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sexta-feira, maio 22, 2026

“Mercado de crédito do Brasil se tornou o mais sofisticado do mundo”, diz CEO da BlackOpal

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Com mais de 25 anos de experiência em cargos de alta liderança na América do Norte, América Latina, Ásia e Oriente Médio, o canadense Jason Dehni acumula conhecimento nos setores de crédito, seguros, gestão de fundos, patrimônio e investimentos em mercados emergentes. Com MBA pela Harvard Business School e bacharelado em Economia e Ciência Política pela Universidade de Toronto, ele ressalta: “Morar em Dubai me dá maior facilidade de buscar investidores em todo o mundo, já que há voos para todo canto”, afirmou. Na próxima semana, o executivo virá a São Paulo para uma série de reuniões com clientes da BlackOpal e, diretamente da Índia, conversou com o BRAZIL ECONOMY sobre as principais oportunidades para quem deseja investir no País por meio dos produtos da companhia, além de analisar o cenário macroeconômico brasileiro. Confira:

A BlackOpal une o mercado brasileiro de pagamentos com cartão de crédito, avaliado em US$ 750 bilhões, ao capital global. O que o senhor destaca como o grande diferencial da atuação da companhia?
Nós compramos recebíveis no Brasil e rentabilizamos os compradores. Vemos que o mercado de crédito do Brasil se tornou o mais sofisticado do mundo. Eu viajo por diversos países e conheço bem esse ambiente. Por isso, posso dizer que a lógica de compra de recebíveis com desconto existente no Brasil não ocorre em outros mercados. Podemos afirmar que o Brasil ensina o mundo a fazer pagamentos por meio de uma estrutura robusta e eficiente. Mas é importante lembrar que não concedemos crédito a comerciantes nem assumimos risco de crédito. O que fazemos é comprar recebíveis que depois são liquidados pelas redes Visa e Mastercard.

O senhor acredita que o Banco Central brasileiro tem um papel importante nesse processo?
O Banco Central faz um trabalho incrível ao garantir mais segurança aos investidores. Recentemente, o órgão instituiu a Resolução 522, que promoveu diversas melhorias na regulação dos arranjos de pagamento e ajudou nesse processo. Além disso, os bancos centrais de outros mercados não controlam e regulam a indústria de pagamentos da mesma forma que ocorre no Brasil.

Quais são os diferenciais do Brasil em relação a outros países emergentes?
Eu vivi na América do Norte e conheço de perto o mercado de capitais mexicano, que é muito aberto aos Estados Unidos e à Europa. Já o brasileiro é mais difícil de acessar por causa de uma série de regras, impostos e outros fatores. Também existe a barreira do idioma, já que muitos executivos brasileiros têm inglês limitado e muitas pessoas que desejam investir no Brasil não falam português. O mercado de capitais brasileiro não está conectado ao mundo da mesma maneira que outros emergentes, e isso é positivo porque cria oportunidades para quem deseja conhecê-lo. Além disso, o perfil de risco do Brasil é muito atrativo para investidores. Nosso objetivo é aproximar o Brasil do mercado global de capitais aproveitando justamente essa oportunidade.

A plataforma GemStone é um dos grandes diferenciais da BlackOpal. Como ela funciona?
No Brasil, 70% das transações com cartão de crédito permitem que os consumidores paguem em até 12 parcelas mensais, adiando os pagamentos aos comerciantes. A GemStone aproveita esse sistema ao adquirir recebíveis com desconto. Dessa forma, o comerciante pode receber recursos de maneira imediata por meio da tokenização. A transação é uma operação legal na qual o vendedor transfere integralmente a propriedade, os direitos, os riscos e as recompensas de seus recebíveis para o comprador. O rendimento anual é de 12%.

Esse fenômeno da tokenização vem ganhando força no mundo…
Sim. Quando se observa Larry Fink, CEO da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, percebe que ele é um grande defensor da tokenização. Outros grandes gestores globais também estão começando a tokenizar seus fundos. Mas acredito que essa alternativa funciona como uma estrutura paralela, já que o modelo tradicional de investimentos continua existindo. Na BlackOpal, não impomos um formato específico de operação. Tudo depende de como os clientes preferem atuar para atender às suas necessidades. Pode ser por meio de investimentos tradicionais ou tokenizados. O mesmo vale para a moeda utilizada, já que alguns preferem operar em dólares e outros em stablecoins, por exemplo.

E como isso é visto no Brasil?
No caso brasileiro, essa modalidade de investimento ainda está em estágio inicial, mas vemos um grande potencial de crescimento gradual nos próximos anos. Tanto que, neste momento, o foco da BlackOpal está nos investidores internacionais, e não nos brasileiros.

Quais são as diferenças entre a GemStone e a LiquidStone, outro produto da BlackOpal que vem ganhando espaço?
Ambas trabalham com recebíveis de cartão de crédito, mas a LiquidStone permite que os investidores resgatem seu capital a qualquer momento, 24 horas por dia, oferecendo rendimento anual de 14% e liquidação entre um e cinco dias. A GemStone, por sua vez, possui um prazo de resgate mais longo.

Como funciona a equipe da BlackOpal?
Meus dois cofundadores, Pedro Viegas e Lucas Vinicius, atuam no Brasil. Pedro é COO e Head de Payments Infrastructure, enquanto Lucas ocupa a posição de Head de Receivables Financing. Eles conduzem a operação local por meio do relacionamento com fintechs e da gestão tecnológica, por exemplo. Eu fico responsável pela frente externa. Essa ponte é muito importante porque, enquanto viajo o mundo em busca de investidores, eles ajudam esses executivos a compreender o funcionamento do mercado brasileiro.

Como funciona o relacionamento entre os executivos e os clientes da companhia?
A proposta é manter uma relação próxima. Eu prospecto clientes e faço o relacionamento inicial, mas a execução do dia a dia fica com eles, inclusive para transmitir a credibilidade do mercado brasileiro, do qual são nativos e conhecem ainda melhor do que eu.

Este ano haverá eleição no Brasil e, mais uma vez, existe a possibilidade de uma disputa polarizada, o que pode gerar instabilidade política. Isso afeta os negócios da BlackOpal?
Não afeta muito. O setor de meios de pagamento não sofre grande impacto porque é uma atividade essencialmente comercial e, por isso, não possui relação direta com a política. Não é algo que consideramos de forma relevante ao fazer negócios.

Como os investidores estrangeiros têm visto a economia brasileira em 2026?
Mesmo com a inflação, o Brasil continua sendo, de longe, a principal economia da América Latina. Os fundamentos macroeconômicos ainda são positivos e, por isso, a preocupação não é necessariamente com a economia, mas sim com a forma de acessar esse mercado. Existe a percepção de que o Brasil é uma estrela entre os mercados emergentes. Assim, quem deseja investir nesse segmento dificilmente deixaria o País de fora. O Brasil já enfrentou dificuldades, mas não teve desempenho tão ruim nos últimos anos, e a visão predominante é de que 2027 será um bom ano.

De onde vêm os principais investidores da BlackOpal?
Atualmente, cerca de 80% dos nossos investidores estão no eixo entre Nova York e Londres. Singapura e Hong Kong também demonstram interesse pela América Latina, mas ainda priorizam o mercado asiático por questões de proximidade. Boston, Tóquio e Taiwan também observam com atenção os mercados emergentes, e podemos ampliar nossa presença nesses centros nos próximos anos.



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