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segunda-feira, setembro 7, 2026

“Investir em terras raras deve agregar valor à região”, diz CEO do Banco da Amazônia

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Luiz Lessa ocupa há mais de três anos a presidência do Banco da Amazônia, instituição sediada em Belém (PA). O executivo é reconhecido no mercado financeiro por sua atuação em políticas de crédito voltadas ao desenvolvimento sustentável. Lessa começou a trabalhar no setor aos 14 anos, no Banco do Brasil, onde chegou ao cargo de vice-presidente. Ao longo de quase quatro décadas de carreira, esteve à frente de projetos nas áreas de varejo bancário, crédito, fusões e aquisições, energia e gestão de relacionamento com clientes, entre outras. Em entrevista ao BRAZIL ECONOMY, o executivo analisou o atual momento do Banco da Amazônia e explicou como os investimentos em sustentabilidade podem abrir novas oportunidades de negócios na região. Confira:

Como a COP30 e o avanço da transição energética no Brasil impulsionaram os negócios do Banco da Amazônia?
A COP30 ajudou a consolidar uma agenda que o Banco da Amazônia já vinha desenvolvendo em áreas como bioeconomia, agricultura sustentável, energia renovável e infraestrutura verde. O evento ampliou o debate sobre como transformar os desafios ambientais da Amazônia em projetos economicamente viáveis e capazes de atrair diferentes fontes de financiamento. Para o Banco, uma das principais oportunidades está justamente na estruturação desses projetos e na conexão entre capital e território. A transição para uma economia de baixo carbono exige recursos de longo prazo, instrumentos financeiros adequados e capacidade de aproximar investidores, empresas e atividades produtivas da região. Nosso papel é contribuir para que essa agenda se transforme em investimento concreto, sempre considerando a viabilidade econômica, a responsabilidade socioambiental e a capacidade de gerar desenvolvimento na Amazônia.

Como o senhor avalia o atual momento da instituição?
O Banco passa por uma transformação estrutural. Nossa atividade de financiamento ao desenvolvimento da Amazônia continua sendo central, mas estamos ampliando nossa capacidade de atuação como banco comercial e estruturando uma frente digital. Essa transformação passa pela implantação de um novo core bancário, pela modernização dos canais e também pela digitalização dos processos internos. A estratégia é integrar três frentes: fomento, negócios comerciais e digital, para que possamos ampliar o relacionamento com os clientes e oferecer soluções financeiras de forma mais integrada. Não se trata de mudar a vocação do Banco, mas de fortalecer essa vocação com novas capacidades. Queremos continuar financiando o desenvolvimento da região e, ao mesmo tempo, atender de maneira mais completa às necessidades financeiras de quem já se relaciona conosco.

Como o Banco pretende atuar diante do avanço da exploração de terras raras na Amazônia?
O Banco acompanha a discussão sobre minerais críticos e estratégicos e as oportunidades que essa cadeia pode representar para o desenvolvimento regional. É uma agenda que exige atenção especial à regularidade ambiental, à governança, à viabilidade econômica dos projetos e aos impactos sobre os territórios. Qualquer possibilidade de financiamento precisa ser analisada caso a caso, de acordo com as políticas de crédito do Banco, as fontes de recursos disponíveis e o enquadramento da atividade nas normas aplicáveis. Mais do que antecipar uma atuação específica em terras raras, entendemos que investir em terras raras deve agregar valor à região como um todo, com atividades de processamento, infraestrutura, tecnologia e serviços associados, sempre de forma responsável e sustentável.

