Agradeçam ao presidente Donald Trump por ensinar ao mundo depender cada vez menos do mercado americano. Ironia à parte, o fato é que Brasil e Índia têm avançado na aproximação econômica em meio à estratégia brasileira de diversificar mercados e reduzir a dependência de parceiros tradicionais. O fluxo comercial entre os dois países cresceu 82% nos últimos três anos e fechou 2025 com US$ 15,2 bilhões. Até julho de 2026, as exportações brasileiras destinadas ao mercado indiano já somavam US$ 6 bilhões e devem superar a estimativa de US$ 17,3 bilhões até dezembro, com a maior concentração das exportações no último trimestre.
A expansão dos negócios ganhou impulso na quinta-feira (27), com a assinatura de um Memorando de Entendimento entre a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Confederação das Indústrias Indianas (CII). A iniciativa integrou a agenda da Missão Empresarial Estratégica da Índia no Brasil.
O documento estabelece uma estrutura institucional para o compartilhamento de inteligência de mercado, a promoção de investimentos e o apoio à internacionalização de companhias brasileiras e indianas. “Vemos um crescimento nas exportações desde 2025, quando batemos um recorde. Este ano já demonstra que seguimos no mesmo caminho”, afirmou Maria Paula Velloso, diretora de Negócios da ApexBrasil. Desde fevereiro de 2026, a agência mantém um escritório em Nova Déli, aberto após uma missão presidencial à Ásia. “É uma cooperação ganha-ganha, já que há complementariedade entre as duas nações.”
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, disse que a aproximação com a Índia faz parte da política federal de abertura de novas frentes comerciais. Segundo ele, a estratégia contribuiu para ampliar as vendas brasileiras a 57 países, com crescimento médio de 10,5%. O governo prevê que o Brasil encerre 2026 com superávit comercial recorde de US$ 90 bilhões.
Outro ponto da agenda é a ampliação do Acordo de Comércio Preferencial entre Mercosul e Índia, que atualmente contempla 450 linhas tarifárias. Os dois lados discutem a inclusão de novos produtos e medidas destinadas a reduzir barreiras regulatórias.
“É preciso ampliar e intensificar. Ainda hoje há uma reunião com a embaixada, e amanhã haverá uma reunião entre a secretária de Comércio Exterior do Brasil, Tatiana Prazeres, e a representação política indiana para discutir a convergência regulatória”, adiantou o ministro.
As oportunidades apresentadas à delegação indiana também foram associadas às prioridades da Nova Indústria Brasil. Entre as vantagens destacadas pelo governo estão o tamanho do mercado consumidor e a participação de 84% das fontes renováveis na matriz elétrica nacional.
Na área da saúde, a intenção é atrair empresas farmacêuticas e fabricantes de equipamentos médicos da Índia. O governo aposta na harmonização de normas e na dimensão do Sistema Único de Saúde, que atende cerca de 200 milhões de pessoas, como fatores capazes de estimular investimentos e parcerias industriais.
A cooperação em minerais críticos também ocupou espaço central nas conversas. A estratégia brasileira é ampliar o processamento dessas matérias-primas no país e fortalecer o acordo setorial assinado com a Índia em fevereiro. Para Márcio Elias Rosa, regras mais claras podem favorecer investimentos e assegurar benefícios econômicos ao Brasil.
“A existência de uma regulação só vai ajudar. O que pode atrapalhar é a permissividade para a exploração sem ganho para o País”, afirmou.
As discussões abrangeram ainda bioenergia, biocombustíveis, economia circular e transição energética. Ao defender a competitividade ambiental da produção brasileira, o ministro citou a menor intensidade de carbono proporcionada pela matriz elétrica renovável. “Uma bateria elétrica, se produzida no Brasil, emitiria 70% menos gases de efeito estufa.”
Representantes da missão indiana apontaram convergências nos setores automotivo, financeiro e de máquinas e equipamentos. “Acreditamos que há muitas áreas em que a Índia e o Brasil podem cooperar. Já compartilhamos uma paixão pelo etanol para transporte, e acreditamos que há muitas outras oportunidades no setor automotivo e de maquinário industrial”, declarou Alok Sanjay Kirloskar, copresidente da delegação e diretor da Kirloskar Brothers Limited.
Segundo o executivo, a participação dos dois países no Brics também pode facilitar projetos conjuntos e aprofundar a integração financeira.




