Próxima fronteira da agenda climática talvez não esteja nas florestas nem nos carros elétricos, mas na forma como o carbono entra no balanço das companhias
Cristina Canas
A próxima fronteira da agenda climática talvez não esteja nas florestas nem nos carros elétricos. Está na forma como o carbono entra no balanço das empresas. Essa é a aposta de Ricardo Mussa, ex-CEO da Raízen, convidado pelo presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, para representar o setor privado na conferência realizada no ano passado em Belém.
Em entrevista exclusiva à Broadcast Weekend, Mussa afirmou que a falta de um padrão global para contabilizar emissões mina a credibilidade do mercado, dificulta comparar empresas e afasta investidores. Para ele, o desenho atual permite distorções básicas e o resultado é um mercado que não ganha escala nem atrai o dinheiro “de verdade”. A saída, diz, é criar uma contabilidade unificada e auditável, com o mesmo peso de um balanço financeiro.
À frente da SBCOP, um clube de associações empresariais de 74 países, Mussa quer transformar essa discussão em uma das prioridades da COP3, na Turquia. A meta é simples: fazer com que o carbono seja medido com o mesmo rigor aplicado às finanças. Leia os principais trechos da entrevista:
Broadcast – Você defende que o mercado de carbono é a chave para o sucesso das questões climáticas. O que falta para que o mercado de carbono ganhar essa importância?
Ricardo Mussa – Precisamos consertar os fundamentos do mercado de carbono, caso contrário ele nunca vai prevalecer. A forma como esse mercado foi desenhado lá atrás não permite fazer uma contabilidade precisa das emissões. Pense na contabilidade financeira básica: quando o dinheiro sai da minha conta e vai para a sua, ele não está mais na minha. No mercado de carbono atual, a mesma emissão fica registrada na minha conta, na sua e também na do consumidor. Costumo comparar essa situação com a crise de 1929. Antes da quebra da bolsa, cada empresa fazia o próprio balanço do seu próprio jeito, e sem uma contabilidade única, não existe comparabilidade ou accountability (responsabilização). Foi só em 1933 que padronizaram as regras para todo mundo. É exatamente esse o passo que o mercado de carbono precisa dar agora. Há 30 anos, não havia dados para detalhar uma emissão ao longo de toda a cadeia de um produto, então faziam-se estimativas macro. Hoje temos informações suficientes para medir a intensidade de carbono de forma extremamente detalhada.
Broadcast – O que vai mudar com essa contabilidade precisa do carbono?
Mussa – Se for implementada uma contabilidade de carbono unificada e rigorosa, todo mundo reportará da mesma maneira. Isso resolve os principais entraves. Primeiro, vamos parar de “nivelar” o mercado com aproximações e vamos beneficiar as empresas que são comprovadamente melhores e mais limpas. Segundo, vamos atrair o mercado financeiro de verdade, porque o investidor não coloca dinheiro naquilo que é “mais ou menos”. E terceiro, forneceremos uma base de dados realista para que os governos criem políticas públicas muito mais precisas. Precisamos que o controle de emissões passe por auditorias rigorosas, feitas por grandes firmas como uma PwC ou Ernst & Young , com a mesma seriedade dos balanços financeiros tradicionais. Só com essa contabilidade única o mercado terá a confiança necessária para funcionar.
Broadcast – Atualmente não existe uniformidade da contabilidade de carbono nem por regiões como, por exemplo, na Europa? O que existe hoje?
Mussa – O que existe é um receio muito grande entre os especialistas que defendem o modelo atual de que, ao abrirmos uma nova discussão para revisar a metodologia de contabilização de carbono — repensando métricas como os escopos 1, 2 e 3 —, o processo de implantação do mercado sofra um grande atraso. Muitos vêem os debates como uma tática de postergação para frear os avanços climáticos. Mas precisamos encarar que o modelo atual simplesmente não está funcionando de forma eficiente. Hoje, falta uniformidade na contabilidade climática; cada lugar usa uma metodologia diferente, o que gera problemas graves de rastreabilidade. Para que o mercado de carbono realmente amadureça, deixando de ser apenas um mercado voluntário para se integrar de vez ao mercado financeiro global, ele precisa de uma base contábil padronizada e sólida. As bolsas de valores tradicionais só existem hoje porque o mundo inteiro confia nos mesmos modelos contábeis, como o US GAAP e o IFRS. O mercado de carbono precisa seguir esse mesmo caminho, criando produtos rastreáveis, que possam receber o selo de aprovação de grandes auditorias.
Broadcast – Mas não é legitimo esse temor de atraso na implantação do mercado de carbono se for adotada sua proposta de revisão contábil?
Mussa – Atrasar o quê? Está funcionando? Se queremos algo que funcione tem que ter uma base sólida, que funcione no mercado financeiro. Então, eu acredito que é um esforço que vale a pena e que vai trazer para mesa os melhores. Por exemplo, o minério de ferro da Vale tem uma intensidade de carbono muito melhor do que a da BHP Rio Jon Austrália. Então, a Vale vai apoiar esse projeto, porque ela vai se beneficiar disso. Os melhores players, que têm as melhores cadeias, as menores emissões, vão apoiar. O meu ponto é que eu acredito que depois de 30 anos, se o mercado não está funcionando bem, temos que mudar. Portanto, por mais que exista o medo legítimo de que essa revisão leve mais tempo, acertar os fundamentos da contabilidade de carbono não é um retrocesso, mas sim uma necessidade estrutural para permitir que o mercado funcione e cresça de verdade.
