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terça-feira, agosto 18, 2026

Anvisa libera novas canetas de semaglutida e amplia concorrência no mercado

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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou dois novos medicamentos injetáveis produzidos com semaglutida sintética. As autorizações, publicadas no Diário Oficial da União nesta segunda-feira (17), aumentam a concorrência em uma das categorias mais disputadas pela indústria farmacêutica e pelas grandes redes de drogarias.

Um dos registros foi concedido à EMS para a primeira versão genérica de semaglutida sintética do país. O produto terá como referência o Ozivy, medicamento da própria farmacêutica aprovado pela agência em maio. Por ser genérico, será comercializado sem nome de MARCA.

A outra autorização contempla o Semaclique, desenvolvido pela Germed, laboratório pertencente ao mesmo grupo da EMS. Enquadrado como medicamento similar, ele pode adotar MARCA, embalagem e rotulagem próprias, embora tenha o mesmo princípio ativo e deva comprovar equivalência em relação ao produto de referência.

As aprovações ocorrem após o encerramento, em março de 2026, da proteção patentária da semaglutida no Brasil. A mudança abriu espaço para o avanço de fabricantes nacionais e estrangeiros sobre um segmento que, durante anos, esteve concentrado nos produtos da dinamarquesa Novo Nordisk.

Apesar de a semaglutida ter ficado conhecida popularmente como componente das chamadas canetas emagrecedoras, os dois novos medicamentos foram registrados para o tratamento de adultos com diabetes mellitus tipo 2 insuficientemente controlado. Isso significa que a autorização não deve ser interpretada automaticamente como indicação apenas para obesidade.

No Brasil, Ozempic é registrado para diabetes tipo 2, enquanto Wegovy, que contém o mesmo princípio ativo em dosagens e esquema terapêutico específicos, possui indicação para controle crônico do peso. O uso de um medicamento fora das condições estabelecidas em bula depende de avaliação e responsabilidade médica.

A chegada de versões concorrentes tende a pressionar os valores cobrados nas farmácias, um dos principais obstáculos à ampliação do tratamento. O preço definitivo do novo genérico ainda depende da análise da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), e a data de lançamento não foi informada.

Pelas regras aplicáveis à categoria, o preço máximo de entrada de um genérico deve ficar ao menos 35% abaixo do valor do medicamento de referência. Estimativas preliminares mencionadas pelo mercado apontam que a nova semaglutida poderá custar entre R$ 293 e R$ 323, mas esses valores ainda dependem da definição regulatória. Portanto, não representam um preço confirmado para as farmácias.

A expectativa de queda nos valores acompanha a entrada de outros fabricantes na disputa. Além da EMS, empresas como Hypera Pharma, Sun Pharma e Ranbaxy receberam autorizações para medicamentos com semaglutida sintética em 2026. Em julho, a Anvisa anunciou o registro de cinco novas canetas comparadas ao Ozempic para o tratamento do diabetes tipo 2.

A maior oferta pode ampliar o acesso, mas especialistas avaliam que o custo ainda permanecerá elevado para uma parcela expressiva da população. Presidente da Federação Mundial de Obesidade e endocrinologista, Bruno Halpern defende uma negociação mais ampla para tornar os tratamentos acessíveis. “Isso inclui discutir com as indústrias farmacêuticas formas de o custo ser reduzido”, afirmou.

Segundo Halpern, a oferta de medicamentos não pode ser uma iniciativa isolada. O tratamento exige profissionais capacitados para definir a indicação, ajustar as doses, acompanhar os resultados e identificar eventuais efeitos adversos. A obesidade é uma doença crônica e complexa, o que torna inadequado o uso das canetas apenas com finalidade estética ou sem avaliação clínica.

Mercado bilionário

A corrida dos laboratórios é explicada pelo crescimento acelerado da procura por medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, à qual pertence a semaglutida. Esses fármacos simulam a ação de um hormônio produzido pelo organismo que participa do controle da glicose, retarda o esvaziamento do estômago e aumenta a sensação de saciedade.

Dados da IQVIA citados em relatório do UBS BB mostram que o mercado formal brasileiro de medicamentos dessa categoria movimentou R$ 6,5 bilhões nos cinco primeiros meses de 2026. A projeção do banco indica faturamento de aproximadamente R$ 17,5 bilhões no ano, em preços de varejo. Outra estimativa da instituição aponta que as vendas de canetas poderiam se aproximar de R$ 20 bilhões, ante cerca de R$ 11 bilhões em 2025. As projeções variam conforme preços, entrada de concorrentes e ritmo de expansão do consumo.

O impacto já aparece nos resultados das redes de farmácias. Na Pague Menos, as vendas mensais de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro alcançaram R$ 134 milhões e passaram a representar aproximadamente 10% da receita da companhia. Segundo o presidente da rede, Jonas Marques, para cada R$ 1 gasto nesses produtos, os consumidores compram, em média, outros R$ 8,14 em itens de categorias complementares.

O crescimento também exige investimentos das varejistas. As canetas precisam ser conservadas em ambiente refrigerado, têm preço elevado e demandam maior controle de estoque e segurança. Antes e depois de iniciado o tratamento, os novos medicamentos de semaglutida devem ser armazenados em geladeira, em temperaturas de 2 °C a 8 °C.

No mercado internacional, a expansão é igualmente expressiva. A IQVIA calcula que os medicamentos contra a obesidade movimentaram US$ 66 bilhões em vendas a preços de lista em 2025. Para 2026, a consultoria projeta avanço para US$ 92 bilhões. Nos anos seguintes, o faturamento anual poderá superar US$ 100 bilhões, dependendo da redução de preços, da cobertura dos sistemas de saúde e da chegada de novas opções injetáveis e orais.

A disputa é liderada por Novo Nordisk e Eli Lilly. A primeira comercializa Ozempic e Wegovy, à base de semaglutida. A segunda produz Mounjaro e Zepbound, que utilizam tirzepatida e atuam em mais de uma via hormonal. O sucesso comercial desses medicamentos levou dezenas de laboratórios a desenvolver novas moléculas, combinações e formas de administração.

Uso controlado

A expansão do consumo aumentou a preocupação das autoridades sanitárias com automedicação, falsificações, contrabando e utilização fora das indicações aprovadas. Desde junho de 2025, a venda de agonistas de GLP-1 exige retenção de uma das duas vias da receita médica nas farmácias.

“Como todos os medicamentos do tipo GLP-1, a semaglutida sintética está sujeita à prescrição de receita médica em duas vias”, reforçou a Anvisa, ao anunciar os novos registros.

Em fevereiro de 2026, a agência também emitiu alerta sobre risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido desse grupo de medicamentos. Entre as reações adversas mais frequentes estão náuseas, vômitos, diarreia, constipação e desconforto abdominal. A avaliação médica é necessária ainda para identificar contraindicações e acompanhar a perda de peso, inclusive diante do risco de redução de massa muscular.

As novas canetas serão administradas uma vez por semana e deverão ser utilizadas como complemento à dieta e à prática de exercícios físicos. As apresentações aprovadas têm concentração de 1,34 miligrama por mililitro, em sistemas preenchidos, multidose e descartáveis. As embalagens poderão conter uma ou duas canetas, com volumes de 1,5 ou 3 mililitros, além de quatro a dez agulhas.

A aprovação representa mais uma etapa da abertura do mercado de semaglutida no País, mas não autoriza o consumo indiscriminado nem transforma todas as versões da substância em tratamentos oficialmente indicados para emagrecimento. A orientação clínica, a finalidade registrada na bula e o acompanhamento contínuo permanecem essenciais para a segurança dos pacientes.






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