O Banco é conhecido pela atenção dedicada aos produtores da agricultura familiar. Por que esse segmento é considerado estratégico?
A agricultura familiar tem um papel fundamental na economia e na organização social da Amazônia. Quando o crédito chega ao pequeno produtor de maneira adequada, ele pode melhorar a produção, gerar renda, fortalecer a economia local e contribuir para a permanência das famílias em suas atividades. Mas nossa experiência mostra que o crédito, sozinho, não resolve. É preciso associá-lo à assistência técnica, à educação financeira, à orientação ambiental e, principalmente, à organização da cadeia produtiva. O produtor precisa ter condições de produzir, mas também precisa saber para quem vai vender. Por isso, nosso olhar para a agricultura familiar não termina na concessão do financiamento. Buscamos trabalhar também a conexão com cooperativas, associações, parceiros e compradores. Quanto mais organizada estiver essa cadeia, maior será a possibilidade de o crédito gerar renda sustentável e desenvolvimento no território. O Banco mantém diferentes modalidades do Pronaf, inclusive voltadas à bioeconomia, a sistemas agroflorestais, à agroecologia e à agroindustrialização.

Qual é a perspectiva para as contratações de crédito neste ano e em 2027?
A perspectiva é continuar atendendo à demanda por financiamento de maneira responsável e compatível com a capacidade dos clientes e com as fontes de recursos disponíveis. Temos oportunidades importantes em agricultura familiar, AGRONEGÓCIO, microcrédito produtivo, infraestrutura, bioeconomia, transição energética e atividades empresariais. Para o próximo exercício, o planejamento ainda passa pelas definições e programações próprias das diferentes fontes de financiamento. Portanto, neste momento, o mais adequado é falar em continuidade da estratégia, e não antecipar volumes de contratação. Nosso foco é fazer o crédito chegar a projetos economicamente sustentáveis, com adequada avaliação de risco e capacidade de gerar atividade produtiva e desenvolvimento na região.

O Banco já utiliza recursos de inteligência artificial em processos administrativos e no atendimento aos clientes?
A inteligência artificial está inserida na agenda de transformação tecnológica do Banco, e estamos estruturando as bases necessárias para ampliar sua utilização tanto em processos internos quanto em soluções voltadas aos clientes. Esse trabalho começa pela modernização dos sistemas, pela integração das informações e pela governança e qualidade dos dados. Para que aplicações de inteligência artificial sejam seguras e efetivas em uma instituição financeira, é fundamental trabalhar com informações confiáveis, rastreáveis e adequadamente protegidas. A IA tem potencial para apoiar análises, automatizar etapas de processos e contribuir para jornadas e produtos mais adequados às necessidades dos clientes. Esse avanço, no entanto, ocorre de forma gradual e com governança, mantendo a decisão humana nos processos que exigem avaliação e responsabilidade.

Qual é o papel das linhas verdes na atual estratégia de financiamento do Banco?
As linhas verdes ocupam hoje um espaço importante na agenda de financiamento. Na Amazônia, existe demanda por recursos para energia renovável, infraestrutura sustentável, bioeconomia, agricultura de baixo carbono, recuperação ambiental e modernização de atividades produtivas. O desafio agora é fazer com que bons projetos ambientais também sejam projetos economicamente sustentáveis. Para isso, precisamos estruturar crédito com prazos adequados, trabalhar com diferentes fontes de recursos e, quando necessário, combinar instrumentos capazes de reduzir riscos e atrair capital privado. O Banco já dispõe de linhas voltadas, por exemplo, à energia renovável e à infraestrutura verde, além de modalidades de financiamento sustentável para atividades rurais e empresariais.

O crescimento do cooperativismo financeiro representa uma ameaça aos negócios do Banco da Amazônia?
Não enxergamos dessa forma. Existe competição no sistema financeiro, naturalmente, mas o cooperativismo também exerce um papel importante na inclusão financeira e na capilaridade do atendimento, principalmente em determinadas localidades. Na Amazônia, o desafio territorial é tão grande que existe espaço para diferentes modelos de atuação. Bancos, cooperativas, fintechs e outros agentes podem, inclusive, trabalhar de maneira complementar para ampliar o acesso aos serviços financeiros. O Banco da Amazônia tem características próprias: conhecimento da região, atuação no financiamento de longo prazo, operação de instrumentos de desenvolvimento e relacionamento com diferentes cadeias produtivas. Nossa estratégia é fortalecer essas competências e, sempre que fizer sentido, construir parcerias que ajudem o crédito e os serviços financeiros a chegar com mais eficiência à ponta.



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