
O Ibovespa encerrou o último pregão em leve baixa de 0,09%, aos 166.783 pontos, e completou uma sequência de dez sessões consecutivas no campo negativo. O desempenho da bolsa brasileira continua pressionado principalmente pela retirada de recursos internacionais. Até quinta-feira, investidores estrangeiros haviam sacado R$ 15,6 bilhões da B3 somente em agosto.
Na avaliação de Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora, o mercado doméstico atravessa um período marcado por fatores contraditórios. Enquanto os sinais de desaceleração da economia reforçam a possibilidade de uma nova redução da taxa básica de juros, a valorização do petróleo aumenta os riscos inflacionários e pode restringir a duração do ciclo de cortes da Selic.
No exterior, o barril do Brent avançou 2,65%, cotado a US$ 90,87, enquanto o WTI subiu 2,55%, para US$ 84,50. A alta ocorreu em meio à falta de um acordo definitivo entre Estados Unidos e Irã e ao crescimento das tensões envolvendo o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais de transporte da commodity.
O agravamento das preocupações geopolíticas afetou os índices acionários norte-americanos. O Dow Jones recuou 0,51%, o S&P 500 caiu 0,52% e o Nasdaq teve desvalorização de 0,32%. No mercado de títulos, o rendimento da Treasury Note de dez anos alcançou 4,722%, enquanto o retorno do papel de 30 anos chegou a 5,309%, maior patamar em quase duas décadas.
A agenda internacional reúne nesta terça-feira a divulgação do índice ZEW de expectativas econômicas na Europa. Nos Estados Unidos, os investidores acompanham os números de construções residenciais iniciadas, produção industrial e vendas pendentes de imóveis. O evento mais aguardado da semana será a publicação, na quarta-feira, da ata da última reunião do Federal Reserve, que poderá oferecer novas indicações sobre os próximos passos da política monetária norte-americana.
No Brasil, a abertura oficial da campanha eleitoral elevou a cautela dos investidores. Os programas econômicos apresentados pelos candidatos começaram a ocupar espaço maior nas decisões da Faria Lima, enquanto a sustentabilidade das contas públicas a partir de 2027 permanece entre as principais fontes de preocupação.
O comportamento recente da atividade também entrou no radar. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br, recuou 0,64% em junho, resultado pior do que a retração de 0,50% projetada pelo mercado. Após a divulgação, a mediana das estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto no segundo trimestre passou de 0,5% para 0,4%.
A perda de ritmo da economia ampliou a percepção de que o Comitê de Política Monetária poderá reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual na reunião de setembro. As opções negociadas no mercado indicam probabilidade próxima de 77% para esse movimento.
A reação inicial ao IBC-Br levou à queda dos juros futuros, mas o movimento perdeu intensidade diante da disparada do petróleo. Um eventual choque de oferta provocado pelo encarecimento da commodity poderia contaminar os preços e diminuir o espaço disponível para uma flexibilização monetária mais prolongada.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reiterou que a política monetária permanece em território contracionista. Ele também destacou que o mercado de trabalho continua aquecido e que a demanda ainda supera a oferta. Nesse ambiente, um novo corte em setembro ganha força, mas as decisões posteriores dependerão do comportamento do câmbio, das cotações do petróleo e das expectativas de inflação.
No encerramento da sessão, o contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2027 ficou em 13,760%. As taxas chegaram a 13,975% para janeiro de 2028, 14,310% para janeiro de 2029, 14,570% para janeiro de 2031 e 14,700% para janeiro de 2033.
No mercado cambial, o dólar à vista caiu 0,36%, negociado a R$ 5,2012, e interrompeu uma série de cinco valorizações. A moeda norte-americana perdeu força apesar da saída expressiva de capital da B3.
A valorização do petróleo ofereceu algum suporte ao real, ao mesmo tempo que a atividade doméstica mais fraca sustentou as expectativas de redução da Selic. Ainda assim, as incertezas eleitorais e fiscais continuam pressionando a moeda brasileira.
No cenário internacional, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de divisas, permaneceu praticamente estável, aos 99,637 pontos. O iene seguiu enfraquecido, próximo de 159,45 unidades por dólar.
Entre as ações brasileiras, a Petrobras avançou com a alta do petróleo e as notícias sobre a descoberta de óleo na Margem Equatorial. Os papéis ordinários subiram 1,35%, para R$ 47,46, e os preferenciais ganharam 0,90%, cotados a R$ 42,47. A Vale registrou valorização discreta de 0,15%, mesmo com a retração de 0,70% do minério de ferro.
As instituições financeiras, por outro lado, foram afetadas pelas preocupações relacionadas à crise das Casas Bahia. As ações preferenciais do Itaú caíram 1,59%, enquanto as do Bradesco recuaram 1,93%. Banco do Brasil perdeu 2,34% e as units do Santander registraram baixa de 1,10%.
A Petrobras permanece entre os destaques corporativos após encontrar petróleo no poço Morpho, na Margem Equatorial. A estatal ainda precisará avaliar o tamanho do reservatório e demonstrar a viabilidade comercial da descoberta. A região é considerada estratégica para a reposição de reservas na próxima década, mas uma eventual produção levaria aproximadamente seis ou sete anos para começar.
A XP encerrou a temporada de resultados do setor financeiro com lucro líquido ajustado recorde de R$ 1,38 bilhão no segundo trimestre, crescimento de 5%. A receita aumentou 8%, para R$ 5,06 bilhões, e a captação líquida atingiu R$ 28 bilhões. Apesar do desempenho, as ações recuaram 0,98% nas negociações posteriores ao fechamento do mercado norte-americano.
As Casas Bahia seguem no centro das atenções após o pedido de recuperação judicial e o registro de prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões. Os papéis da varejista desabaram 33,33%, para R$ 0,44. A empresa busca contratar um financiamento DIP de aproximadamente R$ 1 bilhão, modalidade destinada a companhias em recuperação, enquanto as dívidas declaradas totalizam R$ 17,3 bilhões.
Em direção contrária, as ações do Magazine Luiza avançaram 8,18%, impulsionadas pela expectativa de que a companhia possa conquistar participação de mercado diante das dificuldades enfrentadas pela concorrente. No exterior, os investidores aguardam o balanço da Home Depot, enquanto a mineradora BHP informou lucro líquido anual de US$ 9,3 bilhões, expansão de 9%.
“O mercado brasileiro inicia a sessão diante de forças opostas. A desaceleração da atividade aumenta a expectativa de corte da Selic em setembro, mas o petróleo acima de US$ 90 recoloca pressão sobre a inflação e limita o espaço para uma flexibilização monetária mais longa. Ao mesmo tempo, eleição, fiscal e saída de capital estrangeiro mantêm elevado o prêmio de risco doméstico”, disse Mollo.
Para ele, a tendência de curto prazo permanece cautelosa e volátil, com o petróleo e o ambiente eleitoral como principais fatores de pressão. A ata do Fed amanhã poderá ajudar a definir o comportamento dos juros e do dólar globais, mas, no Brasil, o fluxo estrangeiro e a evolução do cenário eleitoral devem continuar determinantes para a direção dos ativos.




