VARGEM GRANDE DO SUL (SP)* — Em vez de ser uma ameaça, a onda da saudabilidade — incluindo o aumento no uso do GLP-1, as populares “canetas emagrecedoras” — representa uma oportunidade para a indústria de alimentos se atualizar sobre os anseios de seu público. E, com isso, passar a entregar o que o consumidor pede nos momentos em que, mesmo que com o apetite diminuído, ainda bate a vontade de um snack.
A conclusão é de Martin Ribichich, presidente da PepsiCo Brasil Alimentos. Ele chama a atenção pelo portfólio da empresa, que poderia ser visto como alvo dessa tendência. Por exemplo, as chips Lay’s e Ruffles, os salgadinhos Doritos, Cheetos e Torcida, as bebidas Kero Coco e Toddynho e a Quaker, de itens à base de aveia e cereais.
Na visão dele, mesmo eventualmente comendo menos e mais seletivo com relação a calorias e outras informações nutricionais, o consumidor ainda se permite momentos de indulgência, seja em ocasiões específicas ou com finalidades funcionais.
Por exemplo, ao comer salgadinhos enquanto assiste esportes na TV — daí o recente patrocínio da Lay’s na Copa do Mundo de futebol — ou séries no streaming, ou ao escolher opções pela menor quantidade de açúcares adicionados.
“O consumidor está mais complexo, com necessidades diferentes, explorando outros momentos. Mas ainda tem o ‘craving’, aquele minuto em que ele quer algo com sabor intenso, e gosta de ver futebol com a experiência de compartilhar. Celebrar com amigos e família, isso não muda; pode mudar a solução que a gente entrega”, disse Ribichich em entrevista ao The AgriBiz, durante um dia de campo na Fazenda Casa Branca, em Vargem Grande do Sul (SP).
Mesmo que especialistas alertem que o acréscimo de proteínas não necessariamente transforma um salgadinho em um alimento saudável, esse movimento dialoga com as novas preocupações.
Segundo Ribichich, motes como o da Lay’s, de que leva apenas três ingredientes (batata, óleo e sal), também ganham força. “É um produto permissível. O consumidor quer se cuidar, então vou tentar um melhor balanço.”
Na visão dele, o número de vendas da PepsiCo no Brasil — mais de 200 milhões de pacotes de salgadinhos por mês, em uma população de pouco mais de 210 milhões de pessoas — ilustram como as ocasiões de consumo se pluralizaram. “E o Brasil é continental, o consumidor de São Paulo não é o mesmo de Recife.”
Doritos Protein
Nos Estados Unidos, a corrida da empresa atrás das novas tendências alimentares desembocou no Doritos Protein, uma curiosa versão do salgadinho à base de milho enriquecida com proteína derivada da caseína, a proteína do leite. A edição especial também dispensa corantes ou aromatizantes artificiais ainda presentes na original.
A PepsiCo não confirma se há previsão de lançamento da novidade no Brasil, mas diz que é uma possibilidade.
“Não posso dar spoiler. Mas é parte da nossa agenda de pesquisa e desenvolvimento e tendência de mercado”, diz Isabela Malpighi, diretora de sustentabilidade (CSO) da PepsiCo na América Latina.
Ela destaca o compromisso de redução de açúcar em 100% do portfólio na América Latina — que, segundo ela, resultou em mais de 90% dos produtos da PepsiCo não terem os selos de alerta de altos teores de sódio, açúcar e gorduras saturadas.
“Licença para operar”
Com relação à sustentabilidade, outra tendência influente sobre o negócio, Ribichich cita a definição de Ramon Laguarta, CEO global: “Ele diz que a sustentabilidade não é uma obrigação, mas nossa licença para operar dentro do planeta.”
A empresa já se define como “100% sustentável” na originação de batata, com todos os produtores adotando “ao menos duas práticas regenerativas”. O tubérculo responde por 150 mil toneladas em compras por ano, em um total de 450 mil toneladas em matérias-primas agrícolas.
O protocolo de agricultura regenerativa PepsiCo Positive (pep+) foca a disseminação de práticas, com uma meta global de cobrir com elas 4 milhões de hectares até 2030. Também há esforços para restauração de solos e resiliência climática — ainda mais relevantes em um ano em que as previsões apontam para um El Niño muito forte.
A empresa almeja zerar suas emissões até 2050, e diz ter atingido outro objetivo, de repor 100% do volume de água que usa nas operações. Desde 2024, em iniciativa na fábrica em Itu (SP) em parceria com a Ultragás, passou a empregar biometano de aterros sanitários nas operações industriais e em 70% da frota primária de caminhões — a ideia é expandir o projeto para outras plantas.
“A gente não pode controlar as mudanças climáticas, mas quando investe em ferramentas de tecnologia, biometano e resiliência da agricultura, a sustentabilidade trata da continuidade do negócio”, diz Malpighi.
Felipe Carvalho, diretor de Agronegócios da PepsiCo Brasil, também aproxima os aspectos ambiental e financeiro à luz do El Niño. “Irrigação eficiente não é somente usar menos água, mas a quantidade correta, com tecnologia na tomada de decisão. Não só para uso mais eficiente do recurso, mas também para o custo mais eficiente.”
* O jornalista viajou a convite da PepsiCo.




