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sexta-feira, julho 17, 2026

Brasil prepara “resposta dura” aos EUA e quer aplicar reciprocidade em até 10 dias

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O governo Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma resposta contundente aos Estados Unidos após a decisão da administração Donald Trump de impor uma tarifa adicional de 25% sobre uma série de produtos brasileiros. Segundo apuração do BRAZIL ECONOMY junto a fontes graduadas do governo federal, o presidente determinou ontem à noite que os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica sejam aplicados nos próximos dez dias.

A orientação é não permitir que o assunto perca força no debate público. No Palácio do Planalto, a reação rápida é considerada necessária para demonstrar que o País responderá a medidas comerciais vistas como unilaterais e ofensivas à soberania nacional, especialmente quando acompanhadas de questionamentos a políticas públicas brasileiras, como o Pix, e a setores estratégicos, como o mercado de etanol.

A estratégia também leva em conta o calendário político. Segundo interlocutores ouvidos pela reportagem, Lula avalia que o embate comercial pode reforçar o discurso de defesa dos interesses nacionais às vésperas do início da corrida eleitoral e ampliar o desgaste do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O parlamentar é apontado como o principal articulador político do novo tarifaço junto à administração americana. A intenção do Planalto é associar a atuação do senador aos prejuízos provocados pela medida sobre empresas, exportadores e trabalhadores brasileiros.

A sobretaxa foi confirmada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, após investigação baseada na Seção 301 da legislação comercial americana. Washington alegou a existência de práticas consideradas desleais pelo governo Trump em áreas como pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

As novas alíquotas entram em vigor no dia 22 deste mês. O governo brasileiro rejeita as acusações e afirma que elas não encontram respaldo em dados econômicos, comerciais ou ambientais.

Em manifestação pública, Lula afirmou que o governo utilizará os instrumentos disponíveis para proteger os interesses do País. “O governo brasileiro não vacilará em seu dever de preservar nossa soberania”, declarou o presidente. A resposta, segundo o Planalto, deverá combinar medidas comerciais, ações diplomáticas e apoio aos setores produtivos afetados.

Plano de socorro

Além da retaliação comercial, o Executivo prepara um novo programa de auxílio às empresas atingidas pela decisão americana. Segundo informações da Agência Brasil, o governo federal anunciou que retomará o plano de apoio aos segmentos prejudicados pelo tarifaço, com linhas de crédito para capital de giro e investimentos, além de medidas para facilitar o escoamento das mercadorias para outros clientes e mercados internacionais.

Os setores mais afetados nessa nova rodada são os de madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar. De acordo com estimativas da Secretaria de Comércio Exterior, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, cerca de 2,4 mil empresas brasileiras serão diretamente atingidas.

Essas companhias respondem por aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, considerando uma movimentação de US$ 7,4 bilhões com base nos dados de 2024. Em 2025, o volume exportado por esses setores ao mercado americano já havia caído para US$ 5,5 bilhões.

Mais da metade da pauta exportadora brasileira foi poupada da nova tributação. Produtos como carnes, café, óleos e itens da indústria aeronáutica ficaram fora da lista alcançada pela tarifa adicional de 25%.

Mesmo assim, o governo considera relevante o impacto sobre as empresas atingidas. A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras, que estava em 12,1% até 2025, recuou para 9,4% em 2026. Diante desse cenário, o Executivo pretende acelerar a diversificação dos destinos comerciais dos produtos afetados.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o atendimento aos setores prejudicados passou a ser prioridade. “O governo, a partir de agora, tem como prioridade atender e apoiar esses setores por essa injusta, indevida e ilegal tarifação que nos foi imposta”, declarou.

Os valores e as condições das linhas de financiamento ainda serão definidos. A expectativa, porém, é que o pacote tenha dimensão inferior à do programa adotado na rodada anterior do tarifaço, uma vez que a lista atual de exceções é mais ampla.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que as medidas não devem comprometer a estabilidade macroeconômica. Ele também classificou a decisão americana como uma interferência externa indevida sobre o Brasil.

“É inadmissível, do ponto de vista do governo, ter essa interferência externa, seja ela política, econômica, seja ela uma forma qualquer para afugentar e constranger o Brasil, as famílias brasileiras, os empresários e os trabalhadores brasileiros”, disse Durigan, em entrevista coletiva na tarde de ontem.

Lei da Reciprocidade

A Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso em 2025, permite ao Brasil suspender concessões comerciais, investimentos e direitos de propriedade intelectual em resposta a ações unilaterais adotadas por outros países que prejudiquem a competitividade brasileira.

Publicamente, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o governo estudará a forma adequada de utilizar o mecanismo. “Nós temos uma lei, a lei da reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional, e o governo, no momento adequado, saberá como implementá-la”, disse Alckmin, que classificou o tarifaço como “injusto” e “descabido”.

Embora Lula queira uma definição em até dez dias, as medidas ainda precisarão ser analisadas pela Câmara de Comércio Exterior, a Camex, que deverá avaliar os produtos e setores americanos que poderiam ser alcançados pela reciprocidade. O governo também pretende recorrer aos mecanismos de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

A construção da resposta deverá considerar o impacto sobre consumidores e cadeias produtivas brasileiras. A orientação é evitar que uma retaliação provoque escassez de insumos, pressione a inflação ou prejudique empresas nacionais dependentes de produtos americanos.

Pix no centro da disputa

Um dos principais pontos levantados pelos Estados Unidos é o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central. O governo americano sustenta que o modelo brasileiro teria prejudicado empresas privadas de meios de pagamento.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, rejeitou esse argumento. Segundo ele, o mercado brasileiro de cartões de crédito cresceu 150% após a implantação do Pix, o que afastaria a hipótese de prejuízo às empresas americanas do setor.

“Seria mais ou menos como tentar dizer que, ao criar o saneamento básico, prejudicou a receita de quem tem caminhão-pipa”, afirmou Galípolo. Segundo o presidente do BC, o avanço do Pix reduziu principalmente a utilização de cheques e dinheiro em espécie.

O governo também rejeita as acusações relacionadas ao desmatamento e ao comércio ilegal de madeira. O Ministério do Meio Ambiente sustenta que houve redução de 50% no desmatamento da Amazônia nos últimos três anos, dado que, na avaliação da pasta, contradiz os fundamentos apresentados pelo USTR.

No núcleo político do governo, a avaliação é que a disputa ultrapassou o campo comercial e deverá ocupar espaço relevante na eleição presidencial. A intenção é apresentar Lula como defensor da soberania e da economia brasileira diante das pressões externas.

Ao mesmo tempo, o Planalto deverá responsabilizar Flávio Bolsonaro pela escalada da crise. Na visão de integrantes do governo, a participação do senador nas articulações com aliados de Trump permite vinculá-lo diretamente às consequências econômicas da medida.

A estratégia, segundo as fontes ouvidas pelo BRAZIL ECONOMY, será mostrar que o tarifaço não atinge apenas o governo, mas empresas, exportadores, trabalhadores e municípios dependentes das atividades afetadas.

Apesar do endurecimento do discurso, o governo pretende preservar os canais diplomáticos com Washington. A expectativa é manter abertas as negociações, mas sem transmitir sinal de recuo nas discussões sobre o Pix, o etanol ou outras políticas consideradas estratégicas para o país.

A combinação entre aplicação da Lei da Reciprocidade, recurso à OMC, abertura de crédito e diversificação dos destinos das exportações deverá formar a base da reação brasileira. Para o Planalto, a resposta precisa ter impacto econômico, diplomático e político suficiente para deixar claro que o Brasil não aceitará pressões externas sobre suas decisões internas.






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