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sexta-feira, setembro 4, 2026

Livro celebra Segunda Academia do Palmeiras: um futebol que não existe mais

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Por Pedro Castorino

Leão; Eurico, Luís Pereira, Alfredo Mostarda e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, César e Nei. A escalação que marcou uma das maiores gerações da história do Palmeiras também representa um futebol que, mais de cinco décadas depois, parece pertencer a outro tempo.

A Segunda Academia ganhou forma no início dos anos 1970, sob o comando de Oswaldo Brandão, e reuniu jogadores que permaneceram juntos por anos. Em 1972, o Palmeiras conquistou o Campeonato Paulista invicto e o Campeonato Brasileiro, além de outros torneios. No ano seguinte, voltou a ser campeão brasileiro e, em 1974, levantou novamente o Paulista e o Ramón de Carranza.

É justamente esse período que Matheus Trunk resgata em “Fragmentos de um sonho – A Segunda Academia do Palmeiras e o Torneio Ramón de Carranza, livro lançado em 2026 pela editora Letras do Brasil. Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva, o jornalista destacou que, para entender aquela equipe, é preciso também olhar para o futebol em que ela estava inserida — muito diferente do atual.

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Uma das principais características era a relação entre jogadores, clubes e torcedores. Na década de 1970, era comum que atletas permanecessem durante muitos anos na mesma equipe, criando uma identificação que hoje se tornou menos frequente.

“Isso com certeza denota uma identificação maior com o clube”, explicou Trunk. “É um atleta que fica muito tempo numa equipe, que é criado lá dentro. Ele tem um carinho, uma identificação com aquele clube, com aquelas cores.”

Ademir da Guia é um dos principais exemplos. O ídolo palmeirense passou praticamente toda a carreira profissional no clube e construiu uma relação que ultrapassava o campo. “Até porque a camisa só tinha as cores do clube, não tinha patrocinador, não tinha nada. Então, realmente, era outra coisa”, aponta o autor.

Foto: Divulgação/Palmeiras

A convivência prolongada também ajudava a criar um entrosamento particular. Para Trunk, os jogadores da Segunda Academia conheciam tão bem uns aos outros que cada um sabia exatamente como agir de acordo com o movimento do companheiro.

“Era uma equipe tecnicamente muito forte, que atuou junta durante muito tempo”, diz. “Todos sabiam muito bem a sua função e, por jogar juntos muito tempo, cada um sabia o problema do outro.”

O resultado era um grupo marcado pela camaradagem, sem a divisão entre grandes estrelas e jogadores menos importantes. “Eu acho que não existia uma concorrência entre eles. Pelo que eu senti, existia um clima muito de camaradagem. Lógico que às vezes tem um conflito ou outro, mas eu acho que era uma coisa menor”, afirmou.

Um Palmeiras que ganhou a Europa

A Segunda Academia também surgiu em um momento de grande prestígio internacional do futebol brasileiro: o país havia conquistado o tricampeonato mundial em 1970, com Pelé como principal símbolo, e o Palmeiras era uma das grandes forças nacionais, que posteriormente ganhou a Europa com as conquistas do torneio Ramón de Carranza.

Criada em 1955, é uma das tradicionais competições de verão do futebol espanhol. Realizado em Cádis, o torneio reúne quatro equipes em uma disputa anual e ganhou grande prestígio internacional ao longo de sua história. A taça, que mede 1,71 metro de altura, tornou-se conhecida como “a taça das taças” por seu tamanho e imponência.

O Palmeiras participou de seis edições do torneio, nos anos de 1969, 1974, 1975, 1976, 1981 e 1993. O clube é o brasileiro que mais vezes esteve na competição e divide com o Vasco o posto de maior campeão, com três títulos conquistados por cada equipe. Naquela época, era uma vitrine para o futebol internacional.

“(O Ramón de Carranza) representava um reconhecimento internacional, de qualquer maneira, porque você jogava contra grandes times. O Palmeiras jogou contra o Barcelona do Cruyff, jogou contra o Real Madrid do Netzer”, contou Trunk.

Palmeiras

Palmeiras, de Ademir da Guia, eliminou o Barcelona, de Cruyff, no torneio Ramón de Carranza em 1974 / Palmeiras

A Segunda Academia do Palmeiras conquistou o torneio em 1974 e 1975. Na primeira conquista, o grande atrativo da edição era justamente o confronto entre o Barcelona de Johan Cruyff e o Santos de Pelé. O Verdão, porém, acabou surpreendendo e levantando a taça.

