Em meio aos primeiros sinais de que o pior da crise na pecuária norte-americana possa ter ficado para trás, a Tyson Foods jogou um balde de água fria nas esperanças do mercado. Nesta quinta-feira, a empresa novamente reduziu o seu guidance para 2026, alegando “pressões adicionais no segmento de carne bovina no quarto trimestre”.
Segundo a Tyson, a perspectiva para os resultados foi revista principalmente devido a uma compressão significativa das margens em meio à volatilidade nos preços do gado nos Estados Unidos, que passa por uma crise histórica de escassez de animais para abate.
Além disso, a demanda pela carne bovina, que se mantinha forte nos EUA mesmo em meio a preços elevados, parece começar a sentir os efeitos da inflação. “A cautela do consumidor em relação a gastos discricionários tornou o ambiente de demanda mais desafiador no food service”, disse a empresa, em comunicado.
Com o balde de água fria da Tyson, as ações da companhia americana chegaram a cair mais de 7% na Bolsa de Nova York, enquanto as da JBS recuavam 3,5% por volta das 15h. Já os papéis da MBRF, que nos EUA controla a National Beef, operavam perto da estabilidade.
A situação da Tyson
Somente no negócio de carne bovina, a Tyson espera agora um prejuízo entre US$ 625 milhões e US$ 775 milhões no ano fiscal de 2026 — acima do intervalo entre US$ 500 milhões e US$ 600 milhões projetado anteriormente.
Para os resultados consolidados, a Tyson reduziu a sua estimativa para o lucro operacional para o intervalo entre US$ 1,85 bilhão e US$ 2 bilhões. Há apenas um mês, a companhia já havia cortado o guidance para algo entre US$ 2,1 bilhão e US$ 2,3 bilhões.
“As pressões no segmento de carne bovina que se intensificaram neste trimestre refletem dinâmicas do ciclo do gado que afetam toda a indústria e exigiram ações decisivas”, disse Donnie King, CEO da Tyson Foods, em comunicado.
No mês passado, a companhia anunciou uma reestruturação de seu negócio de carne bovina que devem resultar em uma redução de aproximadamente 20% de sua capacidade de abate nos EUA. Segundo King, essas mudanças devem começar a reduzir os custos operacionais no próximo ano.
“Vimos a redução do guidance como uma nova evidência de que as condições de curto prazo para o negócio de carne bovina continuam mais desafiadoras do que o antecipado previamente, apesar das ações agressivas [da Tyson] em relação à capacidade produtiva”, disseram os analistas do banco de investimentos americano Stephens.
Margens melhoram no setor
O corte no guidance da Tyson contrasta com os indicadores de margem na produção de carne bovina nos EUA. Neste terceiro trimestre, as margens dos frigoríficos americanos estão positivas em US$ 0,29 por quilo, depois de terem ficado negativas em US$ 0,36 por quilo no segundo trimestre, o equivalente a um aumento de 5,2 pontos percentuais, segundo estimativa do UBS.
De acordo com a equipe de análise do banco, a melhora foi impulsionada por uma queda de 9% nos preços do gado no trimestre, compensando uma redução de 4% da carne bovina no mesmo período — o cálculo considera os preços do USDA para a carne no atacado e do gado vivo na Bolsa de Chicago.
O preço do boi nos EUA, aliás, está no menor patamar do ano, caindo 21% desde o pico registrado no final de junho, segundo o UBS. O movimento é explicado pela reabertura dos EUA para a importação de gado do México, o que pode elevar a oferta de animais para abate, e pelas medidas adotadas para ampliar o fluxo de carne bovina ao país, incluindo a autorização para a importação de 300 mil toneladas sem tarifas.
O tom do comunicado da Tyson também é bem diferente do adotado por executivos de suas rivais brasileiras JBS e MBRF (controladora da National Beef nos EUA). No mês passado, as duas empresas apontaram a autorização para a importação do gado mexicano como um driver para uma melhora nos resultados.
Talvez este seja um sinal de que as empresas estão em melhor posição para aproveitar a maior oferta de gado mexicano. Em relatório divulgado há duas semanas, o Bank of America, apontou uma reversão do cenário negativo para os frigoríficos nos EUA, acrescentando que a empresa de Marcos Molina se beneficiaria diretamente do fechamento do frigorífico da Tyson em Illinois.
Nesta quinta, ao comentar o comunicado da Tyson, o Goldman Sachs disse esperar que a JBS apresente um desempenho acima da média do mercado, refletindo decisões mais racionais em fechamento de capacidade e preços mais baixos do gado.
“Aos preços atuais, a JBS é negociada com um desconto de 5% em relação à Tyson”, destacou o analista Thiago Bortolucci, em relatório. O cálculo considera o EV/Ebitda das duas empresas comparável para 2026, antes da revisão desta sexta da Tyson. O Goldman recomenda compra das ações da JBS.




