros nominais brasileiros de dez anos.

Do lado doméstico, o fiscal aparece pelo lado da demanda com uma política fiscal expansionista, que mantém a economia mais aquecida, aumenta o juro neutro de curto prazo e exige uma política monetária mais restritiva para controlar a inflação. Se essa dinâmica persiste, investidores passam a incorporar juros maiores também nas expectativas de longo prazo.

O Copom realizou quatro cortes consecutivos da Taxa Selic, o que baixou o juro de 15% para 14% ao ano. Mas o estudo do BTG mostra por que isso, isoladamente, pode não ser suficiente para devolver o Brasil rapidamente ao regime financeiro anterior.

Em uma simulação feita por Berriel e Della, uma redução da Selic de 14,25% para 10%, mantendo as demais condições constantes, produziria uma queda de apenas cerca de 80 pontos-base no componente esperado dos juros de dez anos. Isso significa que uma redução de mais de quatro pontos percentuais na taxa básica não eliminaria, sozinha, a mudança estrutural incorporada à curva.

Para um movimento mais expressivo, segundo o estudo, seria necessário combinar a flexibilização monetária com melhora das expectativas de inflação e um ambiente fiscal que levasse o mercado a enxergar um juro de equilíbrio menor.

É nesse terreno que Raul Velloso, especialista em contas públicas e Previdência, vê o principal desafio. “O problema é, primeiro, fiscal e, dentro dele, previdenciário”, afirma. Os números comprovam o economista: as despesas com aposentadorias e pensões chegaram a R$ 1,287 trilhão em 2025, equivalente a 44% das despesas da União e 11% do PIB.

Holland também rejeita a ideia de que uma nova regra fiscal, isoladamente, seja suficiente. “É inútil criar uma regra fiscal nova sem mexer nos gastos públicos. Cria-se um teto, mas as despesas acabam sempre estourando o teto. Não adianta, esse teto é de vidro”, afirma. “Tampouco basta gerar superávit primário um ano e no outro voltar ao déficit porque é ano eleitoral.”

No fim, o Brasil parece preso a um paradoxo que se repete há décadas: tenta crescer carregando um custo financeiro que corrói qualquer impulso de desenvolvimento. Os números mostram que o país inteiro está respirando com dificuldade. A travessia não depende apenas de cortes na Selic, mas de uma reconstrução de confiança: fiscal, institucional e econômica.

O Brasil venceu a saúva e se tornou uma potência agrícola. Conseguirá vencer a armadilha dos juros altos?



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