Os terremotos que atingiram diferentes países nos últimos meses voltaram a mostrar como uma emergência pode transformar tudo em poucas horas. Prédios desabam, estradas são interrompidas, hospitais ficam sob pressão e milhares de pessoas passam a depender de algum tipo de assistência.
Terremotos são apenas uma das formas pelas quais uma grande crise pode surgir. Enchentes, incêndios, furacões, secas e emergências sanitárias têm causas diferentes, mas compartilham uma característica depois que o desastre começa: aquilo que normalmente poderia levar dias passa a precisar acontecer em horas.
É fácil perceber por que equipes de resgate, hospitais, alimentos e abrigos são indispensáveis. Menos visível é a infraestrutura financeira e informacional que permite colocar tudo isso em movimento.
Ambulâncias precisam de combustível, hospitais precisam repor medicamentos, organizações locais precisam comprar alimentos, famílias precisam receber recursos e doadores podem estar a milhares de quilômetros do lugar atingido.
É justamente nessa engrenagem menos visível que criptomoedas e blockchain começam a encontrar aplicações concretas. Conforme o desastre avança, o problema também muda. Primeiro os recursos precisam chegar.
Depois, precisam ser distribuídos de forma coordenada. Passada a emergência imediata, surge a necessidade de financiar indenizações e reconstrução e, com valores cada vez maiores em circulação, de acompanhar melhor o caminho do dinheiro.
O terremoto que atingiu Turquia e Síria em fevereiro de 2023 mostrou a primeira dessas possibilidades. Poucas semanas depois dos abalos, a Chainalysis havia identificado aproximadamente US$ 5,9 milhões em doações realizadas em criptomoedas para campanhas relacionadas às vítimas, além de outros valores anunciados por empresas do setor [1].
O dado importa menos pelo volume absoluto do que pelo mecanismo. Pessoas em diferentes países puderam transferir recursos para organizações envolvidas na emergência por uma infraestrutura disponível continuamente e capaz de movimentar valor através de fronteiras.
Quando combustível, medicamentos ou alimentos precisam ser comprados naquele mesmo dia, reduzir o intervalo entre quem tem condições de ajudar e quem precisa utilizar o dinheiro já faz parte da própria capacidade de resposta.
Fazer o dinheiro chegar, porém, resolve apenas a primeira questão. Assim que diferentes organizações começam a distribuir ajuda, aparece outra: como saber quem já recebeu e quem ainda ficou de fora?
Imagine uma cidade atingida por uma grande enchente. Pela manhã, uma organização entrega auxílio a mil famílias. À tarde, outra instituição chega com recursos para atender outras mil. Se cada uma trabalha apenas com sua própria lista, sem conseguir saber o que as demais já fizeram, algumas famílias podem receber o mesmo benefício duas vezes enquanto outras continuam esperando.
Em pequena escala, uma ligação ou uma planilha compartilhada talvez resolvam. Em uma emergência envolvendo dezenas de organizações e centenas de milhares de pessoas, o problema muda de dimensão.
É exatamente essa dificuldade que o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas procura enfrentar com o Building Blocks, uma aplicação já utilizada em assistência humanitária. A plataforma permite coordenar a assistência oferecida por diferentes organizações às mesmas populações, de modo que seja possível saber que tipo de ajuda determinada pessoa já recebeu antes de um novo benefício ser concedido [2].
Isso é possível porque o Building Blocks funciona sobre uma blockchain privada e permissionada, acessível apenas às organizações participantes — diferente das blockchains públicas por trás de criptomoedas como Bitcoin ou Ethereum, mencionadas anteriormente.
Cada beneficiário tem um saldo de assistência registrado nesse sistema e se identifica por biometria, como leitura de íris, ao retirar alimentos ou outros itens num ponto de atendimento credenciado. A rede debita automaticamente aquele valor e sincroniza a informação entre as organizações participantes em tempo real.
Para quem recebe o auxílio, nada precisa mudar. A pessoa não precisa comprar criptomoeda, possuir uma carteira ou sequer saber que existe blockchain por trás da operação.
Imagine apenas que uma família já tenha recebido determinado benefício pela manhã. Quando outra organização for atendê-la à tarde, poderá saber que aquele auxílio já foi concedido e direcionar o recurso a outra família ainda não atendida.
Os números ajudam a mostrar por que essa coordenação importa. O Building Blocks já processou centenas de milhões de dólares em transferências e foi utilizado em operações humanitárias envolvendo diferentes organizações e grandes populações.
O ganho não está apenas em digitalizar um cadastro, mas em reduzir sobreposições num ambiente em que cada recurso distribuído duas vezes pode significar outra pessoa ainda esperando atendimento.
Com o passar dos dias, porém, a própria necessidade muda. A família pode ter recebido comida e encontrado abrigo temporário, mas continua sem casa. Escolas, hospitais e estradas precisam ser recuperados. Empresas precisam reabrir.
