Há um fenômeno curioso no ecossistema empreendedor brasileiro: a romantização do mercado norte-americano. Aprendemos a olhar para os Estados Unidos como a meca dos negócios, um ambiente onde a segurança jurídica, o crédito abundante e a previsibilidade parecem desenhar o cenário perfeito para o sucesso.
No entanto, após viver, investir e empreender na terra do Tio Sam, a realidade se impõe com uma clareza que poucos ousam admitir: o mercado americano é excelente, organizado e previsível, mas também é saturado, maduro e tem margens espremidas por gigantes consolidados.
Foi na prática, vivenciando o dia a dia de uma operação em solo americano, que percebi um fato: onde existem uma ordem quase perfeita e muita competitividade, sobra pouquíssimo espaço para capturar ineficiências e construir novos mercados. O ganho que leva um ano para se consolidar, em meio às margens apertadas de um mercado hiperdesenvolvido, muitas vezes pode ser alcançado em prazos bem menores nas economias emergentes.
É aí que o nosso País se mostra vantajoso.
Não se trata de ignorar o famigerado “Custo Brasil”. A complexidade tributária, a volatilidade econômica e os gargalos de infraestrutura são reais e cobram seu preço diariamente. Contudo, o erro da maioria dos executivos e investidores é olhar para o Custo Brasil apenas como um obstáculo intransponível, e não como uma gigantesca barreira de entrada que protege quem aprende a navegar nessas águas.
Em mercados em desenvolvimento, cada ineficiência não resolvida representa uma demanda reprimida de bilhões à espera de uma solução eficiente. Minha própria trajetória foi moldada por essa compreensão.
Enfrentar uma dívida de R$ 15 milhões aos 29 anos, no AGRONEGÓCIO, não foi apenas um golpe duro, mas também meu maior mestrado em gestão de riscos, governança e resiliência. Foi o que me deu estofo para, anos depois, em pleno auge da pandemia de Covid-19, deixar o conforto e a segurança de casa, cumprir quarentena e cruzar o mundo até a Índia em busca de fornecedores de insumos farmacêuticos de alta complexidade para atender ao mercado brasileiro.
O resultado daquela leitura de oportunidade em meio ao caos culminou na consolidação de um laboratório biofarmacêutico e em sua posterior venda, por meio de uma operação de M&A, para um grupo internacional.
A lição que fica é direta: o Brasil não é para amadores, mas é, indiscutivelmente, o terreno mais fértil para quem combina tecnologia, disciplina executiva e compliance.
A inovação no mercado americano costuma ser incremental, com a melhoria de algo que já funciona bem. No Brasil, a inovação é transformadora, inclusiva e fundacional. Significa criar mercados do zero, democratizar o acesso a serviços essenciais e resolver problemas históricos dos consumidores e das empresas.
Para o empreendedor que cogita deixar o País em busca de águas mais calmas, deixo uma reflexão pragmática: antes de renunciar ao seu maior patrimônio invisível, formado pela reputação, pela rede de relacionamentos e pelo conhecimento profundo da cultura local, aprenda a enxergar as margens que só o Brasil oferece.
O mar calmo dos mercados maduros pode parecer atraente na superfície, mas é no mar agitado das economias em transformação que os verdadeiros impérios de negócios são construídos.
*Wesley Ribeiro é fundador e CEO da Liberty Card, instituição financeira originadora de crédito consignado




