Em uma das cenas mais lembradas de “Comer, Rezar, Amar”, a personagem de Julia Roberts come uma legítima pizza napolitana. Sua amiga, porém, resiste porque a calça jeans já não fecha. A solução encontrada pelas duas é simples: comprar uma calça de tamanho maior. Naquele momento, a comida reafirma um pacto com o prazer, a liberdade e a reconciliação com o próprio corpo. Hoje, diante do crescimento do uso das chamadas canetas emagrecedoras, aquela cena parece pertencer a outro tempo.
Como toda inovação da medicina, há, evidentemente, um avanço importante que não pode ser ignorado. Muitas pessoas recuperaram a saúde, a mobilidade e a qualidade de vida por meio do acompanhamento médico adequado. O ponto mais relevante desse debate, no entanto, não está no medicamento em si, mas no que ele começa a revelar sobre nossa relação com a comida, o corpo e a forma como vivemos.
Os primeiros sinais já aparecem na alimentação: menos exagero, menos impulso e menos volume. Em alguns casos, há menos idas a restaurantes e uma procura maior por alimentos considerados saudáveis e proteicos. Aos poucos, a comida deixa de ocupar apenas um espaço de prazer e comensalidade para assumir também uma lógica de controle e desempenho.
Durante muito tempo, o almoço foi uma pausa. Era um momento para sentar, conversar, encontrar pessoas ou simplesmente interromper o ritmo do dia. Esse espaço foi sendo suprimido. Não é incomum comermos diante do computador ou do celular, respondendo a mensagens, acompanhando notificações ou tentando encaixar a refeição entre uma reunião e outra. Come-se rápido e, muitas vezes, sozinho.
Essa mudança não ocorre de forma homogênea na sociedade. Enquanto uma parcela da população discute alimentação funcional, controle do apetite e metabolismo, milhões de brasileiros ainda organizam suas refeições de acordo com o preço do prato feito, o valor do benefício e o tempo disponível para preparar a comida que precisa chegar à mesa da família. Para muitos trabalhadores, portanto, a alimentação continua sendo uma questão de acesso, segurança e previsibilidade.
Por isso, vale observar com atenção o avanço dos chamados benefícios flexíveis. Há uma reflexão importante a ser feita quando o mesmo recurso destinado à alimentação passa a disputar espaço com despesas de farmácia. Em um momento no qual até medicamentos para emagrecimento entram nessa equação, preservar a destinação específica dos benefícios talvez seja menos uma questão de rigidez e mais o reconhecimento de que, para milhões de famílias, aquele valor representa o almoço, as compras do mercado e alguma tranquilidade no fim do mês.
Trata-se de uma contradição difícil de ignorar. Uma parcela da sociedade busca reduzir o apetite, enquanto outra ainda luta para garantir o básico. Esses mundos convivem no mesmo País, muitas vezes na mesma cidade e, em alguns casos, dentro da mesma empresa. Por isso, esse debate é muito maior do que a busca pelo emagrecimento rápido.
Com a chegada das canetas genéricas, essa discussão tende a se ampliar em razão da maior facilidade de acesso. A popularização dessas medicações deve alcançar a rotina de trabalhadores que enfrentam jornadas extensas, pouco tempo para cuidar da saúde, orçamento apertado e escolhas alimentares limitadas pela renda, pelo território e pelas condições de acesso.
Não se trata de negar os avanços médicos nem de transformar a alimentação em uma discussão ética ou moral. Comer melhor é uma conquista no Brasil, e cuidar da saúde também deveria ser. Existe, porém, uma diferença importante entre promover a saúde e transformar o corpo em mais uma meta permanente de performance.
Essa talvez seja a discussão que começa no prato, passa pelo trabalho e termina em uma pergunta maior sobre o tipo de vida que estamos normalizando.
*Simone Marques é CEO da VR




