A inteligência artificial promete impulsionar ganhos de produtividade e melhorar a prestação de serviços públicos, mas seu avanço dependerá da capacidade dos governos de superar gargalos históricos de infraestrutura, conectividade e qualificação profissional. Esta foi uma das mensagens trazidas por dados apresentados por Julián Najles, especialista sênior em Desenvolvimento Digital e Inteligência Artificial do Banco Mundial, durante o painel “Apoio para transformação digital de estados e municípios”, no SECOP 2026.
Com base no estudo The Promise of Artificial Intelligence, divulgado esta semana pela instituição, o executivo destacou que, nos países em desenvolvimento, o alto custo das soluções e a escassez de mão de obra qualificada ainda aparecem entre as principais barreiras para adoção da IA. Quando falamos em setor público, esses desafios se somam à baixa conectividade, à falta de suporte às línguas locais e à pouca confiança dos servidores nas novas tecnologias. De acordo com Najles, as constatações e obstáculos se aplicam também ao Brasil.
Ao analisar especificamente o País, Najles afirma que o principal desafio está na desigualdade da transformação digital entre estados e municípios. Embora 74,6% dos prefeitos considerem a transformação digital uma prioridade, a maioria das administrações municipais ainda não possui capacidade técnica ou financeira para transformar esse interesse em projetos concretos.
Hoje, 77% dos municípios permanecem em níveis iniciais ou intermediários de maturidade digital, enquanto 22% ainda não contam com cobertura total de fibra óptica. A digitalização dos serviços públicos também avança lentamente, com apenas 49% das cidades oferecendo serviços públicos online, e cerca de 68% ainda sem planos formais de segurança da informação. O desafio também passa pela população. Somente 4% dos brasileiros possuem habilidades digitais avançadas, enquanto 30% apresentam conhecimentos básicos, evidenciando uma lacuna importante de capital humano para sustentar a expansão da IA.
Apesar desse cenário, o Banco Mundial projeta uma forte aceleração da demanda por infraestrutura digital nos próximos anos. Dados apresentados durante o painel indicam que a necessidade de hospedagem de dados do setor público deverá crescer de forma significativa até 2040, impulsionada principalmente pelas aplicações de governo digital e pelo aumento do uso de inteligência artificial. A expectativa é que 60% dessa demanda seja proveniente de aplicações externas de governo eletrônico, enquanto os sistemas internos responderão por outros 32%. Ao mesmo tempo, cerca de 60% dos dados processados deverão ser classificados como internos, reforçando a necessidade de ampliar a capacidade nacional de processamento e armazenamento de informações. Para Najles, o potencial transformador da IA dependerá cada vez menos da tecnologia em si e mais da capacidade dos governos de investir em infraestrutura, conectividade, cibersegurança e qualificação de pessoas para reduzir as desigualdades digitais existentes.




