19.7 C
São Paulo
quarta-feira, agosto 26, 2026

Os desafios do Banco do Brasil vão além do agro

DEVE LER


“Quem tem, mantenha, e quem não tem, compre”.

Com esta frase, a CEO Tarciana Medeiros recomendou (!) a ação do Banco do Brasil numa call de resultados em agosto de 2025 – um ‘vai tourinho’ que se tornou alvo de um processo sancionador na CVM.

De lá pra cá, o papel caiu 5% em meio à piora significativa da qualidade do crédito e da estrutura de capital do banco. O ROE foi de apenas 8,3% no segundo trimestre – em linha com os 8,4% registrados um ano antes, mas abaixo de concorrentes como Bradesco (16%), Santander (12,5%) e Itaú (24%). 

Além disso, o mercado passou a questionar a viabilidade do guidance – e a prever que o banco precisará adotar medidas para elevar seu capital, como fez o Bradesco recentemente. 

“Acreditamos que uma revisão para baixo (do guidance) seja apenas uma questão de tempo,” Eduardo Rosman, que cobre o banco no BTG, disse num relatório a clientes.

O banco negocia a apenas 0,6x o valor patrimonial, mas os analistas estão longe de achar a ação barata. 

Em meio à “baixa visibilidade” sobre como e quando os problemas serão resolvidos, o Citi reduziu recentemente o preço-alvo para R$ 18.

O papel fechou ontem a R$ 19,57 e cai 10% no ano. O Banco do Brasil vale R$ 112 bilhões na Bolsa.

Em pleno ano eleitoral, o que faz preço no BB são os fundamentos. “Se um candidato liberal crescer nas pesquisas ou ganhar, pode até ser que a ação suba um pouco. Mas será um voo de galinha. A questão ali é operacional,” disse um analista do sellside

Um dos grandes problemas do BB é a deterioração da carteira do AGRONEGÓCIO, que somou R$ 422 bilhões no segundo trimestre – um terço da carteira total do banco. 

A inadimplência acima de 90 dias no agro chegou a 6,3% no segundo tri – ante 3,2% em junho de 2025, 1,3% no ano anterior e 0,6% em junho de 2023 (a média histórica gira em torno de 1,5%). O indicador de curto prazo subiu para 9%.

“O BB perdeu a principalidade de clientes do agro porque aumentou a concorrência com outros bancos e também com o mercado de capitais. No passado, se o produtor não pagasse o BB, poderia ficar sem alternativa de financiamento. Hoje não é mais assim,” disse outro analista.

No segundo tri, essa piora contaminou o segmento de pessoas físicas porque muitos produtores rurais deixaram de pagar empréstimos pessoais, financiamentos de veículos e outras linhas, disse o BB, sem especificar quantos. 

A inadimplência de pessoas físicas acima de 90 dias aumentou para 8,4% – ante 6,8% no tri anterior e 5,6% há um ano –  e a chamada “NPL formation” (a formação de novos empréstimos com problemas) mais que dobrou. 

Em cartões de crédito, o indicador chegou a 14,6%, o dobro dos 7,1% do tri anterior. 

Mas, infelizmente, fora da área de influência do agro o banco também amarga dificuldades.

A inadimplência das PMEs acima de 90 dias foi de 9,7% – mais que os 8,8% do trimestre anterior, mas abaixo dos 10,6% registrados há um ano. 

Tudo somado, a inadimplência total do BB foi de 5,6% – acima dos 5,1% do tri anterior e dos 4% de junho de 2025.

O BB espera uma “melhora relevante” das provisões do agro com a MP 1376, o CRO Felipe Prince disse na última call de resultados. A MP prevê a criação de linhas de crédito com juros subsidiados para produtores inadimplentes, com um fundo garantidor bancado pela União. 

O BB estima que R$ 30 bilhões sejam renegociados. “Já esperávamos uma piora em pessoas físicas. Agora precisamos entregar essa melhora no agro, que trará reflexos na carteira PF,” disse Prince.