Para os jogadores, a competição também representava uma oportunidade de serem observados por clubes estrangeiros. “Também era uma oportunidade de ir para fora, que era uma oportunidade de eles ganharem o dinheiro que eles nunca iam ganhar no futebol brasileiro daquele período”, lembra Trunk.

Sem salários milionários ou estrutura

A diferença para o futebol atual também aparecia no dinheiro, já que mesmo atletas de destaque dos grandes clubes brasileiros recebiam valores muito inferiores aos praticados atualmente. Trunk cita César, artilheiro daquela geração, como exemplo: segundo uma estimativa feita pelo autor, o salário do atacante na época equivaleria hoje a algo entre R$ 18 mil e R$ 20 mil.

“Os salários eram, mesmo de equipes grandes como Palmeiras na época, relativamente baixos se comparados com hoje. Muito baixo, comparado com qualquer jogador de uma equipe de elite hoje no Brasil”, afirma.

O calendário também tinha outra lógica. Os campeonatos estaduais eram tratados como grandes objetivos, enquanto a Libertadores ainda não tinha a dimensão que possui atualmente. “A Taça Libertadores, ninguém ligava muito. O Campeonato Brasileiro até tinha uma relevância, mas o confronto doméstico, o estadual (…) eram as competições mais importantes do calendário”, contextualiza o autor.

A força do Campeonato Paulista ajuda a explicar a dimensão da decisão de 1974, quando o Palmeiras derrotou o Corinthians, que estava havia duas décadas sem conquistar o estadual. Trunk classifica aquele episódio como “muito pesado” e lembra que Rivelino acabou deixando o clube posteriormente.

Um futebol mais simples e mais precário

Se a relação entre os personagens era diferente, a estrutura oferecida aos atletas também estava muito distante da atual. A medicina esportiva era menos desenvolvida, as comissões técnicas eram menores e a carreira do jogador costumava ser mais curta.

“Era muito diferente de hoje. Era muito mais simples, muito mais precário do que hoje. Hoje o futebol é muito mais profissional”, lembra Trunk, que encontrou marcas físicas deixadas por aquela realidade ao entrevistar ex-jogadores. Leivinha passou por diversas cirurgias no joelho e precisou se aposentar aos 29 anos, enquanto antigos goleiros carregam deformações nas mãos depois de anos de atividade.

Para o autor, a evolução da medicina esportiva é uma das diferenças mais evidentes entre as duas épocas. “Hoje o futebol é muito mais profissional. Não que não tivesse, mas era uma coisa mais assim, do caráter do jogador. Os times menores não tinham médico fixo, os que tinham também era um médico só.”

A mão de Oswaldo Brandão

No comando daquela equipe estava Oswaldo Brandão, treinador que Trunk descreve como enérgico, carismático e, ao mesmo tempo, centralizador e por vezes autoritário. Mas o técnico também tinha uma capacidade particular de criar vínculos com os jogadores.

Uma das histórias que mais chamou a atenção do autor envolve Alfredo Mostarda. O zagueiro contou a Brandão que sua esposa estava grávida e que a filha receberia o nome de Márcia Regina, combinação dos nomes dos dois filhos do treinador. Brandão se emocionou.

Palmeiras

Foto: Divulgação/Palmeiras

“Para ele, representava que realmente aquele cara era um escolhido a ser o zagueiro do time dele”, contou Trunk.

Mais de cinco décadas depois, a Segunda Academia permanece entre as grandes equipes da história do Palmeiras. Para Matheus Trunk, não é apenas a quantidade de títulos que explica a permanência daquela geração na memória do torcedor, mas a combinação entre talento, convivência e identificação.

“É difícil dizer ‘é o melhor’, ‘é o pior’, mas realmente esse time da Segunda Academia é um time muito marcante, porque era uma equipe tecnicamente muito forte, que atuou junto durante muito tempo.”

Ficha técnica

Título: Fragmentos de um Sonho
Autor: Matheus Trunk
Páginas: 266
Editora: Letras do Brasil
Preço: R$ 85,00
Onde comprar: www.letrasdobrasil.com.br





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