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quinta-feira, julho 30, 2026

Além do PIB: ONU propõe criação de 31 indicadores que podem mudar acesso a crédito barato

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A ONU começou a construir uma nova régua para medir o desenvolvimento dos países. E o resultado pode alterar a distribuição do dinheiro mais barato da economia global.

O processo é derivado de uma resolução adotada na Assembleia Geral da ONU de 2024 e da formação da Aliança Global contra a Desigualdade, lançada na Conferência de Sustentabilidade de Hamburgo em 2025.

A novidade está na passagem da discussão técnica para a negociação política.

Em meados de julho, durante a conferência do Grupo de Especialistas de Alto Nível da ONU (HLEG), realizada em Nova York, foi apresentado um relatório estruturado em 31 indicadores que complementam o Produto Interno Bruto. Agora, os Estados-membros começam a discutir como essa proposta será transformada em uma metodologia aplicável aos países e às instituições financeiras internacionais.

“Estamos passando da retórica à ação, abordando o reconhecimento de longa data de que o PIB é importante, mas não é suficiente”, disse Carolyn Rodrigues-Birkett, embaixadora da Guiana e cofacilitadora do processo intergovernamental.

O PIB não será abandonado. A intenção é reduzir a dependência de uma métrica que mede produção e renda, mas não captura adequadamente desigualdades, destruição ambiental ou a capacidade de uma economia resistir a choques.

“Não esqueçamos que, quando destruímos uma floresta, estamos criando PIB. Quando pescamos em excesso, estamos criando PIB”, afirmou António Guterres, secretário-geral da ONU, durante o painel Beyond GDP: Moving from Analysis to Impact, realizado em 13 de julho.

O principal impacto econômico deverá aparecer se os 31 indicadores forem incorporados às decisões das instituições financeiras internacionais.

O HLEG recomenda que as novas métricas sejam consideradas no acesso a financiamento concessional, que oferece juros menores, prazos mais longos e condições mais favoráveis, e na distribuição de recursos da cooperação para o desenvolvimento.

Hoje, critérios baseados principalmente na renda podem ocultar vulnerabilidades importantes. Um país pode ultrapassar determinada faixa de PIB per capita e, ainda assim, enfrentar elevada exposição a eventos climáticos, baixa capacidade institucional, desigualdades regionais ou restrições estruturais que dificultam seu desenvolvimento.

Esse é um problema especialmente relevante para países de renda média, pequenos Estados insulares, economias africanas e Países Menos Desenvolvidos. Na prática, essas nações podem parecer menos vulneráveis nas planilhas financeiras do que são na realidade.

“A mudança para métricas além do PIB é uma necessidade para refletir com precisão as complexas realidades de desenvolvimento que os países em desenvolvimento enfrentam”, afirmou o representante do Uruguai, em nome do Grupo dos 77 e China, bloco que reúne as principais economias emergentes, incluindo o Brasil, além do gigante asiático.

O Grupo Africano também defendeu uma avaliação mais ampla. Segundo o representante das Ilhas Maurício, indicadores baseados apenas na renda não capturam adequadamente as restrições estruturais e as vulnerabilidades enfrentadas por muitos países africanos.

Para Timor-Leste, a iniciativa é uma questão de “justiça de desenvolvimento”. O argumento é que o avanço da renda não deveria retirar automaticamente o acesso a recursos concessionais quando outros indicadores mostram que a economia continua exposta a riscos capazes de comprometer seu progresso.

Se incorporada pelas instituições financeiras, a nova metodologia poderá ampliar o conjunto de informações usado para definir quem recebe recursos, quanto recebe e em quais condições. Também poderá influenciar a priorização de investimentos em adaptação climática, saúde, educação e fortalecimento institucional.

O relatório, porém, não estabelece uma nova fórmula de elegibilidade. Essa será uma das disputas do processo iniciado pela ONU. Os países terão de negociar quais indicadores serão adotados, qual será o peso de cada um e como eles poderão ser usados por governos e financiadores.

A proposta do HLEG organiza os indicadores em quatro dimensões.

A primeira trata do bem-estar atual, com condições materiais, saúde, educação, trabalho, segurança e qualidade ambiental. A segunda mede equidade e inclusão, considerando pobreza, desigualdade de renda, disparidades regionais e desequilíbrios de gênero.

Já a terceira dimensão avalia sustentabilidade e resiliência. O objetivo é medir a capacidade dos países de preservar e ampliar seus capitais natural, humano, social e institucional para sustentar a prosperidade futura.

Por fim, a quarta incorpora princípios como paz, direitos humanos e respeito aos limites planetários.

Cerca de metade dos indicadores propostos já faz parte do quadro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A escolha busca aproveitar dados existentes, evitar a duplicação de esforços e reduzir a carga sobre os sistemas estatísticos nacionais.

Além do painel, o grupo recomenda que seja desenvolvido futuramente um indicador multidimensional único, capaz de acompanhar o PIB e sintetizar diferentes aspectos do progresso social.

A recomendação é que os governos integrem os indicadores às políticas nacionais e aos processos orçamentários até 2027. Antes disso, o processo intergovernamental terá de converter a proposta técnica em critérios aceitos pelos Estados-membros.

Para os países em desenvolvimento, o teste será financeiro. Ir além do PIB só representará uma mudança concreta se a nova forma de medir progresso também modificar o acesso ao capital necessário para financiá-lo.






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