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sexta-feira, maio 22, 2026

Setor de café acende alerta para El Niño

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SANTOS (SP) — Os primeiros sinais da colheita de café são positivos e confirmam as expectativas de uma safra recorde. A leitura foi compartilhada nesta quinta-feira (21) por especialistas durante o 25º Seminário Internacional do Café, em Santos (SP).

Segundo Marina Marangon, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, embora ainda seja cedo para “cravar”, as lavouras estão demonstrando produtividade muito boa, apesar de uma peneira mais baixa do que o esperado em certas amostras, com produtores relatando grãos mais finos — ponto mencionado também por Claudio Delposte, analista sênior da divisão de Food & Agribusiness do RaboResearch, o braço de análises do Rabobank.

A Conab atualizou nesta quinta-feira sua estimativa para a safra 2025/26, para 66,7 milhões de sacas, novo recorde e um aumento de 18% frente à safra passada.

O setor privado tem previsões mais arrojadas: o Rabobank atualizou a sua estimativa para 73,3 milhões de sacas (eram 70,7 milhões na última divulgação do banco), enquanto a StoneX projeta 75,3 milhões. Já o Itaú BBA prevê 72,5 milhões de sacas.

Participante do painel, Delposte explicou os porquês do aguardado bom rendimento. O clima colaborou, gerando boa condição hídrica. Além disso, o produtor esteve capitalizado pelos últimos anos de cotações altas, o que permitiu fazer corretamente as adubações.

O Rabobank estima uma expansão de 1,94% no parque cafeeiro no País nesta safra. Os maiores aumentos foram em Matas de Minas (2%, arábica) e em regiões de arábica no Espírito Santo (1,9%) — as novas áreas devem dar frutos em dois ou três anos.

A colheita dos canéforas (robusta e conilon) na Bahia, Espírito Santo e Rondônia começou em abril e vai até setembro. O ritmo está adiantado, com 35% do total já colhido em Rondônia, disse Carlos Santana, diretor comercial da EISA Interagrícola.

Já a colheita do arábica (São Paulo, Sul de Minas, Triângulo Mineiro, cerrado mineiro e partes do Espírito Santo) começou neste mês e deve se prolongar até meados de outubro.

Efeitos do El Niño

As atenções agora se voltam às previsões de agravamento do El Niño no segundo semestre.

Segundo Delposte, do Rabobank, as consequências do fenômeno tendem a ser chuvas acima da média no Sul, déficit de chuvas no Norte e na Amazônia, e ondas de calor e pancadas no Sudeste — região que seria mais vulnerável do ponto de vista agrícola.

Essas previsões não foram precificadas, ponderou Marangon, do Itaú BBA. Ou seja, ainda não afetam as cotações internacionais da commodity.

Um El Niño forte pode causar seca na Ásia e na Colômbia, na visão dela. No Brasil, na safra atual do café, o risco é menor, diz a analista, restrito à chance de um inverno mais chuvoso que afete a reta final da colheita, com algum nível de danos aos frutos e diminuição de qualidade.

Mas ambos concordam que o maior risco é para a safra 2026/27, com eventuais chuvas acima do normal no segundo semestre prejudicando a florada e o enchimento dos frutos.

Oscar Schaps, presidente da divisão América Latina da StoneX e produtor de café na Guatemala e em El Salvador, da StoneX, levantou a hipótese de o fenômeno ter um inusitado lado positivo: “Se as previsões se concretizarem, fica com menos risco de geada até depois da colheita”.

Delposte, do Rabobank, fez um contraponto: o histórico mostra uniformidade em anos de El Niño, de La Niña ou neutros. “Olhando os números desde 1950, as geadas são bem distribuídas e não dá para dizer que entrar em El Niño significa menos risco.”

Risco nos fertilizantes

Além do clima, os analistas comentaram outra variável “que ninguém controla”: o cenário geopolítico e seus efeitos sobre o planejamento dos cafeicultores no Brasil. Em particular a guerra no Irã, que causou fechamentos de passagens marítimas relevantes, como o Estreito de Ormuz, e deteriorou a relação de troca dos fertilizantes.

Para Marangon, do Itaú BBA, pode haver flutuações para baixo nos preços de matérias-primas relevantes — como ocorreu com a ureia, cuja cotação recuou levemente em maio após ter disparado entre fevereiro e abril. Isso premiaria quem esperar para comprar adubos.

Mas a indefinição com relação a até quando vai durar o conflito torna possível também a hipótese contrária, ela ponderou.

Santana, da EISA, reforçou esse temor. Segundo ele, embora a decisão de compra se concentre entre setembro e outubro, as assimetrias, como chamou os efeitos da guerra sobre a cadeia de suprimentos, têm deixado produtores e empresas em dúvida.

“O produtor está retardando, os negócios não estão ocorrendo, e isso me preocupa, pois existe um consenso de que teremos um ambiente inflacionário. Temo um efeito manada.”

Na visão dele, seria saudável ver os compradores no País reagindo mais rapidamente à “agenda da guerra” e compondo um preço médio para a compra dos insumos.



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