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segunda-feira, agosto 24, 2026

Fundos multimercados começam a repensar o modelo “2 por 20”. Os resgates vão diminuir?

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Os fundos multimercados vivem quase que uma crise existencial, com intensa perda de recursos nos últimos anos. Em 2024, tiveram R$ 349,1 bilhões em resgates líquidos. No ano passado, sofreram resgates de R$ 58,9 bilhões. E, nos seis primeiros meses deste ano, as saídas já somam R$ 9,9 bilhões.

Mas uma mudança na forma de remuneração pode ser um divisor de águas para os fundos multimercados. A XP Asset concentrou sua estratégia no XP Strategy e trocou o tradicional ‘2 com 20’ – 2% de administração ao ano mais 20% sobre o que superar o CDI – pelo modelo ‘1 com 30’, que reduz o custo fixo e aumenta a participação da gestora nos ganhos.

Bruno Marques, sócio responsável pela área de multimercados da XP Asset há dez anos, explica que a mudança na cobrança foi consequência de uma revisão mais ampla do modelo de gestão. Mudanças macroeconômicas, em sua avaliação, tornaram mais curtas as tendências nos mercados e exigiram novas adaptações na gestão dos fundos, que passou a ficar mais de fora do mercado em períodos sem uma clara relação de risco-retorno favorável.

O veículo foi criado em julho de 2025, mas ganhou outra dimensão em maio deste ano, quando incorporou quatro fundos da antiga família da gestora: XP Macro, XP Macro Plus, XP Macro Plus Dominus e XP Macro Institucional. A família anterior carregava a estrutura que se tornou referência no mercado. Fundos da estratégia XP Macro cobravam 2% ao ano de administração e 20% de performance sobre o que ultrapassasse o CDI.

“Você não tem que estar presente o tempo todo no mercado. São essas mutilações que te tiram do jogo. Tem que ser mais incisivo e entender que as tendências são mais curtas. Então, mudar seu padrão de gestão”, diz Marques em entrevista ao NeoFeed.

Com o diagnóstico, a decisão foi consolidar os fundos no novo modelo. “Uma das conclusões desse processo é que se eu tiver uma administração de 2% e ficar sem ter posição durante muito tempo, isso é custoso para o gestor e para o cotista”, diz Marques. “Ficou muito mais alinhado com a forma como a gente quer fazer gestão daqui para frente: administração mais baixa e mais performance.”

De acordo com um gestor de uma casa independente, que pediu para não ser identificado, ninguém ainda havia mexido na taxa de administração e performance porque não era interessante para assets e gestores. “Por que eu vou ser o primeiro? E quando todo mundo foi indo para o buraco esse não, era um assunto”, diz essa fonte.

Apesar dessa pressão dos últimos anos sobre os multimercados, não houve uma revisão ampla das estruturas de cobrança. “Agora, com uma plataforma que tem força e uma grande rede de distribuição, todo mundo vai ficar de olho na captação para ver se teve efeito”, afirma o gestor.

Na esteira da XP, o NeoFeed apurou que a SPX também está revisando a cobrança do Raptor, um dos fundos mais conhecidos da casa, que deve passar de uma taxa de administração de 2% para 1,5% ao ano — patamar já praticado em outros fundos da gestora, além de já não pagar rebate aos distribuidores.

O Bradesco Sigma Multimercado, lançado em 2020, era um dos que já cobra 1% de taxa global e 30% sobre o que superar o CDI — a mesma combinação do XP Strategy.

Levantamento do NeoFeed com dados de lâminas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostra que o movimento vai além dos casos isolados.

Entre os fundos multimercados abertos ao público em geral, a taxa de administração média caiu de 1,45% em dezembro de 2022 para 1,00% em dezembro de 2024, e para 0,92% em julho deste ano, o dado mais recente disponível. Já a taxa de performance média subiu, no mesmo período, de 12,35% para 13,75% e depois para 13,88%.

A decisão da XP Asset deixa também a barra mais alta para todas as casas. Para conseguir o mesmo lucro que no tradicional 2 com 20, explica Marques, da XP, os fundos 1 por 30 terão que render pelo menos CDI + 4%. O que passar disso é mais receita para a gestora do que no modelo anterior. “É bom para o cotista e para a gestora. Sem dúvida, há um maior alinhamento de interesse”, afirma Marques.

Mas a questão vai além da escolha entre 2 com 20 ou 1 com 30. O problema é que a indústria brasileira transformou o 2 com 20 quase numa tabela para fundos com características diferentes.

Na avaliação de Luciana Seabra, fundadora da Indê Investimentos, casa de análise independente especializada em fundos de investimento e previdência, a discussão deveria considerar quanto risco cada fundo assume e qual tipo de retorno pretende entregar.

Uma estratégia de menor volatilidade, por exemplo, não deveria necessariamente ter o mesmo preço de um multimercado que assume posições maiores e exige uma estrutura de investimento mais complexa

“Às vezes, o gestor tem de deixar os fundos mais leves, menos posicionados. Mas, se para ele ganhar dinheiro de verdade, ele tem que assumir risco, muito risco, ele não vai ficar quieto. Eu, como analista de fundos, não gosto de criar um incentivo mais forte para ele sempre correr risco”, afirma Seabra.

Como exercício, a fundadora da Indê Investimentos faz uma escala em que fundos com volatilidade entre 3% e 5% poderiam cobrar algo próximo de 1% de administração e 10% de performance. Na faixa de 7% a 8%, a estrutura poderia avançar para 1,5% e 15%. O 2 com 20 ficaria reservado a estratégias de maior risco e maior potencial de retorno.