O socorro imediato começa a dar lugar à reconstrução, e a pergunta passa a ser como disponibilizar grandes volumes de recursos sem esperar que todos os prejuízos sejam apurados até o último detalhe.
É nesse momento que entram os chamados mecanismos paramétricos.
Em 2023, o Banco Mundial estruturou para o Chile uma proteção de US$ 630 milhões contra terremotos, combinando títulos de catástrofe e instrumentos de seguro. A cobertura não depende de esperar que cada prédio, estrada ou hospital tenha seus danos individualmente calculados.
O pagamento é determinado a partir de parâmetros físicos do próprio terremoto, definidos previamente, como localização, magnitude e profundidade [3].
Um exemplo hipotético ajuda a visualizar a lógica. Imagine que um contrato estabeleça previamente que um terremoto ocorrido dentro de determinada região, acima de certa magnitude e dentro de uma faixa definida de profundidade liberará uma parcela da cobertura. Se o evento for ainda mais severo, outra faixa poderá acionar um pagamento maior.
Isso permite que os primeiros recursos sejam liberados sem esperar que cada imóvel, ponte ou empresa tenha o prejuízo completamente calculado. A lógica vale também para outros riscos: numa seca, o gatilho pode ser a chuva acumulada abaixo de determinado nível; numa enchente, a altura de um rio; num ciclone, a velocidade do vento.
Se esses parâmetros já estão definidos e podem ser confirmados por fontes confiáveis, parte do processo de pagamento também pode ser automatizada por smart contracts.
O interesse não está em reinventar o seguro paramétrico, que já existe, mas em comprimir ainda mais o tempo entre o evento, sua confirmação e a disponibilidade dos recursos.
Essa diferença pode ser decisiva porque a reconstrução não espera o cálculo final da tragédia. Hospitais temporários precisam funcionar, estradas precisam ser liberadas, escolas recuperadas e famílias precisam começar a reconstruir a vida enquanto a dimensão total dos danos ainda está sendo conhecida.
Quando bilhões começam a circular, porém, a velocidade deixa de ser a única preocupação. Passa a importar também a possibilidade de reconstruir o caminho do dinheiro.
Grandes desastres mobilizam governos, organismos internacionais, seguradoras, empresas, organizações humanitárias e milhares de doadores. Quanto maior o volume financeiro e o número de participantes, maior a dificuldade de acompanhar depois todo o percurso dos recursos.
É nesse estágio que uma característica conhecida das blockchains públicas ganha outro significado. Quando uma campanha divulga um endereço para receber criptomoedas, os valores recebidos e suas movimentações posteriores podem ser verificados por terceiros. Parte do fluxo financeiro deixa de depender exclusivamente de um relatório produzido posteriormente por quem administrou os recursos.
O terremoto da Turquia e da Síria mostrou também o outro lado dessa transparência. A Chainalysis identificou endereços suspeitos associados a possíveis campanhas fraudulentas.
A existência de uma trilha pública não impede que alguém tente se aproveitar de uma tragédia, mas pode facilitar a identificação de movimentações suspeitas e o acompanhamento do destino dos valores [1].
Ao longo de um desastre, o problema financeiro muda de natureza. Primeiro é preciso fazer recursos chegarem. Depois, distribuí-los sem desperdício. Na reconstrução, liberar dinheiro com rapidez e acompanhar o percurso de valores cada vez maiores.
Criptomoedas, blockchain e smart contracts cumprem funções diferentes ao longo dessa sequência. O critério, no entanto, é o mesmo: a tecnologia só faz sentido quando reduz uma fricção concreta.
Esse talvez seja um teste mais interessante para o ecossistema cripto do que perguntar o que ele pode substituir. Diante de uma emergência, importa saber o que consegue continuar funcionando, ou funcionar melhor, quando os sistemas habituais estão sob pressão.
Grandes desastres mostram de forma particularmente dura quanto custa esperar. Uma doação que demora, um auxílio duplicado ou uma indenização que chega tarde são problemas diferentes, mas consomem o mesmo recurso que nenhuma emergência consegue recuperar: tempo.
Quando cada hora importa, essas diferenças deixam de ser meramente técnicas.
Talvez esteja justamente aí uma das aplicações mais concretas de Bitcoin e blockchain fora do mercado financeiro: reduzir a distância entre o recurso que existe e o socorro que precisa chegar.
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Referências
[1] CHAINALYSIS. Crypto Donations Provide Fast Relief for Earthquake Victims in Turkey and Syria. 21 fev. 2023. Disponível em: https://www.chainalysis.com/blog/cryptocurrency-donations-provide-fast-relief-for-turkey-syria-earthquake-victims/
[2] WORLD FOOD PROGRAMME. Building Blocks. Disponível em: https://www.wfp.org/building-blocks
[3] WORLD BANK. World Bank Provides Chile with $630 Million Insurance Cover for Earthquake Events. 2023. Disponível em: https://thedocs.worldbank.org/en/doc/bbe8fec1c061681e55f765239ae1c979-0340012023/original/Case-Study-Chile-2023-CatBond.pdf




