Este mês completa um ano desde que uma canetada do presidente Donald Trump estremeceu a economia brasileira ao impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. De lá para cá, a relação entre o norte-americano e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi marcada por avanços e recuos, mas esta semana terminou com a notícia de que o governo dos EUA impôs uma nova tarifa de 25% ao Brasil, medida que pode impactar cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao País.
O ex-governador de São Paulo João Doria, cofundador e copresidente do grupo empresarial LIDE, afirmou em entrevista exclusiva ao BRAZIL ECONOMY que faltou empenho do governo brasileiro em atrair o setor produtivo para as negociações, afirmando que o diálogo conduzido pelo vice-presidente Geraldo Alckmin fracassou ao não resultar em ações concretas para reverter as tarifas.
Doria também garantiu que não pretende voltar à política. Confira.
Como o senhor avalia a tentativa de negociação do Brasil com os EUA para tentar contornar o novo tarifaço desta semana?
Fracassou. O problema é que a relação sempre esteve fundamentada na questão política, e não na técnica, e esse é o grande erro dos dois lados. Não houve evolução. A redução de 50% das tarifas impostas em julho do ano passado foi um paliativo, mas não houve solidez do ponto de vista diplomático e técnico. Ambos os países deveriam rever suas posições para encontrar uma solução. Por isso digo que o governo brasileiro não tem feito um bom trabalho, e dificilmente a questão das tarifas evoluirá positivamente enquanto não for tratada de forma técnica. Afinal, quem produz e exporta é a iniciativa privada, e não o setor público.
Mas isso se deve à dificuldade do governo em dialogar com os empresários?
A tentativa de diálogo existiu por iniciativa do atual vice-presidente Geraldo Alckmin. Ele vem se reunindo com várias lideranças empresariais, mas tem faltado efetividade ao conjunto de reuniões que poderiam ser conduzidas em prol do Brasil. No fim, o diálogo de Alckmin com o empresariado fracassou, por enquanto, e não se transformou em ações produtivas.
O que o senhor teria feito de diferente para negociar pelo lado do Brasil?
Com certeza. Em primeiro lugar, eu teria calma, tolerância e um sentimento agregador, e não de conflito. Longe de qualquer ideologia. Seguramente, se estivesse na condição do presidente Lula, eu me cercaria de representantes do setor produtivo brasileiro que buscassem o apoio de seus pares americanos. Afinal, é preciso deixar claro que o setor produtivo dos EUA também erra ao não se envolver diretamente nessa questão, o que penaliza a população de lá, que está pagando mais caro por produtos como café e laranja, por exemplo. Além disso, eles também são prejudicados, já que produtos brasileiros, como a proteína animal, ajudam na segurança alimentar dos americanos. Somando forças e evitando sobretaxas, todos ganhariam. É muito melhor agir dessa forma.
O senhor sempre foi um crítico dos argumentos utilizados por Trump para impor as tarifas. Acha que, de um ano para cá, surgiu algum pretexto viável para que ele as mantenha?
De maneira alguma. Ele continua sem razão para impor tarifas. Afinal, a balança comercial é amplamente favorável aos EUA, e não há o que corrigir. Por isso, vejo que continua sendo uma decisão totalmente política. Até agora, Lula e Alckmin fracassaram porque tratam um embate econômico como se fosse político.
Quais setores o senhor considera os mais impactados ao longo desse último ano?
Os impactos negativos atingem toda a economia, mas os setores mais prejudicados são o AGRONEGÓCIO e a indústria aeronáutica. O primeiro caso ocorre porque se trata da área com maior volume de produção, impulsionada pela diversidade e pela qualidade da produção agrícola brasileira. Já a Embraer vem acumulando grandes prejuízos, uma vez que exporta significativamente para os EUA.
Quando as tarifas foram impostas há um ano, alguns governadores tentaram se colocar como protagonistas para revertê-las, a exemplo do governador Tarcísio de Freitas. O senhor acha que faltou empenho dos 27 governadores?
Vejo que não. Essa é uma função do governo federal, e não dos governadores. Claro que eles podem ajudar por meio de reuniões, mas a responsabilidade final é do presidente Lula, e isso não vem sendo feito.
O empresariado brasileiro deve se unir para apoiar algum candidato específico neste ano visando à queda das tarifas?
Na situação atual, não vejo que isso altere o posicionamento do empresariado. Não importa se haverá renovação do mandato ou se assumirá alguém da direita ou da extrema direita. Esse não é o tema central, mesmo quando falamos da relação com um governo que valoriza a ideologia da direita, como o de Donald Trump. Vejo que o governo atual ainda tem seis meses pela frente e deve retomar o entendimento para restabelecer o bom andamento das relações bilaterais entre Brasil e EUA.
Em julho do ano passado, ficou claro o envolvimento do ex-deputado Eduardo Bolsonaro na imposição da tarifa de 50% contra o Brasil. Atualmente, como o senhor vê a atuação do pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro nesse processo?
Entendo que isso deve ser afastado da pauta eleitoral. O senador Flávio Bolsonaro falar sobre tarifas só traz malefícios para a própria campanha, pois cria um clima de radicalização que não é positivo para o Brasil.
O senhor já decidiu em quem vai votar para presidente neste ano?
Ainda não tomei minha decisão. Vou aguardar mais alguns meses para decidir.
E pretende divulgar essa decisão?
Não sei se tornarei meu voto público neste ano.
Existe alguma possibilidade de o senhor voltar para a política?
Minha decisão continua sendo a mesma, a de manter minha carreira na iniciativa privada, como defini em 2022. Sem mágoas ou ressentimentos em relação à política ou aos políticos, mas encerrei meu ciclo nessa área e, modéstia à parte, com êxito. Sem processos ou qualquer outro fator que pudesse criminalizar minhas gestões. Até mesmo aqueles que fizeram oposição a mim reconhecem isso.




