
As enchentes que atingiram o Nepal no fim de agosto deixaram um alerta que vai além dos efeitos imediatos do desastre. O problema agora é o que fazer com uma infraestrutura construída para condições que já não correspondem ao clima atual.
Pontes, estradas, telecomunicações e sistemas de água foram danificados no país asiático. Segundo o Unicef, 22 mil crianças ficaram sem acesso seguro à água. A reconstrução terá de considerar futuras enchentes, em vez de simplesmente repor o que existia antes.
Esse é um dos principais desafios econômicos da adaptação climática: substituir ou modernizar ativos antes do fim de sua vida útil, sem interromper cidades e cadeias produtivas, enquanto governos definem prioridades e buscam recursos para obras que nem sempre geram retorno financeiro direto.
A questão ganhou urgência com a intensificação do El Niño. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o fenômeno deve se tornar muito forte e tem grande probabilidade de persistir até fevereiro de 2027.
O El Niño não é causado pelas mudanças climáticas, mas agora ocorre em oceanos e em uma atmosfera mais quentes, o que pode ampliar alguns de seus efeitos. Na prática, isso reduz a utilidade das referências históricas usadas para projetar infraestruturas.
Estradas, sistemas de drenagem, redes elétricas e instalações de abastecimento foram dimensionados com base em determinados padrões de chuva, temperatura e vazão dos rios.
Essas referências estão mudando.
Em algumas regiões, a adaptação exigirá obras para suportar chuvas mais intensas. Em outras, será necessário enfrentar secas prolongadas, temperaturas mais elevadas ou menor disponibilidade de água.
No Brasil, o problema é evidente na Amazônia. Um levantamento do MapBiomas, rede colaborativa que monitora as transformações no uso da terra e dos recursos naturais no Brasil, mostrou que 38% das áreas habitadas da região tiveram alta exposição ao El Niño de 2024. Entre setembro e novembro daquele ano, a superfície de água ficou abaixo da média histórica em 1,9 milhão de hectares, as chuvas ficaram 27% abaixo do normal e a temperatura máxima média ficou 2,6 °C acima da média.
A queda no nível dos rios afeta o transporte, o acesso à água, a pesca e as atividades dependentes dos sistemas fluviais.
Surge, assim, uma espécie de obsolescência climática: ativos ainda funcionais podem deixar de ser adequados aos riscos que enfrentam.
Laurence Tubiana, CEO da European Climate Foundation, fundação que apoia políticas e iniciativas voltadas à transição para uma economia de baixo carbono, afirma que cidades, fazendas, sistemas de saúde e mercados de seguros terão de lidar com riscos para os quais não foram projetados.
O problema também é político.
Nem toda a infraestrutura poderá ser adaptada ao mesmo tempo. Governos terão de escolher entre sistemas de água, drenagem urbana, rodovias, energia e outras prioridades, muitas vezes em países com pouco espaço fiscal.
Esse conflito já aparece nas negociações internacionais.
Na reunião climática de Bonn, realizada em junho como preparação para a COP, a conferência climática da ONU, os países não chegaram a um acordo sobre a Meta Global de Adaptação. Um dos principais pontos de disputa foi o financiamento e a cobrança dos países em desenvolvimento pelo cumprimento do compromisso de triplicar os recursos destinados à adaptação, assumido na COP30, realizada no ano passado em Belém do Pará.
A necessidade de agir é cada vez mais consensual. A disputa sobre quem paga continua aberta. “Você não pode implementar a Meta Global de Adaptação sem financiamento”, afirmou Pooja Dave, coordenadora de políticas de adaptação da Climate Action Network International, rede global que reúne organizações da sociedade civil atuantes em políticas climáticas.
O setor público está no centro da discussão. Uma infraestrutura resiliente pode ser economicamente necessária sem ser financeiramente atraente. Uma obra de drenagem ou de proteção contra secas reduz perdas futuras, mas não necessariamente gera receita suficiente para remunerar investidores.
Na COP17 da Convenção da ONU de Combate à Desertificação, realizada em agosto na Mongólia, o Brasil defendeu que os recursos privados não substituem o financiamento público. Ao mesmo tempo, os países aprovaram medidas para ampliar o modelo de blended finance — capital público ou filantrópico associado ao capital privado — e os instrumentos de redução de risco capazes de atrair investimentos para projetos de resiliência.
O desafio é transformar prevenção em investimento.
Sem isso, o risco é manter um ciclo conhecido: sem dinheiro para a adaptação, a reconstrução pós-desastre exige ainda mais recursos.
O novo cenário climático muda, portanto, a lógica da infraestrutura. Reconstruir como antes pode significar reconstruir o mesmo risco. A questão passa a ser quanto custará adaptar o capital existente e quem bancará essa conta.




