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sexta-feira, julho 24, 2026

“Europa já está absorvendo as frutas taxadas pelos EUA”, diz presidente da Abrafrutas

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A família de Waldyr Promicia é produtora de limão Tahiti no interior paulista, e o empresário decidiu levar a operação para as imediações de Feira de Santana, na Bahia, onde fundou a Itacitrus, uma das líderes na produção de limão orgânico no Brasil, com faturamento de R$ 70 milhões.

Também ajudou a fundar a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), entidade sem fins lucrativos que representa e promove a fruticultura brasileira diante dos desafios do mercado internacional.

Atualmente, seu grande desafio à frente da associação é convencer o produtor brasileiro de que suas frutas não precisam ficar apenas no mercado doméstico: Europa, países árabes, Índia e China são alguns dos mercados interessados em recebê-las. De acordo com dados da associação, o cenário vem melhorando, já que as exportações brasileiras de frutas alcançaram US$ 1,45 bilhão em 2025, um novo recorde histórico pelo terceiro ano consecutivo, com crescimento de 12% em valor e 19,6% em volume na comparação com 2024. Apesar disso, Promicia lembra que as tarifas impostas por Trump, que nesta semana chegaram ao patamar de 25%, penalizaram fortemente o setor.

Confira a entrevista completa que ele concedeu ao BRAZIL ECONOMY.

Como o senhor analisa os aumentos recentes na exportação brasileira de frutas?
O que acontece é que o Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo, mas é o 23º exportador. Isso deixa claro que o fruticultor brasileiro ainda não tem a cultura da exportação. Só que é questão de tempo para isso mudar, porque o brasileiro tem visto a vantagem de exportar, o que, inclusive, melhora a produção interna. Temos uma fruticultura diversificada, que se adapta bem aos climas tropical, temperado, entre outros, o que aumenta a demanda externa. Por isso, estamos fazendo uma reestruturação no pensamento do nosso produtor. Dobramos as exportações nos últimos dez anos. Mas precisamos avançar. Para se ter uma ideia, Chile e Peru têm essa cultura de exportação há muito tempo e já estão em torno de US$ 10 bilhões em vendas para o exterior cada um deles, apesar de não terem as dimensões continentais do Brasil.

A grande discussão atual envolvendo o comércio internacional do Brasil é a imposição das tarifas pelos EUA. O setor de frutas vem sendo impactado?
As frutas estão sendo muito penalizadas por causa da imposição das tarifas pelos EUA. Lá já existiam algumas restrições, uma vez que nem todas as frutas brasileiras podem entrar no mercado deles. No caso do limão, por exemplo, só podemos comercializar o suco. A questão das tarifas só dificultou ainda mais nossa relação com esse parceiro. Felizmente, a Europa já está absorvendo as frutas taxadas pelos EUA.

O acordo entre União Europeia e Mercosul, fechado recentemente, ajudou os produtores de frutas de que maneira?
Colaborou bastante. As uvas, por exemplo, iam muito para os EUA, mas a aprovação do acordo com a União Europeia fez com que houvesse um deslocamento para lá, já que as tarifas para exportação dessa fruta foram zeradas, e isso tem ajudado bastante. O brasileiro tem sorte e resiliência. Existe um escalonamento para a queda completa das tarifas entre os dois blocos, que vai durar cerca de cinco a sete anos, mas todas começaram a ser reduzidas neste ano. Da mesma maneira que a tarifa da uva foi zerada, a do limão vai levar sete anos para alcançar um patamar parecido. O mais importante é que vínhamos esperando esse acordo há 20 e tantos anos e agora está acontecendo. Mas é importante lembrar que nossa exportação não é apenas para a União Europeia, e sim para a Europa como um todo: atendemos muito a Inglaterra, Rússia e Ucrânia, por exemplo.