Para Ronaldo Guimarães, conselheiro da KAT Investimentos, assessoria financeira plugada na Safra Invest, a redução das taxas de administração deve se cristalizar como uma tendência entre os multimercados.

“Estamos vendo um movimento meio coordenado da indústria. Quando as grandes casas começam a fazer esse movimento, ele normalmente é seguido por quase todo mundo”, diz Guimarães.

Guimarães atribui parte da migração à performance abaixo do esperado da indústria como um todo, que, além de retorno médio considerado baixo, vinha se mostrando incapaz de se diferenciar em momentos de baixa.

“Era basicamente uma indústria de beta, que todos caminhavam na mesma direção”, afirma ele. “A indústria sempre prometeu entregar muito alfa e, no final das contas, não entregou.”

O exemplo de fora

O Brasil também começa a lidar com uma discussão que avançou antes no exterior. O “2 com 20” nasceu associado à indústria de hedge funds, mas há anos deixou de representar o preço médio desse mercado.

No primeiro trimestre de 2026, a taxa média de administração dos hedge funds acompanhados pela HFR (Hedge Fund Research), a principal autoridade global em indexação, pesquisa e análise do segmento, era de 1,32% ao ano, enquanto a taxa média de incentivo estava em 15,78%.

Entre os fundos lançados no período, a cobrança média era de 1,22% de administração e 17,4% de performance.

A comparação mostra uma diferença em relação ao movimento da XP. Enquanto a indústria internacional reduziu, ao longo dos anos, tanto a taxa fixa quanto a taxa sobre a performance, o XP Strategy diminuiu a primeira e elevou a segunda.

“O modelo 1 com 30 resgata um movimento global iniciado nos Estados Unidos no pós-crise de 2008. A premissa central é o verdadeiro skin in the game: a taxa de administração reduzida passa a cobrir apenas os custos operacionais e a estrutura básica da gestora”, afirma Rafael Panonko, economista e consultor financeiro.

“O verdadeiro ganho do gestor fica condicionado à sua capacidade de gerar valor real para o cotista”, complementa.

Um dos exemplos mais conhecidos dessa busca por outras formas de remuneração está na Millennium Management, gestora americana fundada por Israel “Izzy” Englander.

Em vez de se limitar à taxa de administração tradicional, a casa adotou o modelo conhecido como pass-through, no qual parte relevante dos custos da operação – salários e bônus dos gestores, tecnologia, dados e estrutura – é repassada diretamente aos investidores.

Como essas despesas variam, o custo também muda de um ano para outro e pode superar, com folga, o tradicional 2 com 20. A Millennium chegou posteriormente a acrescentar uma cobrança anual vinculada aos ativos ou aos ganhos do fundo, além do repasse das despesas.

Por outro lado, Fernando Donnay, sócio e gestor de portfólio da G5 Partners, avalia que aumentar o peso da taxa de performance pode reforçar o incentivo para que o gestor assuma mais risco.

“A remuneração é assimétrica: o gestor participa do resultado positivo, mas o prejuízo permanece integralmente com o investidor”, diz ele.

Donnay também pondera que os custos dos fundos, isoladamente, não devem ser um fator decisivo para a alocação, e sim o retorno líquido que se propõe. Um exemplo extremo, cita, é o caso do fundo Medallion, da famosa gestora de Jim Simons, Renaissance Technologies.

“Historicamente, foram reportadas taxas de aproximadamente 5% de administração e 44% de performance. Ainda assim, o fundo produziu um dos melhores históricos de retorno líquido de que se tem notícia. Isso ilustra que uma taxa alta não torna automaticamente um fundo ruim, assim como uma taxa baixa não transforma um fundo sem geração de alfa em um bom investimento”, afirma o sócio da G5.

Competição com ETFs

A discussão sobre taxa de administração e performance dos multimercados acontece também em um mercado em que alternativas de baixo custo ganharam espaço.

Os ETFs não substituem diretamente um multimercado, mas um fundo de índice pode oferecer exposição a um mercado ou estratégia por um custo reduzido. A proposta de um multimercado deve ser (ou deveria ser) pagar por decisões de alocação, gestão de risco e geração de alfa.

“O investidor passou a questionar o sentido de pagar 2% ao ano para não superar a taxa básica de juros. Com taxas de administração muito baixas, entre 0,1% e 0,3%, os ETFs expuseram uma fragilidade da gestão ativa”, diz Panonko.

Em 2025, o número de investidores pessoas físicas em ETFs aumentou 24%, para 721,7 mil, segundo a B3. O volume desses investidores em custódia avançou 49%, de R$ 18,1 bilhões para R$ 26,9 bilhões.

Ao mesmo tempo, mudanças regulatórias passaram a dar mais visibilidade ao custo da distribuição de investimentos. Novas resoluções da CVM ampliaram a obrigação de intermediários informarem aos clientes como são remunerados, com envio de extratos periódicos com os valores recebidos pela distribuição de produtos.

Até então, parte do custo embutido nos fundos chegava ao distribuidor por meio de rebates sem que o investidor tivesse a mesma visibilidade sobre essa remuneração.

Para um multimercado que entrega retornos consistentes acima do CDI e oferece diversificação à carteira, pagar mais pode fazer sentido.

Mas para uma estratégia que assume pouco risco e tem dificuldade para superar seu benchmark depois dos custos, a mesma estrutura passa a ser mais difícil de justificar.



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