Costumo dizer que resolver o problema do desperdício de água é uma das ações climáticas mais importantes e subestimadas que podemos tomar. Quando falamos em construir resiliência, muitas pessoas pensam imediatamente em energia solar, carros elétricos ou florestas. Mas existe uma frente silenciosa e estratégica acontecendo sob nossos pés: as redes de distribuição de água. É ali que uma parcela significativa dos recursos hídricos tratados e bombeados simplesmente se perde antes mesmo de chegar às casas.
Há uma frase do ex-presidente dos EUA, Barack Obama, que sempre me marcou: “Somos a primeira geração a sentir os efeitos da mudança climática e a última que pode fazer algo a respeito”. Decidi fazer algo. Foi com essa preocupação que cofundei a Stattus4, em 2015, em São Paulo, uma empresa de tecnologia que nasceu com um propósito muito claro: quanto maiores fôssemos, melhor poderíamos ser para o mundo. E, para nós, isso significa economizar água.
A escassez de água em cidades em crescimento está se tornando cada vez mais crítica. O que poucas pessoas percebem é que a água consome muita eletricidade. Ela precisa ser coletada na fonte, tratada, bombeada por quilômetros até reservatórios e distribuída sob pressão. Quando há vazamentos, não estamos apenas desperdiçando água, mas também toda a energia envolvida nesse processo. Portanto, reduzir essas perdas significa também reduzir as emissões e mitigar o aquecimento global.
Foi a partir dessa visão sistêmica que desenvolvemos um sistema inteligente de detecção de vazamentos, baseado em sensores de vibração e inteligência artificial na plataforma Stattus4. Nossa tecnologia monitora continuamente as redes de distribuição e identifica com precisão os pontos com sinais de vazamento. Com isso, o operador de geofone, profissional responsável por confirmar os vazamentos em campo, precisa visitar apenas de 3% a 4% dos pontos indicados. Otimizamos o trabalho desses profissionais, tornando o processo mais rápido e identificando o problema com maior agilidade.
Os desafios do saneamento básico ainda são imensos em todo o mundo. Em 2024, as taxas estimadas de acesso à água potável e ao saneamento básico eram de 58% e 47%, respectivamente, segundo dados da Organização Mundial da Saúde e do UNICEF. Além disso, o saneamento básico e a higiene precários, bem como a água contaminada, estão associados a aproximadamente 115 mortes por hora em toda a África, de acordo com o Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento da Água da UNESCO de 2026. Esses números deixam claro que a eficiência, o acesso e a qualidade da água não são apenas questões ambientais, mas também questões de dignidade humana e justiça climática.
Atualmente, operamos em cerca de 150 cidades brasileiras, principalmente na região Sudeste, mas com presença em todo o país. Nossa internacionalização já começou, com contratos em Portugal. Cada município enfrenta um desafio diferente, como hidrômetros subterrâneos, fraudes na medição, pressão excessiva na rede e tubulações antigas. Nosso sistema se adapta a essas realidades. No ano passado, a água economizada graças à nossa tecnologia teria sido suficiente para abastecer uma cidade de 300 mil habitantes, equivalente à população de Palmas.
Esse trabalho nos rendeu o Prêmio Zayed de Sustentabilidade, uma premiação pioneira dos Emirados Árabes Unidos para soluções inovadoras voltadas a desafios globais. Além do reconhecimento, o prêmio oferece uma plataforma para ampliar soluções, fortalecer parcerias e acompanhar os resultados ao longo do tempo, garantindo que a inovação se traduza em impactos tangíveis. Ser escolhido como um dos vencedores é uma validação de todo o esforço e trabalho que realizamos.
Para organizações que atuam na melhoria dos sistemas de água, no acesso à energia, na segurança alimentar ou na saúde pública, plataformas como o Prêmio Zayed de Sustentabilidade oferecem mais do que visibilidade. Elas proporcionam uma oportunidade de acelerar a implementação e alcançar novas comunidades. Como as inscrições para o ciclo de 2027 estão abertas, incentivo inovadores e profissionais com soluções comprovadas a considerarem a possibilidade de se candidatar e contribuir para um ecossistema mais amplo, focado em progresso prático e escalável.
Resolver o problema do desperdício de água é, em última análise, uma decisão sobre o tipo de futuro que escolhemos construir. Quando identificamos vazamentos, economizamos água, energia e recursos públicos, além de reduzir emissões. Fortalecemos a infraestrutura e preservamos vidas. Para mim, esta é uma das ações climáticas mais concretas, escaláveis e transformadoras que podemos tomar agora. E, se de fato somos a última geração capaz de agir, comecemos pelo que é invisível, mas essencial: contar cada gota.
*Marilia Lara é CEO e cofundadora da Stattus4, empresa de tecnologia que desenvolve um sistema para a detecção de vazamentos em redes de distribuição de água, com o objetivo de reduzir o desperdício