Quais outros mercados promissores a Abrafrutas observa atualmente?
Temos o objetivo ainda de aumentar parcerias com países árabes, China e Índia. O grande problema no comércio com a Ásia é a distância, uma vez que a fruta é um produto com tempo de vida útil limitado. Se elas ficam muito tempo em um contêiner, podem perder qualidade. Por isso, temos o objetivo de investir em tecnologia para manter a vida útil das frutas nesse caminho. Algo que facilitaria muito para a gente seria se, finalmente, saísse do papel aquele projeto da rodovia interoceânica ligando o Nordeste brasileiro à costa do Oceano Pacífico. Chegaríamos à Índia e à China muito mais rápido.

Quais são as frutas que o senhor vê com maior potencial brasileiro neste momento?
São muitas. Mas a grande novidade é o mirtilo. Hoje estão vindo empresas de fora para produzir esse item no Brasil, e algumas companhias que produzem outras frutas estão investindo nessa possibilidade, já que reunimos as condições ideais e o mundo tem essa demanda por causa da tendência da sociedade na questão fitness, algo em que o mirtilo ajuda. É importante dizer ainda que o grande potencial exportador brasileiro, em termos geográficos, ainda é o Nordeste para quase todas as frutas, com destaque para uva, melão, melancia, manga, mamão e abacaxi. Já o Sul tem potencial com a maçã, que precisa de frio para se desenvolver adequadamente. Vejo também uma tendência do limão, que é muito plantado em São Paulo e que agora está indo para a Bahia.

O senhor é presidente da Itacitrus, empresa baiana especializada em limões orgânicos. Como vê a receptividade do brasileiro para essa modalidade de frutas sem defensivos agrícolas?
O que ocorre é que o brasileiro ainda não tem a cultura de pagar mais caro por uma fruta orgânica. Já a Europa tem. Então, ela tem feito essa demanda ao nosso produtor. Minha empresa tem 25 anos e hoje nosso faturamento é de R$ 70 milhões, sendo que grande parte é exportada. Algo que ajudaria seria um incentivo do poder público ao orgânico, algo que não ocorre. Esse incentivo é só para a agricultura familiar, que naturalmente ajuda a produzir frutas sem defensivos agrícolas, mas não é apenas por ser orgânico.

Isso se daria por alguma pressão da chamada bancada do agro no Congresso?
Não é bem assim. A bancada do AGRONEGÓCIO defende as decisões que importam para eles, mas vejo que o próprio agro nacional vem se transformando no sentido de reduzir o uso de defensivos agrícolas. Hoje vemos o uso de bactérias e fungos do bem para combater problemas, como pragas. Então, o produtor brasileiro vem investindo nessa categoria de agrobiológicos, já que são mais baratos do que os defensivos agrícolas.

Falando nisso, como é o diálogo da Abrafrutas com o poder público?
A gente tem um canal bom. Inclusive, muitos governadores viajam conosco para feiras no exterior. O mesmo vale para o governo federal, com o qual temos ótimo diálogo por meio do Ministério da Agricultura. O que eu vejo é que, apesar disso, falta mais efetividade nas ações práticas. A transposição do Rio São Francisco é importante para a fruticultura, mas ainda não está pronta. Precisamos ainda de investimentos logísticos em portos e rodovias. Hoje eu exporto basicamente pelos portos de Salvador e Fortaleza porque falta estrutura nos outros portos do Nordeste. Mas, no geral, posso dizer que nossa associação se politizou muito bem em termos de bons relacionamentos com o poder público.

O senhor acredita que o setor brasileiro de produção de frutas está avançado em termos de economia circular?
Isso é algo que depende de pesquisas. Hoje, todos os resíduos são utilizados para alguma coisa. O bagaço da laranja, por exemplo, é usado para ração, e com o de limão eu faço compostos que voltam para o campo. Mas ainda não há algo que encha os olhos em termos de produto. O que eu destaco é algo já conhecido e que temos feito bastante: o reúso da água para utilizá-la de maneira inteligente.

E em relação à inteligência artificial?
Por enquanto, usamos basicamente em coleta de dados e administração. É algo que está bem no começo, mas em que nosso setor vai investir bastante futuramente.






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