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domingo, setembro 6, 2026

Toia Lemann não se considera estilista, mas transforma arte em roupa

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Toia Lemann, filha mais velha do empresário Jorge Paulo Lemann, construiu uma trajetória distante dos negócios da família.

Psicanalista de formação, abandonou o consultório após a morte da mãe, a artista Maria Quental, e encontrou na arte um novo caminho.

Em 2018, lançou uma MARCA de roupas que inicialmente levava para os tecidos obras da mãe e de outros artistas. Hoje, são os próprios trabalhos de Toia que viram estampas.

Aos 60 anos, ela diz não se considerar estilista nem seguir tendências: prefere pensar na roupa como objeto e suporte para sua produção artística. C

om loja no Shopping Iguatemi, em São Paulo, e vendas também no Mata Lab, da Cidade Matarazzo, busca equilibrar experimentação e apelo comercial.

Em setembro, lança a coleção “Eu vim da Bahia”, inspirada nas origens da família e nas férias da infância e juventude nas fazendas da avó paterna em Ilhéus.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

“Não entendo de moda e nunca segui tendências. Mas sempre imagino o resultado do meu trabalho estampado em roupas. Acho que gosto mais de roupa do que de moda. O objeto roupa me interessa”, diz a psicanalista e artista visual Toia Lemann em entrevista ao NeoFeed.

Carioca, ela lançou uma MARCA com seu nome em 2018, primeiro no Rio. A loja funcionava na cobertura de um prédio antigo da Dias Ferreira, uma rua boêmia do Leblon, cheia de bares e restaurantes. Como era um espaço grande e a proposta sempre foi conjugar moda e arte, era um misto de loja e galeria. Ali, ocorriam exposições de artistas simultaneamente ao lançamento de coleções, que sempre incluíam uma peça de roupa feita com algum dos trabalhos expostos.

Num primeiro momento, Toia usava os trabalhos artísticos de sua mãe, Maria Quental, para estampar as roupas que fazia. Depois, passou a utilizar também obras de outros artistas. Com a pandemia, fechou as portas e percorreu um longo caminho até abrir sua primeira loja em São Paulo, no Shopping Iguatemi, onde está desde 2024, com coleções atemporais que sempre falam algo do Brasil e com estampas baseadas nos seus próprios trabalhos.

“Não me defino como estilista, porque não sou”, resume ela. “De alguma forma, a moda sempre chega na gente, porque é algo tão presente, a gente é tão bombardeado, que ela acaba por entrar em todo o mundo, e eu não sou imune a isso: também me deixo afetar. Mas, quando vou fazer uma roupa, penso no que gosto, independentemente do que está na moda ou do que estão gostando.”

Por essas e outras, Toia tem uma equipe de estilistas que não só a orienta, como é responsável por garantir que o produto tenha um acabamento perfeito. “Como não sei fazer, arrumo uma consultoria, já que quero sempre aprimorar a modelagem. E tenho o desafio também de tornar a roupa mais comercial, porque a gente tem que vender.”

Agora, em setembro, ela lança a coleção Eu vim da Bahia e conta que o faz com propriedade, por seus ancestrais e pelas férias que passou ali, na fazenda com a avó paterna, Yvette Lemann, e que marcaram sua infância e juventude.

“Minha avó era filha de suíços que imigraram para Salvador; ela contava muitas histórias do passado e adorava Jorge Amado”, lembra. “A gente tinha algumas fazendas em Ilhéus, daquelas antigas, com casarão, mas sem luz. Era uma coisa bem rústica, à luz de lampião, com fogão a lenha, mas superdivertida. Nosso programa era passear a cavalo ou de mula no cacaueiro.”

A coleção “Eu vim da Bahia” é inspirada nas férias que marcaram a infância e a juventude de Toia nas fazendas da família, em Ilhéus, ao lado da avó paterna, Yvette Lemann (Foto: Henrique Falci)

Toia, diminutivo de Anna Victoria Lemann, tem 60 anos e é a primogênita do empresário Jorge Paulo Lemann, que, com a família, responde pela terceira maior fortuna do país na lista da Forbes deste ano, com um patrimônio de US$ 19,7 bilhões. Mas ela tem como princípio manter-se reservada e não falar da vida pessoal.

Seu dia a dia é despojado e o ateliê paulista, no bairro do Itaim, ocupa um cômodo num apartamento de classe média alta, no qual todos os papéis de parede foram pintados por ela. Essa é sua base na cidade, aonde vem a cada quinze dias. A casa em si e o ateliê onde trabalha a maior parte do tempo ficam no Rio.

Além do e-commerce e da loja, em São Paulo, suas roupas também estão à venda no Mata Lab, a loja de departamentos de luxo que faz parte do complexo Cidade Matarazzo e que tem um critério baseado na brasilidade. No Rio, ela vende para clientes já tradicionais que vão ao ateliê.

“Raspas e restos”

Ao falar de sua estreia neste mundo e das técnicas que utiliza, diz que “raspas e restos” a interessam. “Minha mãe era artista, foi uma grande referência, e eu sempre desenhei”, diz. “Eu trabalhava como psicanalista e, quando mamãe morreu, entrei numa grande crise que me levou a reorganizar a vida toda. Mudei de profissão, resolvi que não queria mais ficar presa no consultório porque não tinha vocação para isso.”

Até hoje, ela se declara uma apaixonada pela psicanálise, mas faz uma distinção entre esse interesse teórico e uma vida real em que o dia a dia é uma “espécie de sacerdócio”. “É uma coisa muito rígida. Trabalhei em tudo o que era hospital psiquiátrico, trabalhei no Judiciário, e adorava, adorava”, conta. “Foram experiências muito fortes, mas, de repente, mudei. Aquilo não se encaixava mais.”

Maria Quental também era psicanalista e havia uma grande simbiose entre ambas. Fizeram a formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise, que segue a linha freudiana, com uma inclinação para a escola inglesa de Melanie Klein e Donald Winnicott.

Toia acredita que seu primeiro impulso de fazer algo com as obras da mãe veio por estar às voltas com o luto. O princípio foi difícil. Ela chegou a ter outras marcas até encontrar um caminho.

Só com a MARCA Toia Lemann deixou de usar os trabalhos da mãe: “Chegou uma hora em que decidi pegar meus trabalhos e fazer estampas. Era um passo que precisava dar. Isso acabou me absorvendo e hoje trabalho compulsivamente.”

Toia já fez almofadas, papéis de parede e jogos americanos. Louça ainda pretende fazer. Sua técnica é mista: mescla lápis, grafite, pastel, colagem e aquarela. Quem é seu artista preferido?

O alemão Anselm Kiefer responde sem vacilar: “Nossa, as coisas do Kiefer têm paixão, acho que ele é o maior artista vivo.”



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