A escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel voltou a pressionar o mercado global de energia nesta quinta-feira (5). O preço do petróleo disparou nos mercados internacionais diante do temor de interrupções no fluxo marítimo no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas estratégicas do comércio global de energia. A nova rodada de alta da commodity reacende preocupações sobre inflação global e pode alterar expectativas de política monetária em economias emergentes, incluindo o Brasil.
Nos mercados futuros, o petróleo registrou forte volatilidade ao longo do dia. O Brent voltou a operar acima de US$ 80 por barril, acumulando altas expressivas desde o início da escalada militar no Golfo Pérsico. A disparada ocorre após ataques e retaliações militares que afetaram instalações energéticas e interromperam rotas marítimas estratégicas da região.
No Brasil, a Petrobras não fez qualquer mudança nos preços, mas postos de combustíveis do Distrito Federal anunciaram, na quinta-feira (5), o aumento no preço de combustíveis por causa da guerra no Oriente Médio. Segundo o Sindcombustíveis-DF, as distribuidoras entregaram o diesel com um aumento de R$ 0,20 por litro. Já o aumento da gasolina foi de R$ 0,03 por litro. No entanto, a Petrobras negou a informação.
O epicentro das preocupações é o Estreito de Ormuz, passagem por onde transita cerca de 20% do petróleo consumido globalmente. A redução do tráfego de petroleiros e os ataques a embarcações elevaram rapidamente o prêmio de risco geopolítico embutido no preço da commodity.
Segundo especialistas do setor de energia, o impacto potencial da interrupção logística pode ser significativo. Ajay Parmar, diretor de energia e refino da consultoria britânica ICIS, afirmou em análise que “o fator chave aqui é o fechamento do Estreito de Ormuz”, ressaltando que esse gargalo logístico pode ter efeitos imediatos sobre a oferta global de petróleo.
Diante do agravamento do cenário geopolítico, grandes instituições financeiras já começaram a revisar suas estimativas para o mercado de energia. O Goldman Sachs elevou sua projeção média para o Brent no segundo trimestre de 2026 para cerca de US$ 76 por barril, incorporando um prêmio adicional de risco associado às tensões no Golfo.
Em relatório divulgado ao mercado, o banco estima que a crise já adicionou um prêmio de risco relevante aos preços do petróleo. Analistas da instituição afirmam que a restrição prolongada do fluxo pelo Estreito de Ormuz pode gerar uma pressão adicional significativa sobre o mercado global de energia.
O Citi também revisou suas projeções de curto prazo. Em nota enviada a clientes, o banco afirma que o Brent pode permanecer entre US$ 80 e US$ 90 por barril nas próximas semanas enquanto o mercado avalia a evolução do conflito e seus efeitos sobre a oferta global.
Já a consultoria Wood Mackenzie alerta que, em um cenário de bloqueio prolongado da rota marítima, os preços podem ultrapassar rapidamente a MARCA de US$ 100 por barril. Em relatório recente, analistas da consultoria afirmaram que “a interrupção cria um choque duplo de oferta”, pois limita tanto os fluxos atuais quanto a capacidade da OPEP de utilizar sua capacidade ociosa para estabilizar o mercado.
O JPMorgan também destacou o risco logístico associado ao conflito. Segundo estimativas do banco, as exportações que normalmente passam pelo estreito já teriam caído de cerca de 16 milhões para aproximadamente 4 milhões de barris por dia com a redução do tráfego de petroleiros na região.
Pressão sobre inflação e mercados emergentes
O choque energético tende a se espalhar rapidamente por diversas cadeias produtivas globais. A alta do petróleo impacta diretamente combustíveis, transporte, fertilizantes e custos industriais, ampliando o potencial inflacionário.
Analistas internacionais alertam que o efeito pode ser particularmente sensível em economias emergentes. Um aumento do Brent de US$ 70 para US$ 85 por barril poderia adicionar cerca de 0,7 ponto percentual à inflação em mercados emergentes, segundo estimativas do Goldman Sachs.
Além disso, a guerra no Oriente Médio já começa a afetar outros mercados de commodities. O aumento dos custos de energia e fertilizantes tem pressionado cadeias agrícolas globais, justamente no período que antecede importantes ciclos de plantio em diversos países.
Economistas alertam que um choque prolongado no mercado de energia pode afetar não apenas a inflação, mas também o crescimento global. A elevação persistente dos preços do petróleo tende a reduzir o consumo, pressionar custos industriais e ampliar riscos macroeconômicos.
Possíveis impactos sobre o Brasil
No Brasil, os efeitos de um choque petrolífero costumam ocorrer com alguma defasagem, mas são amplificados por diferentes canais. A alta internacional influencia diretamente os preços de gasolina, diesel e querosene de aviação, além de afetar custos logísticos e cadeias produtivas dependentes de transporte.
Caso o Brent permaneça acima de US$ 80 ou avance para níveis próximos de US$ 90 ou US$ 100, especialistas avaliam que a pressão inflacionária pode aumentar ao longo do segundo trimestre. O impacto tende a se refletir inicialmente nos combustíveis e no transporte, com posterior disseminação para alimentos, fretes e insumos industriais.
Esse cenário começa a preocupar economistas que acompanham a política monetária brasileira. A perspectiva de inflação mais pressionada pode reduzir o espaço para cortes adicionais da taxa Selic ao longo de 2026, especialmente se a volatilidade cambial também se intensificar.
A experiência histórica mostra que choques no preço do petróleo costumam ter efeitos relevantes sobre a política monetária de economias emergentes. Caso o conflito no Golfo se prolongue e o petróleo permaneça em níveis elevados, o Brasil pode enfrentar um ambiente macroeconômico mais desafiador do que o projetado no início do ano.
Para investidores e formuladores de política econômica, a mensagem é clara. Mais do que um episódio isolado de volatilidade no mercado de energia, a crise no Estreito de Ormuz pode se transformar em um novo vetor de pressão inflacionária global com efeitos diretos sobre juros, crescimento e estabilidade financeira ao longo de 2026.




