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Os incêndios que atingem diferentes regiões da França, especialmente Bordeaux, reacenderam uma preocupação em um dos setores mais simbólicos do país: o vinho.
Além da destruição direta dos parreirais, produtores temem a contaminação das uvas pela fumaça, fenômeno conhecido como goût de fumée (“gosto de fumaça”), capaz de alterar aromas e sabores da bebida.
O problema ocorre quando compostos da fumaça são absorvidos pelas uvas. Durante a fermentação ou o envelhecimento do vinho, esses compostos podem ser liberados, comprometendo a qualidade da bebida. O risco é maior quando os incêndios acontecem próximo à época da colheita, fase em que as uvas estão mais suscetíveis.
Em Bordeaux, produtores afirmam que as áreas afetadas pelo fogo ainda não atingiram vinhedos e que os riscos são baixos. Grandes casas do Médoc, como Château Margaux, Château Latour e Château Lafite Rothschild, também descartam problemas em suas safras. Outros produtores, porém, aguardam análises técnicas para avaliar possíveis impactos.
O fenômeno já é conhecido após incêndios em Bordeaux em 2022 e episódios semelhantes na Califórnia e na Austrália.
A crise chega em um momento delicado para a viticultura francesa, que enfrenta queda no consumo, redução das exportações e programas governamentais para diminuir a área plantada.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Paris — Os incêndios no sudoeste da França já destruíram mais de 40 mil hectares no departamento de Gironde e se aproximaram de Bordeaux, acendendo o alerta em um dos setores mais simbólicos da economia e do patrimônio cultural franceses: o vinho. Mesmo com os principais parreirais poupados pelas chamas até agora, a maior ameaça à safra de 2026 não está no fogo. Está na fumaça.
A quilômetros de distância dos focos de incêndio, as uvas podem absorver compostos voláteis liberados pela queima da vegetação, em um fenômeno conhecido como goût de fumée — “gosto de fumaça”. O problema é que os efeitos dessa exposição não são percebidos imediatamente.
Em nota técnica, o Instituto Francês da Vinha e do Vinho (IFV) explica: quando ocorre, a contaminação tende a se manifestar apenas durante o processo de vinificação, quando os aromas e sabores da bebida começam a ser definidos.
Para neutralizar os compostos químicos estranhos, a videira liga as moléculas responsáveis pelo cheiro de queimado aos açúcares da fruta. Nesse momento, a combinação não tem aroma nem sabor. Mais tarde, porém, durante a fermentação ou o envelhecimento da bebida, essas substâncias podem ser liberadas. É quando o vinho fica com o cheiro e o gosto de fumaça.
Se as uvas ainda estão verdes, o risco é menor, já que há mais tempo para que a fruta complete seu desenvolvimento e para que parte dos compostos absorvidos seja metabolizada, ressalta o IFV.
A fase de maturação é considerada decisiva no processo de contaminação: se o vinhedo for atingido pouco antes da colheita, quando as bagas estão mais suscetíveis, o perigo aumenta. O fenômeno já é conhecido por produtores e especialistas, especialmente após os incêndios que atingiram áreas vinícolas de Bordeaux em 2022 e episódios semelhantes registrados na Califórnia e na Austrália nos últimos anos.
A vindima em Bordeaux está prevista para começar entre o fim de agosto e o início de setembro, dependendo da região e da variedade de uva. Neste momento, a fruta passa pela fase de mudança de cor — do verde para tons avermelhados nas uvas tintas e amarelo-dourados nas brancas.
“Infelizmente, temos agora uma certa experiência com incêndios florestais, o que nos permite abordar a situação com serenidade”, diz Marine Martin, porta-voz do Conselho Interprofissional do Vinho de Bordeaux (CIVB), em entrevista ao NeoFeed. “Atualmente, as áreas afetadas pelo fogo não são zonas vinícolas e nenhum impacto sobre a qualidade das uvas foi observado. Em julho, ainda há tempo até a colheita.”
Estudos indicam que o risco de contaminação aumenta principalmente quando os incêndios estão muito próximos dos vinhedos, em geral a menos de 500 metros, explica Martin. “Os incêndios atuais estão a 15 ou 20 quilômetros das vinhas”, ressalta.
Especialistas destacam que vários fatores influenciam o risco de gosto de fumaça no vinho: a proximidade dos focos de incêndio, a direção e a duração dos ventos, a densidade da fumaça que chega aos vinhedos, o tempo de exposição das uvas e a fase de desenvolvimento da fruta.
Os grandes vinhos tintos do Médoc, entre eles alguns dos nomes mais emblemáticos de Bordeaux, como Château Margaux, Château Latour e Château Lafite Rothschild, não estariam sob risco de apresentar o gosto de fumaça em suas safras, segundo afirmou Philippe Castéja, presidente do conselho que reúne os vinhedos classificados como premier crus classés, ao site especializado Vitisphere.
Crise maior
Enquanto alguns minimizam o risco, outros esperam respostas. Vinícolas da região e de outras partes da França estão realizando análises técnicas nas uvas para verificar possíveis sinais de contaminação.
O proprietário do Château Haut-Bacalan, em Pessac, em Bordeaux, é um dos menos otimistas: sua propriedade fica a menos de dez quilômetros do foco do incêndio e foi atingida pela fumaça durante três dias.
No sul da França, vários viticultores tiveram boa parte de suas plantações queimadas. Há casos em que as vinhas existiam há décadas. Os prejuízos diretos ainda estão sendo avaliados. A menos de duas semanas para o início da colheita, eles temem um possível “gosto de fumaça” em sua produção.
No Languedoc-Roussillon, uma plataforma online foi criada para permitir que os produtores visualizem o grau de exposição de suas terras à fumaça dos incêndios e, cartografem, dessa forma, o risco potencial de contaminação. Se ele for intermediário, a uva poderá ser tratada com carvão ativado para eliminar o aroma de cinzas. Se for elevado, não vale a pena nem realizar a colheita.
A região da Borgonha também não escapou do fogo. No início do mês, ocorreram alguns focos de incêndio nas proximidades dos vinhedos. As chamas não atingiram as plantações, mas o medo do “gosto de fumaça” é grande.
Os incêndios agravam a crise na indútria francesa do vinho, com queda no consumo interno, sobretudo de tintos, e redução das exportações. Enquanto produtores tentam proteger suas terras, o Estado francês vem financiando, desde 2023, programas para a retirada de parte dos vinhedos em diferentes áreas do país para adaptar a produção a um mercado em retração.
No final de 2025, o governo liberou € 130 milhões para uma nova fase do projeto, que prevê para 2026 a suspensão definitiva de 30 mil hectares suplementares, o que equivale a três vezes a área de Paris, com uma indenização para os viticultores reduzirem suas áreas plantadas.
No total, a França pode perder 10% de sua área de vinhedos em três anos, com 75 mil hectares eliminados. Ainda assim, com 740 mil hectares, o país possui a segunda maior área de vinhedos do mundo, atrás apenas da Espanha.
O setor vitícola francês enfrenta uma crise estrutural: o consumo de vinho no país caiu quase 70% desde os anos 1960, segundo a France AgriMer, ligada ao ministério da Agricultura.
O recuo é particularmente acentuado entre jovens, que preferem outras bebidas, como a cerveja. A cada ano há uma retração no mercado de vinhos no país. Em 2025, a queda foi de 3,2%, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho.
As autoridades francesas informaram que 70% dos incêndios nesse verão são de origem criminosa. De acordo com o Ministério do Interior, 275 pessoas já foram detidas.




