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segunda-feira, junho 1, 2026

Crédito privado em xeque: o alerta de uma gestora de US$ 382 bilhões sobre os riscos ignorados

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Depois de captar US$ 224 bilhões globalmente em 2025, segundo a S&P Global Market Intelligence, e se tornar uma indústria estimada em mais de US$ 2,3 trilhões, o crédito privado pode estar diante de seu primeiro teste de fogo. A avaliação é de Alexander Pelteshki, gestor de renda fixa da Aegon Asset Management, casa global com US$ 382 bilhões sob gestão.

Para ele, o avanço da inteligência artificial deve pressionar empresas de software endividadas e expor riscos que estavam sendo subestimados por investidores.

“Até agora, o crédito privado foi vendido como algo com volatilidade muito baixa, retornos muito altos e risco muito baixo. Isso é meio que um equívoco, porque não é um produto precificado diariamente”, diz Pelteshki, em entrevista ao NeoFeed.

“Isso significa que você terá preços estáveis até precisar reconhecer uma perda — e aí a queda é bastante significativa”, complementa.

Pelteshki é gestor de renda fixa e administra estratégias globais com mandato amplo, que podem investir tanto em crédito corporativo quanto em títulos soberanos e outros instrumentos de renda fixa. No Brasil, uma dessas estratégias é acessada por meio de um fundo feeder da Aegon em parceria com a MAG Investimentos.

Hoje baseado em Londres, Pelteshki está na Aegon há 12 anos. Antes de se juntar à gestora europeia, foi analista de ações no ING Bank, em Amsterdã, e trabalhou na mesa de negociação de ações do UBS, em Nova York.

A pressão, segundo Pelteshki, não viria de uma ruptura sistêmica, mas de perdas concentradas em empresas que captaram dívida demais em um setor que pode ser rapidamente reordenado pela inteligência artificial.

“É claro que, se uma carteira de crédito privado tem 30%, 40%, 50% ou 60% em software, há uma chance maior de ter alguns defaults e de precisar baixar parte disso. Mas muitas dessas exposições são boas. Há empresas de software que vão se beneficiar da IA”, diz ele.

Para o gestor, este será o “primeiro teste da estrutura” do crédito privado após o forte crescimento da classe nos últimos anos. E o cenário fica ainda mais desafiador diante da virada de chave nas projeções de política monetária, com investidores passando a projetar um reinício do ciclo de alta de juros em economias desenvolvidas.

Sem um horizonte para os juros voltarem a cair, Pelteshki espera que as taxas globais se mantenham elevadas por bastante tempo. Não apenas pelo choque de preços do petróleo, que ele classifica como um efeito temporário. Segundo ele, a principal razão é o aumento dos gastos fiscais, que seguem pressionando a inflação.

“Ainda haverá inflação acima da meta nos mercados desenvolvidos, mas essa será a razão pela qual você não verá mercados desenvolvidos entrando em recessão”, afirma o gestor da Aegon Asset Management.

Alexander Pelteshki, da Aegon Asset Management

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Muito se fala de um cenário difícil no mercado de crédito nos Estados Unidos, com preocupações sobre o setor de software e o potencial de a IA prejudicar toda essa indústria. É algo com que devemos nos preocupar?
Você não precisa se preocupar. Essa é a resposta curta. O tema da IA vai mudar rapidamente as empresas de software — e já está mudando o setor. Isso terá impacto em como avaliamos as empresas. Provavelmente, daqui a dois anos, haverá empresas de software que não existem hoje e outras que terão tomado muita participação de mercado. Então, isso tem implicações profundas sobre investir em tecnologia e software. O impacto pode estar em toda parte. Pode vir por meio da inflação, do emprego e dos investimentos.

E o impacto em crédito privado?
Haverá empresas que terão perdas, e tudo bem. Não será algo sistêmico. Isso não é algo que causaria recessão em algum país ou uma recessão global para todo o ciclo. Mas haverá empresas que tomaram dívida demais ligada a software e que podem acabar não recuperando seu dinheiro, especialmente em crédito privado, em crédito privado selecionado, e elas terão perdas.

Isso torna o momento ruim para o crédito privado?
Não. Acho que é um bom momento para a indústria de crédito privado. É o primeiro teste da estrutura. Até agora, o crédito privado foi vendido como algo com volatilidade muito baixa, retornos muito altos e risco muito baixo. É meio que um equívoco, porque não é um produto precificado diariamente. Isso significa que você terá preços estáveis até precisar reconhecer uma perda — e aí a queda é bastante significativa.

“Até agora, o crédito privado foi vendido como algo com volatilidade muito baixa, retornos muito altos e risco muito baixo. É meio que um equívoco”

Pode-se dizer que é um movimento saudável?
Este será um momento de acerto de contas. Acho que os investidores deveriam — e vão, daqui para frente — exigir uma compensação maior para emprestar a empresas de crédito privado. Não acho que você esteja sendo suficientemente compensado, neste momento, dada a iliquidez.

