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quarta-feira, agosto 19, 2026

A Flash “não precisava de dinheiro”, mas acaba de levantar R$ 150 milhões

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Quatro anos depois de captar seu último investimento, a Flash, startup de gestão de benefícios, pessoas e despesas corporativas, está voltando a reforçar seu caixa com uma nova injeção de recursos. E com “velhos conhecidos”.

A empresa anunciou nesta quarta-feira, 19 de agosto, uma rodada série D de R$ 150 milhões, liderada por dois nomes que já integravam o seu captable: a gestora Battery Ventures e o americano Kevin Efrusy, que, entre outros “feitos”, foi um dos primeiros investidores do Facebook, via Accel Partners.

O novo cheque é bem menor do que os US$ 100 milhões (cerca de R$ 500 milhões, na cotação da época) captados em 2022, no aporte também liderado pela Battery Ventures, ao lado da Whale Rock. Mas se encaixa perfeitamente no momento e, principalmente, nos planos da startup.

“Estamos com uma empresa sólida, dobrando ano a ano e, ainda assim, gerando muito caixa. Não precisávamos de dinheiro ou de grandes cheques”, diz Ricardo Salem, cofundador e CEO da Flash, ao NeoFeed. Ele ressalta que havia novos investidores dispostos a fazer aportes mais robustos na operação.

“Mas optamos por fazer com quem já nos conhece, senta no nosso board e já nos ajuda para ganhar opcionalidade e agressividade”, afirma. “Ou seja, não precisávamos de recursos, mas agora, conseguimos ser mais flexíveis e mais ágeis em algumas linhas de investimento.”

Isso não significa que a Flash, que, até então, havia captado mais de R$ 800 milhões, fechou totalmente as portas para investidores externos. A nova rodada marcou a entrada da também americana Endeavor Catalyst em seu captable.

Além de mais esse “carimbo global”, Salem ressalta que o novo aporte é a materialização da tese que a Flash vem construindo nos últimos três anos. Da startup que nasceu, em 2019, como um dos nomes dispostos a desafiar os incumbentes do mercado de benefícios, para uma oferta muito mais ampla.

Sob um conceito de uma plataforma one stop shop, seu modelo passou a embarcar e a centralizar cada vez mais rotinas dos departamentos de recursos humanos, distribuídas nas unidades de negócio de pessoas e de despesas corporativas.

Hoje, com esse formato, a Flash cobre mais de 2 milhões de vidas por meio de mais de 60 mil clientes, entre pequenas e médias empresas e nomes como Pepsico, Suzano e Ford. Dessa base, cerca de 35% já usam mais de um módulo da plataforma da startup.

Além dessa evolução no portfólio, a nova rodada chega em um contexto de movimentações relevantes que aconteceram paralelamente no mercado de origem da Flash. Mais especificamente, no âmbito do vale-refeição e vale-alimentação, regidos pelo Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT).

Com uma receita de R$ 150 bilhões o segmento é, historicamente, dominado por quatro nomes: Alelo, Ticket, Pluxee (ex-Sodexo) e VR. Mas, desde 2021, tem sido alvo de uma série de mudanças de regras, sendo que as mais recentes começaram a entrar em vigor no decorrer deste ano.

O time de C-Levels da Flash: Pedro Lane (em pé, à esq.), Ademar Bandeira, Isadora Gabriel, Guillermo Gomez (sentado, à esq.), Ricardo Salem e Guilherme Lane

Entre diversas outras questões, essa nova etapa estabeleceu a proibição de práticas como os rebates, como ficaram conhecidos os descontos, em média, de 2% a 5% concedidos pelas empresas de benefícios às companhias, em particular, as de grande porte, que contratavam os seus serviços no âmbito do PAT.

“Nos últimos três anos, essas mudanças definiram o modelo que nós pensamos há 5, 6 anos como o novo default da indústria”, diz Salem. “Nós sempre dissemos que, nesse contexto, o melhor produto e serviço é que ganharia o jogo”.

Destinos do novo cheque

Sob esse contexto regulatório mais favorável, a Flash já definiu como vai usar o cheque de R$ 150 milhões para avançar nessa disputa. Com a percepção de que está liberando caixa para mais um ano, a empresa, que já tinha anunciado um aporte de R$ 400 milhões para 2026, vai acelerar algumas frentes.

Um dos destinos será apertar ainda mais o passo no desenvolvimento de produtos em suas três unidades de negócio, reforçando sua tese de plataforma. Entre as novidades está o lançamento de um copiloto que, além de trazer insights, vai automatizar um pacote extenso de rotinas dos RHs.

Depois de ingressar recentemente no segmento de recrutamento e seleção – a startup já cobria questões como admissão e controle de jornadas -, o plano também passa por estender sua atuação a outras etapas do relacionamento de um profissional dentro de uma empresa.

Ao mesmo tempo, a Flash vai reforçar o uso de inteligência artificial (IA), que já vinha ganhando bastante relevância na operação. Tanto em processos internos, como por meio de agentes e recursos desenvolvidos e embarcados nas ofertas para os clientes.

Além da opção de voltar a olhar com mais atenção para M&As, a rodada também envolverá uma maior agressividade nas estratégias comerciais, em particular, para ampliar a presença da startup em grandes clientes, muito em função da maior abertura gerada pelo novo arcabouço regulatório.

“A equipe comercial é metade da companhia, são 750 pessoas. É literalmente um batalhão”, diz Pedro Lane, cofundador e COO da Flash. “E devemos ampliar mais esse time, especialmente no enterprise onde, hoje, só perdemos deal para os rebates”.

Alguns números dão uma medida de como esse novo cenário vem se traduzindo na Flash. No primeiro semestre, quando as novas regras passaram a entrar em vigor, o volume de novas vendas cresceu 70% sobre a segunda metade de 2025. E as grandes contas já respondem por mais de 25% delas.

Enquanto avança nesse campo, a startup também tem mostrado que está disposta a “brigar” em outra trincheira. Recentemente, a empresa solicitou sua admissão como terceira interessada em um processo no âmbito do Conselho Administrativo de Defesa e Desenvolvimento (Cade), contra o iFood.

Curiosamente, a ação em questão foi movida pela Associação Brasileira de Benefícios Trabalhistas (ABBT), que representa as grandes empresas do setor e com quem a Flash e outras startups do setor travam uma disputa há dois anos, justamente na fronteira do PAT.

Já no caso agora em andamento no Cade, a ABBT alega, entre outros pontos, que o iFood, a partir da sua plataforma de delivery, favorece o iFood Benefícios, seu braço no setor, em detrimento de concorrentes.

“A ABBT nos processa e nos odeia até a última instância possível, mas, nesse caso, estamos do lado deles”, afirma Lane. “Eles não estão brigando por brigar, como fizeram conosco. Aqui, realmente tem fundamento”.



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