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sábado, setembro 5, 2026

Amazônia: que país é este que explora suas riquezas, mas ignora sua população?

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No Brasil que corre para disputar o mercado das terras raras, dos minerais estratégicos e da inteligência artificial, uma pergunta deveria anteceder qualquer anúncio de investimento na Amazônia: desenvolvimento para quem, sob quais condições e a que custo?

A pergunta não é retórica. A Amazônia Legal abriga cerca de 26,7 milhões de pessoas, ocupa 59% do território brasileiro e tem aproximadamente 76% de sua população vivendo em áreas urbanas, segundo dados do IBGE de 2026.

Ainda assim, permanece marcada por déficits históricos de infraestrutura, saneamento e serviços públicos. Entre os domicílios de pessoas inscritas no CadÚnico, apenas 19,3% tinham acesso à rede coletora de esgoto em 2022, ante 60,2% no Brasil. O Amazonas, por exemplo, ocupa a 27ª posição no ranking nacional quando o tema é infraestrutura.

É nesse contraste que se revela o problema central: a Amazônia é frequentemente tratada como fronteira de oportunidades, mas raramente como território de direitos. Seus rios, florestas, minerais e conhecimentos são apresentados como ativos estratégicos. Suas populações, entretanto, continuam sendo pouco ouvidas nas decisões que definem o futuro da região.

Não existe uma única Amazônia. Existem diferentes Amazônias econômicas, sociais e culturais, como bem nos lembra a economista e doutora amazônida Michele Aracaty.

Há cidades industriais, comunidades ribeirinhas, territórios indígenas, áreas de agricultura familiar, regiões de extrativismo, populações quilombolas e uma presença negra que também estrutura a história e a economia regional. A ideia de uma floresta vazia, disponível para ser ocupada por projetos externos, não corresponde à realidade. Trata-se de um território habitado, produzido e cuidado por diferentes povos há milhares de anos.

Pesquisas arqueológicas recentes reforçam essa compreensão. Um estudo publicado na revista Nature em 2026 estimou que a região do povo Aquiry, entre o Acre e o Amazonas, poderia ter abrigado entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas entre os anos 100 e 300 d.C. A floresta, portanto, não é sinônimo de ausência humana. Tampouco é um espaço intocado pela história.

O olhar estranho sobre a Amazônia nasce justamente quando se tenta compreendê-la apenas a partir de interesses externos. Durante séculos, a região foi vista como obstáculo, reserva de recursos ou promessa de riqueza futura, como afirma a historiadora amazônida Betsy Bell Moraes. O desenvolvimento foi pensado de fora para dentro, enquanto os amazônidas foram frequentemente reduzidos a beneficiários passivos, quando não tratados como entraves à modernização.

Isso não significa ser contra o desenvolvimento. Significa defender outro modelo: sustentável, territorialmente responsável e capaz de gerar valor sem transformar a população local em custo colateral.

A própria Zona Franca de Manaus demonstra que a Amazônia não precisa ser condenada à economia extrativa. Apesar de suas limitações e dos debates sobre seus incentivos, o modelo mostrou que é possível criar uma base industrial, gerar empregos e inserir a região em cadeias produtivas mais complexas. O desafio não é escolher entre floresta e economia, mas construir uma economia que reconheça o valor da floresta e das pessoas que vivem nela.

Essa discussão se torna ainda mais urgente diante da corrida pelos minerais estratégicos. Terras raras são fundamentais para veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, inteligência artificial, robótica e equipamentos de defesa. O Brasil possui reservas relevantes e busca ampliar sua participação nesse mercado.

Mas há uma diferença decisiva entre produzir riqueza e apenas exportar concentrados enquanto se importam tecnologia, equipamentos e produtos de maior valor agregado.

Também há uma diferença entre mineração de menor impacto e mineração sem impacto — esta última não existe. A exploração de minerais pode provocar desmatamento, fragmentação de habitats, erosão, pressão sobre a água, contaminação do solo, geração de rejeitos e conflitos territoriais. Estudos recentes indicam que a expansão atual e potencial da mineração de minerais da transição energética pode ameaçar centenas de milhares de quilômetros quadrados de áreas protegidas na Amazônia brasileira e afetar comunidades tradicionais.

O mesmo raciocínio vale para a expansão dos data centers. A inteligência artificial exige infraestrutura física, energia e água. Um data center convencional pode consumir entre 10 e 25 megawatts. Instalações voltadas à inteligência artificial podem superar 100 megawatts. No Brasil, o consumo do setor chegou a 8,2 terawatts-hora em 2024, e as projeções indicam crescimento expressivo nos próximos anos.

A questão não é rejeitar a tecnologia. É perguntar se a expansão será acompanhada de planejamento energético, segurança hídrica, transparência, contrapartidas e participação social. Em uma região que ainda enfrenta energia cara e instável, ausência de saneamento e períodos severos de seca, não parece razoável discutir grandes empreendimentos como se água e eletricidade fossem recursos infinitos.

A Amazônia precisa participar das novas cadeias econômicas, mas não pode continuar oferecendo território, recursos naturais e população para receber, em troca, os menores benefícios da cadeia produtiva.

O desenvolvimento sustentável exige industrialização, inovação, ciência, formação profissional, bioeconomia, agregação de valor e governança. Exige também que os impactos sejam conhecidos antes das decisões, que os benefícios sejam distribuídos e que as comunidades tenham poder real de participação.

A floresta amazônica não é um almoxarifado nacional. É um sistema climático, econômico e social indispensável ao Brasil e à América do Sul. Sua biodiversidade, seus rios e seus conhecimentos não são obstáculos ao progresso. São parte da infraestrutura que torna o futuro possível.

A pergunta, portanto, não é se a Amazônia deve se desenvolver. É se o Brasil está disposto a construir um modelo no qual desenvolvimento não seja apenas aquilo que chega à região, mas aquilo que permanece nela — em renda, conhecimento, qualidade de vida, autonomia e futuro.

É essa reflexão que o Dia da Amazônia deveria nos convocar a fazer.

*Lorë Kotinski é doutora em ESG

 

 






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