Os preços não refletem os riscos?
Você precisa de uma compensação extra e também precisa precificar o risco de crédito, porque pode ser a primeira vez que terá um evento de crédito em escala maior. Mas, no geral, isso ficaria limitado a esse setor, a um punhado de empresas que teriam algumas perdas, e a alguns investidores. Mas não é uma causa para defaults sistêmicos e recessão.

Os fundos de crédito privado estavam muito expostos a empresas de software?
Em crédito privado, alguns fundos são puramente fundos de tecnologia. Então essa é a definição deles. Eles apenas emprestam para empresas de software e tecnologia. Outros fundos, ou outras empresas, têm uma mistura dentro disso. Eles têm graus variados de software, indo de 0 a 5, 10, 20, e assim por diante. É claro que, se uma carteira de crédito privado tem 30%, 40%, 50% ou 60% em software, há uma chance maior de ter alguns defaults e de precisar baixar parte disso. Mas muitas dessas exposições são boas. Há empresas de software que vão se beneficiar da IA. Elas também estão utilizando a IA e são beneficiadas por ela.

O cenário que se desenha para a política monetária global torna esse desafio ainda maior?
Temos de enfrentar o fato de que as taxas de juros provavelmente permanecerão elevadas por bastante tempo. Talvez elas subam. Imagino que isso tenha implicações também para as taxas de juros no Brasil. Você provavelmente não espera que as taxas caiam se elas estão subindo em todos os outros lugares.

Estamos caminhando para uma recessão?
Não acho que estejamos olhando para uma recessão global. Isso é bom para o crédito público, porque temos muito gasto fiscal, governos gastando muito dinheiro, com o custo de manter a inflação pressionada. Ainda haverá inflação acima da meta nos mercados desenvolvidos, mas essa será a razão pela qual você não verá mercados desenvolvidos entrando em recessão.

Você disse que as taxas podem subir. Onde vê especificamente isso acontecendo?
O mercado espera que as taxas subam na Europa, no Reino Unido e agora também nos Estados Unidos. As taxas têm subido bastante na Austrália, no Japão e na Nova Zelândia, então praticamente em todos os lugares.

“As taxas estão subindo porque os bancos centrais têm mandato de controlar a inflação. A inflação realmente não voltou para a meta”

Por causa da guerra e do impacto do petróleo nos preços?
As taxas estão subindo porque os bancos centrais têm mandato de controlar a inflação. A inflação realmente não voltou para a meta. O Reino Unido mira inflação de 2%, mas ela nunca voltou para 2%. Os Estados Unidos também miram 2%, e ela nunca voltou para 2%. Então, na verdade, está indo para cima, na direção oposta, e há muitos motivos. Acho que o mais importante é o estrutural. Os governos ainda estão gastando muito mais dinheiro do que gastavam há muito tempo. Estão rodando déficits fiscais, o que sustenta a economia, mas é inflacionário. Esse é, de longe, o principal motivo. E aí você tem choques temporários, como preços de energia, que obviamente não ajudam.

A pandemia mudou a forma como os governos cuidam do dinheiro?
Deveria ser feita uma política expansionista quando a taxa de crescimento está abaixo da tendência, e o oposto quando ela está acima da tendência, para que a economia não sobreaqueça e cause inflação. Então, você pode reduzir as dívidas que contraiu quando estava fazendo uma política expansionista. Mas o truque é: uma vez que se ampliam gastos adicionais — ou cortes de impostos, ou o que quer que seja no espaço fiscal — e eles permanecem em vigor por um, dois, três, cinco anos, a economia e as pessoas se acostumam com isso. E, quando você tenta reverter isso, torna-se impopular. Ninguém gosta de levar menos dinheiro para casa porque os impostos aumentaram.

As probabilidades de alta de juros nos Estados Unidos estão bem precificadas?
Não temos uma bola de cristal. O mercado está precificando uma chance maior de alta de juros do que de corte. Até um mês atrás, precificava corte. Temos que ver a atividade econômica dos Estados Unidos e as tendências daqui para frente nos preços ao consumidor. Se a economia está indo bem, o mercado de trabalho está apertado e os salários estão subindo, há inflação salarial, que alimenta a inflação cheia. Portanto, talvez seja preciso restringir ou não estimular tanto a economia, o que levou os mercados a precificar alta de juros.

A eleição para o Congresso nos Estados Unidos este ano pode mudar a dinâmica dos gastos nos Estados Unidos e das taxas de juros?
É sempre possível, mas o que vai acontecer na prática eu não sei, porque não sei quem vai vencer a eleição. Na maioria das vezes, as coisas pelas quais alguém foi eleito não são implementadas, porque agora ele está no poder. Então, seu trabalho é continuar no poder.



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