O desempenho de Afrânio, município de pouco mais de 14 mil habitantes no sertão de Pernambuco, mostra como o uso estratégico de dados pode contribuir para transformar a educação pública. A rede municipal alcançou nota 7,2 nos anos iniciais do ensino fundamental no Ideb de 2025, o melhor resultado de sua série histórica e 2,2 pontos acima dos 5,0 registrados em 2021.
A nota superou a meta de 5,6 estabelecida para 2021, último parâmetro oficial disponível, e ficou acima do Ideb de 7,1 das escolas privadas brasileiras nos anos iniciais, segundo dados divulgados pelo INEP. O resultado também chama a atenção pelas condições socioeconômicas locais. Com Índice de Desenvolvimento Humano Municipal de 0,588, Afrânio obteve a mesma nota de São Caetano do Sul, no ABC Paulista, que possui o maior IDH do país, de 0,862.
Embora as duas redes tenham realidades distintas, a comparação indica que a renda municipal não determina, isoladamente, a qualidade da aprendizagem. Planejamento, acompanhamento dos alunos, formação das equipes e utilização das avaliações para orientar o trabalho pedagógico também são decisivos.
Desde 2021, Afrânio adota avaliações desenvolvidas pela TRIEduc, empresa de tecnologia educacional criada em 2015. A metodologia identifica, por estudante, turma e habilidade, os conteúdos assimilados e aqueles que precisam ser reforçados. Assim, a rede não precisa esperar o Ideb para descobrir defasagens acumuladas.
“Eles aplicam duas avaliações, uma no começo do ano e outra no fim. Essas avaliações mostram quais habilidades os alunos ainda não dominam e precisam ser reforçadas. Com isso, o município consegue elaborar um plano de intervenção até dois anos antes da prova”, afirmou Dahanne Vieira Salles, CEO da TRIEduc.
A avaliação deixa, portanto, de funcionar apenas como instrumento de classificação e passa a orientar decisões em sala de aula. Professores, coordenadores e gestores recebem informações sobre as dificuldades dos estudantes e podem concentrar esforços nas lacunas mais relevantes.
Segundo a TRIEduc, os municípios atendidos pela empresa registraram aumento médio de 0,6 ponto no Ideb dos anos iniciais entre 2023 e 2025, o dobro do avanço de aproximadamente 0,3 ponto observado na média nacional. Em redes que utilizaram a metodologia por dois anos, houve casos de crescimento superior a um ponto.
Os resultados não podem ser atribuídos exclusivamente à tecnologia. O Ideb é influenciado pelo trabalho dos professores, pela gestão das secretarias, pelo envolvimento das famílias, pela frequência, pelo fluxo escolar e pelas condições sociais de cada localidade. Os números sugerem, porém, que o diagnóstico contínuo torna as intervenções mais precisas.
Criado para acompanhar a qualidade da educação, o Ideb combina o desempenho dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica, o Saeb, com as taxas de aprovação. Isso impede que uma rede obtenha boa nota apenas aprovando alunos sem assegurar a aprendizagem. Da mesma forma, o desempenho nas provas pode ser comprometido por índices elevados de repetência ou abandono.
A média brasileira também encobre diferenças importantes. A cidade de São Paulo, por exemplo, obteve Ideb de 5,8 nos anos iniciais da rede municipal em 2025. Embora represente uma recuperação diante dos 5,6 de 2023, o resultado permanece abaixo dos 6,0 alcançados em 2019 e da meta de 6,2 prevista para 2021. Nos anos finais, a nota avançou de 4,8 para 4,9, ainda distante da meta de 6,0.
A comparação evidencia que mais recursos favorecem investimentos em infraestrutura, profissionais e materiais, mas não produzem resultados automaticamente. Também é necessário localizar as defasagens, identificar os grupos que precisam de mais atenção e verificar se as medidas adotadas estão melhorando a aprendizagem.
“A gente desenvolveu uma metodologia capaz de entregar um resultado mais preciso para que as redes façam uma intervenção efetiva. Reunimos as informações de que o gestor e o professor precisam para transformar o diagnóstico em melhoria da aprendizagem”, disse Matheus Ascoli, diretor da TRIEduc.
A secretaria pode analisar o desempenho geral da rede, enquanto diretores e coordenadores observam cada escola, turma ou componente curricular. O professor consegue verificar quais habilidades ainda não foram consolidadas. Uma média razoável em língua portuguesa, por exemplo, pode esconder dificuldades na interpretação de determinados gêneros textuais. Em matemática, problemas com frações, gráficos ou situações-problema podem passar despercebidos sem uma análise detalhada.