Com isso, mais os ajustes que estão sendo feitos nas carteiras de pessoas físicas e PMEs e no mix de crédito do banco – com crescimento maior em linhas com mais garantias, como os consignados público e privado –, o banco prevê que as provisões vão convergir para o intervalo do guidance, de R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões no ano.

No primeiro semestre, as provisões somaram R$ 37,5 bilhões – um total de R$ 75 bilhões anualizado. Isso apesar da queda do índice de cobertura, que mede a relação entre a PDD e o estoque de empréstimos inadimplentes. 

O problema é que, apesar de aprovada, a MP ainda não saiu do papel: o Governo Lula ainda não definiu as regras de equalização dos juros, nem os detalhes operacionais do programa. “Isso deve estar esbarrando na questão fiscal,” especula um analista.

Para o Citi, “dado que as negociações de dívida ainda precisam ganhar tração e o terceiro tri já passou da metade, os impactos mais significativos devem ser sentidos apenas no quarto tri”. 

E os efeitos num primeiro momento serão apenas contábeis, já que haverá rolagem das dívidas, lembrou outro analista. “Para esse dinheiro entrar efetivamente em caixa, os produtores precisam pagar, e só veremos isso ao longo de 2027 e à frente.” 

No Citi, a equipe liderada por Gustavo Schroden reduziu em 5% a projeção de lucro do ano para R$ 16,6 bilhões – abaixo do piso do guidance do banco, que vai de R$ 18 bi a R$ 22 bi. Para 2027, a estimativa caiu 20% para R$ 21,1 bilhões.

Além do crédito, o capital é outro ponto crítico.

O índice de capital principal caiu para 11,3% no segundo tri, enquanto o patrimônio tangível (em caixa) diminuiu 15%, passando a representar apenas 48% do patrimônio total, frente aos 54% do primeiro tri, nas contas do BTG. 

O tangível caiu porque o BB segue acumulando créditos tributários gerados pelas provisões – as PDDs reduzem o lucro contábil assim que são feitas, mas o impacto no lucro tributável é diferido, o que gera créditos fiscais.

Esses créditos podem ser utilizados quando a operação bancária dá lucro – o que não é o caso hoje. Segundo o Citi, o banco teve uma perda de R$ 1,2 bilhão no primeiro semestre. Os ganhos do grupo vieram de negócios como seguros, consórcios, assets e do Banco Patagônia. 

Créditos tributários não rendem juros, o que é um enorme custo de oportunidade para o banco num ambiente de Selic elevada, lembra o BTG.

O management reconhece o problema, mas acredita que os impactos da MP e de outras ações tomadas para reduzir a inadimplência – além do aumento de receitas e da redução de custos – serão suficientes para recompor o capital de forma orgânica. 

No segundo tri, ao contrário do que se viu nos bancos privados, a receita com tarifas e serviços do BB surpreendeu positivamente, crescendo 3% no trimestre e 4% na comparação anual – acima das expectativas do BTG.

A margem financeira aumentou 8% na comparação anual e também superou as projeções, enquanto as despesas administrativas cresceram menos que o esperado.

“Isso contribui de maneira estruturante para o capital,” disse Tarciana Medeiros nesta última coletiva de resultados.

Os analistas, porém, acreditam que o banco adotará alguma solução “à la Bradesco” para resolver a estrutura de capital.  

Uma capitalização, como anunciou o Bradesco, é vista como improvável, dada a situação fiscal do governo. Mas o BB poderia vender participações em negócios como Elo, BB Seguridade, BB Asset e Banco Patagônia – ou fazer uma reorganização societária para incorporar uma subsidiária lucrativa no banco, e assim poder usar os créditos tributários. 

“O problema de tentar vender algo agora, com o mercado deprimido, é o preço. Mas, numa necessidade, existem alternativas,” disse um analista do buyside




Giuliana Napolitano






Fonte Link

- Publicidade -spot_img

Mais Artigos

- Publicidade -spot_img

Último Artigo