A transição para uma economia de baixo carbono começa a impor ao Brasil uma escolha que vai além da criação de novas indústrias verdes. Com recursos públicos mais limitados, ganha força a estratégia de modernizar setores nos quais o País já possui capacidade produtiva, fornecedores e mão de obra, de forma a preservar sua competitividade à medida que as exigências ambientais avançam no comércio e nos investimentos globais.
É nesse contexto que a reconversão verde passa a ocupar maior espaço no debate sobre política industrial. Diferentemente da criação de mercados ainda em estágio de desenvolvimento, como hidrogênio de baixa emissão, novas gerações de baterias e tecnologias de captura de carbono, a reconversão procura transformar estruturas produtivas existentes.
O movimento alcança segmentos como siderurgia, indústria automotiva, petroquímica, mineração e máquinas e equipamentos. Em vez de substituir essas cadeias, a proposta é modificar a maneira como produzem, incorporando fontes energéticas de menor emissão, digitalização, reaproveitamento de resíduos, redução do consumo de matérias-primas, reformulação de produtos e qualificação profissional.
A estratégia busca preservar ativos industriais e empregos enquanto adapta a produção a um cenário no qual emissões, eficiência energética e uso de recursos naturais têm peso crescente na capacidade de competir internacionalmente.
Um estudo do Observatório de Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV) ajuda a dimensionar essa transformação. O levantamento sustenta que a transição ambiental está acrescentando à economia global um novo componente de competitividade, chamado de “fator verde”, formado pela combinação de recursos naturais, conhecimento técnico e tecnologias avançadas.
Quanto maior a importância das exigências ambientais, maior tende a ser a influência desse fator sobre decisões de investimento, custos de produção e acesso a mercados internacionais. Segundo o estudo, “a presença do verde abundante, em um território, tende a ser um atrativo significativo para a localização de empresas”.
Vantagem brasileira
O Brasil possui condições favoráveis para explorar essa mudança. De acordo com a FGV, mais de 60% do território nacional permanece preservado, enquanto a produtividade agrícola cresceu 400% nas últimas três décadas. O País também acumulou conhecimento em áreas como biocombustíveis, bioinsumos, agricultura tropical e aproveitamento de biomassa.
A disponibilidade de uma matriz elétrica predominantemente renovável representa outro diferencial para atividades industriais intensivas em energia. Essa vantagem, contudo, não é necessariamente permanente.
À medida que outras grandes economias expandem a geração renovável e desenvolvem tecnologias capazes de reduzir suas emissões, parte da distância que hoje favorece a produção brasileira pode diminuir.
“O bem industrializado produzido aqui custa ‘menos’ natureza do que o que é produzido à base de energia termelétrica na Europa, nos Estados Unidos ou na China”, afirma o documento. O próprio estudo ressalta, porém, que, com o avanço da descarbonização nessas economias, “a vantagem brasileira tende a desaparecer”.
Nesse cenário, a disponibilidade de recursos naturais e eletricidade limpa precisa se traduzir em ganhos de produtividade, inovação e produção de bens com maior valor agregado. O desafio, segundo o levantamento, está na “capacidade do país de converter o verde em valor”.
Economia circular
Uma das alternativas para realizar essa conversão passa pela economia circular. Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresenta a circularidade não apenas como instrumento ambiental, mas também como mecanismo para elevar a produtividade e tornar mais eficiente o uso de recursos.
O conceito pressupõe prolongar a utilização de produtos, componentes e materiais, reduzindo a necessidade de matérias-primas virgens. Isso pode ocorrer por meio da recuperação de resíduos, aumento da durabilidade dos bens, reparo, remanufatura e adoção de modelos nos quais fabricantes ampliam sua responsabilidade ao longo do ciclo de vida dos produtos.
Essa lógica está diretamente associada à reconversão industrial. Em lugar de descartar estruturas produtivas existentes para construir novas cadeias, empresas podem adaptar ativos, reorganizar processos e diminuir a dependência de insumos sujeitos a escassez ou a interrupções nas cadeias internacionais.
A implementação enfrenta, no entanto, barreiras tributárias, regulatórias e tecnológicas. A CNI identifica problemas relacionados à distinção entre resíduos e subprodutos, à tributação de materiais que retornam aos processos produtivos e à necessidade de ampliar sistemas de rastreabilidade.
Entre os instrumentos considerados necessários estão linhas de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), compras públicas sustentáveis e maior harmonização das normas técnicas.
Recursos limitados
Parte dessa agenda foi incorporada à Nova Indústria Brasil (NIB), política lançada em 2024 pelo governo federal e com horizonte até 2033. Coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a iniciativa combina financiamento, incentivos tributários e compras governamentais em seis missões que abrangem áreas como bioeconomia, transição energética, transformação digital e cadeias agroindustriais sustentáveis.
A reconversão aparece nesse desenho como uma das frentes da estratégia de neoindustrialização. O principal obstáculo, porém, está na capacidade financeira para executar programas de grande escala.
Estados Unidos, China e União Europeia mobilizaram volumes expressivos de recursos públicos para incentivar energia limpa, tecnologias estratégicas e produção industrial. O Brasil enfrenta restrições fiscais maiores, o que reduz sua capacidade de reproduzir políticas baseadas em subsídios amplos.
A diferença pode empurrar a política industrial brasileira para um modelo mais seletivo. Em vez de distribuir incentivos entre grande número de projetos, a tendência seria concentrar recursos em cadeias nas quais o País já dispõe de vantagens produtivas, tecnológicas ou naturais, especialmente quando o apoio público puder funcionar como catalisador de investimentos privados.
A limitação orçamentária, nesse caso, também pode servir como mecanismo de disciplina. A concentração dos recursos disponíveis permitiria direcionar políticas para atividades com maior potencial de elevar produtividade, ampliar exportações e reduzir emissões, evitando a pulverização dos incentivos.
Escolhas regionais
A reconversão também impõe desafios territoriais. A transformação da indústria automotiva instalada no ABC paulista, por exemplo, demanda políticas diferentes das necessárias para atualizar o polo petroquímico da Bahia, complexos siderúrgicos ou a indústria pesada de Cubatão. Essa diversidade exige que a política industrial considere características regionais, infraestrutura disponível, qualificação da mão de obra e especialização das cadeias produtivas.
O modelo, entretanto, carrega o risco de transformar seletividade econômica em escolha essencialmente política. Para evitar essa distorção, os programas precisam estar associados a critérios transparentes, metas mensuráveis e mecanismos capazes de interromper incentivos destinados a projetos que não apresentem resultados em produtividade, inovação ou competitividade.
A previsibilidade das contas públicas também entra nessa equação. Um ambiente de maior incerteza fiscal tende a elevar o custo do capital, restringir investimentos privados e dificultar a continuidade de programas industriais que exigem planejamento de longo prazo.
A reconversão verde muda, assim, o centro da discussão sobre a transição industrial brasileira. Diante da impossibilidade de competir com as maiores economias em volume de subsídios, o País terá de decidir onde seus recursos podem produzir maior impacto. Mais do que financiar apenas o surgimento de novas atividades verdes, o desafio será transformar a base produtiva existente enquanto suas vantagens energéticas e naturais ainda podem ser convertidas em produtividade, tecnologia e capacidade de competir.