A avaliação inicial funciona como uma fotografia do ponto de partida. Ao longo do ano, as escolas realizam intervenções, utilizam materiais de recomposição e acompanham os alunos. Uma nova prova, no fim do período, permite verificar se as estratégias deram resultado.
A solução mais abrangente da TRIEduc reúne testes adaptativos, simulados alinhados às avaliações oficiais, materiais de recomposição e uma avaliação de saída. Algumas redes também utilizam questionários contextuais, que relacionam o desempenho a informações sobre infraestrutura, ambiente escolar, participação familiar e outras condições capazes de afetar o ensino.
Afrânio contratou avaliações e simulados, sem o pacote contextual completo. Ainda assim, os resultados detalhados passaram a orientar o planejamento municipal. Para o secretário de Educação, Ricardo Rodrigues, a nota 7,2 reflete um trabalho coletivo iniciado muito antes da prova nacional.
“Esses dados nos possibilitaram compreender com maior precisão as habilidades já consolidadas e aquelas que ainda necessitavam de intervenção, permitindo que as ações pedagógicas fossem planejadas de forma mais direcionada e intencional”, afirmou.
Rodrigues ressalta que a tecnologia não substitui o professor, mas apoia seu trabalho. “São esses profissionais que, diariamente, estão dentro das salas, conhecendo seus estudantes, identificando dificuldades, planejando intervenções e buscando diferentes estratégias para garantir a aprendizagem”, disse.
Avaliar, analisar, intervir e acompanhar tornou-se um processo contínuo na rede. A cada rodada, as equipes verificam a evolução das turmas e modificam práticas que não tiveram o efeito esperado. “A maior nota da nossa série histórica não representa um ponto de chegada, mas a certeza de que estamos no caminho certo. Quando uma rede trabalha de forma articulada, acompanha seus resultados e acredita na potência de seus estudantes e professores, a aprendizagem acontece”, declarou o secretário.
Em Oriente, no interior paulista, a rede combinou o acompanhamento pedagógico com formação permanente dos docentes, fortalecimento da gestão escolar e monitoramento dos alunos. Segundo o secretário municipal de Educação, Leonardo Marques Tezza, as informações detalhadas ajudaram as equipes a agir com maior rapidez.
“A parceria com instituições comprometidas com a qualidade da educação, como a TRIEduc, contribuiu para qualificar nossos processos de avaliação e intervenção pedagógica, oferecendo ferramentas que auxiliaram nossas equipes a identificar desafios e agir de forma mais precisa”, garantiu.
A disseminação dessas plataformas representa uma mudança na gestão educacional, mas também traz o desafio de impedir que as avaliações se tornem apenas treinamento para provas. Quando o trabalho se limita à repetição de exercícios semelhantes aos do Saeb, a melhora do indicador pode não corresponder a uma aprendizagem duradoura. A proposta, segundo a TRIEduc, é utilizar a matriz nacional para identificar lacunas curriculares, sem restringir o ensino à preparação para o exame.
Esse diagnóstico ganhou importância depois da pandemia, quando alunos de uma mesma turma retornaram às escolas com níveis muito diferentes de conhecimento. Sem informações individualizadas, o professor tende a trabalhar com uma média que não representa todos. A análise mais detalhada permite organizar grupos, priorizar habilidades essenciais e planejar intervenções para diferentes estágios de aprendizagem.
Em 11 anos, a TRIEduc contabiliza mais de 1,5 milhão de avaliações aplicadas. A empresa atua em 15 municípios, principalmente no Sudeste e no Nordeste, e afirma ter infraestrutura para atender mais de 3 milhões de estudantes.
“A educação não tem que ser melhor apenas nos municípios mais ricos. Ela. Ela precisa ter qualidade em todo o Brasil. Nossa intenção é atuar em todas as regiões e apoiar os municípios na identificação das dificuldades de aprendizagem”, afirmou Dahanne.
A avaliação, isoladamente, não transforma a escola. O efeito aparece quando o diagnóstico chega ao professor, orienta o planejamento e é acompanhado por intervenções consistentes. A tecnologia tampouco elimina problemas de infraestrutura, formação profissional ou desigualdade social, mas pode ajudar as redes a utilizar melhor seus recursos e tomar decisões baseadas em evidências.
No caso de Afrânio, o Ideb de 7,2 mostra que uma rede localizada em um município de baixo IDH pode alcançar desempenho equivalente ao de uma das cidades mais desenvolvidas do país. Quando as dificuldades são identificadas antes que se acumulem, o indicador nacional deixa de representar uma surpresa e passa a confirmar um trabalho construído de forma contínua.