Broadcast – E existe alguma proposta sobre essa mudança na contabilidade de carbono que esteja avançada? Alguma que você considere adequada?
Mussa – Sim, há uma iniciativa nova e que eu considero ter muito mérito, chamada Carbon Measures. Ela foi idealizada com o apoio de um acadêmico da Universidade de Oxford, Karthik Ramanna, especializado em contabilidade. A iniciativa é financiada por um grupo de 26 grandes corporações globais, incluindo Bank of America, Santander, Vale e Mitsubishi e o objetivo central é criar um novo padrão contábil para o carbono. A ideia é debater profundamente. Eles levaram uma proposta para a COP 30 sobre qual seria a formatação correta para o mercado de carbono, mas naturalmente, isso gera algumas reações. O pessoal que defende o GHG Protocol vê isso com certa preocupação, achando que está se criando uma via paralela que pode “brigar” com o modelo atual. Minha posição sobre isso é muito clara: não precisamos jogar fora o que já existe, mas precisamos nos unir para melhorar a contabilidade e o sistema. Há pessoas bem-intencionadas de todos os lados querendo fazer a coisa certa. Não vamos discutir de onde vem, vamos discutir o mérito da metodologia. E, na minha avaliação, a metodologia da Carbon Measures é muito boa e fundamental para servir de base para o resto do sistema.
Broadcast – O qual o objetivo disso tudo?
Mussa – Tem duas coisas. A primeira é o carbon accounting que é a contabilidade de carbono, que tem que ser igual para todo mundo. A segunda etapa seria descer para o nível de produto, que é o carbon intensity. Hoje existe tecnologia para podermos saber exatamente quanto de carbono cada produto tem. E com isso, poderemos ter políticas públicas direcionadas. Você pode decidir colocar uma régua mais alta no imposto de uma produtora de petróleo. Ou seja, faz a contabilidade direito, igual para todos, e depois se discute a política pública. Por exemplo, hoje sobre uma empresa de cigarros, que fazem mal para a saúde, ninguém defende fazer a contabilidade financeira da empresa de tabaco ser mais dura. A contabilidade financeira de uma empresa de tabaco é igual à de uma empresa como a Natura. Agora, quando você vai fazer a taxação do produto através da política pública, aí você aumenta a do tabaco. Com o carbono é a mesma lógica.
Broadcast – Você organizou e lidera a SBCOP. O que é esse grupo, como e porquê ele foi criado e qual deve ser seu futuro?
Mussa – A SBCOP é um grupo que reúne associações de indústria e comércio de 74 países. Olha que legal, a gente tem aqui no Brasil a CNI, tem a Câmara da China, da Índia, dos Estados Unidos, a Business Europe. No total, são associações que representam cerca de 40 a 45 milhões de empresas no mundo. Ele foi nasceu de um aprendizado no B20, que é o braço do setor privado no G20 e que mostrou que o setor privado é muito pragmático e tem um poder de influência enorme sobre os governos quando foca em poucas coisas. Sobre o futuro, a SBCOP continua para a COP 31 e queremos chegar a 100 países participando. Mas o formato de atuação evoluiu. Na primeira vez, eu queria copiar o B20 e fazer um documento com recomendações. Só que na ONU são 197 países e a regra é o consenso, o que torna as coisas impossíveis de evoluir. Então a gente mudou a estratégia para mostrar exemplos. Lançamos o “SBCOP Award” para selecionar e mostrar os melhores cases de empresas que já implementaram soluções sustentáveis com retorno financeiro. É muito mais fácil influenciar um gestor público ou negociador mostrando algo que já funciona na prática. Por fim, como a SBCOP ficou enorme e eu venho fazendo isso de forma pro bono com o apoio de secretariado e recursos da CNI, o futuro imediato é montar uma estrutura profissional em Bruxelas e contratar executivos dedicados, porque eu não tenho mais tempo para tocar tudo sozinho.
Broadcast – E como a SBCOP atua ou pretende atuar nessa questão de mudança da contabilidade do carbono?
Mussa – A nossa atuação é focada em poder de influência prático. Deixa eu te dar um exemplo muito poderoso de como o mercado de carbono funciona no mundo: ele é balizado pelos padrões da ISO. E quem tem cadeira e poder de voto dentro da ISO? São as próprias associações de indústria e comércio de cada país, como a ABNT aqui no Brasil. Como eu tenho essas associações dentro da SBCOP, se a gente concordar internamente que o caminho para o novo protocolo de medição de carbono é “X”, eu consigo mobilizar os votos dessas associações na hora em que a ISO mundial for votar. É assim que a gente influencia de verdade. É ir lá e falar: “olha, temos que mudar esse parágrafo. O que eu defendo nessa contabilidade é que a gente não jogue tudo fora. Dá para aproveitar a lógica do GHG Protocol (Escopos 1, 2 e 3) e o direcionamento das políticas públicas sobre de quem cobrar as emissões. Mas nós precisamos de uma metodologia e uma base de dados muito mais robustas e acuradas. Hoje, as leis de mercado e os bancos têm dificuldade de entrar com força nisso porque as certificadoras estão com problema de credibilidade e o sistema não tem accountability. Se a gente melhora essa metodologia (o foundation), a gente resolve o problema dos créditos podres e atrai o capital financeiro pesado e as grandes empresas para o mercado. E, quando o mercado financeiro entra de vez e o dinheiro gira, a solução climática vai para as tecnologias que resolvem o problema com o menor custo possível.




