No Brasil, há um aparente contrassenso nos postos de combustíveis. O etanol está cada vez mais competitivo em relação à gasolina, mas, em vez de correr para abastecer com o biocombustível, os consumidores estão… tímidos.
Dados compilados pela Datagro mostram que 29,2% da frota flex do País abasteceu com etanol em julho deste ano, um percentual acima dos 22% de 2023 — o patamar mais baixo registrado em anos recentes. Ainda assim, é muito inferior ao nível registrado há sete anos (e de seu potencial). Em julho de 2019, por exemplo, esse percentual era de 37,8%. No ano seguinte, caiu para 35,5% e ficou perto de 30% a 31% nos anos subsequentes.
O que mais chama a atenção é o comportamento do consumidor em um momento no qual o preço está vantajoso para abastecer com o biocombustível.
“Em 67% da geografia de consumo, o etanol hidratado é mais vantajoso do que a gasolina”, afirmou Plínio Nastari, fundador da Datagro, em evento em São Paulo nesta quinta-feira. No estado de São Paulo, a paridade ficou em 58,4% no mês passado, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo e Biocombustíveis). Financeiramente, o etanol é mais vantajoso quando a paridade está abaixo de 70%.
Alguns fatores de curtíssimo prazo permeiam esse aparente contrassenso. Um deles seria a própria inércia dos consumidores em voltar para o hidratado em um ano que começou com a paridade favorável para o consumo da gasolina, disse Mariana Zechin, analista da consultoria agro do Itaú BBA.
Um rescaldo do início das medidas de subvenção à gasolina, anunciadas neste ano para conter os efeitos da alta do petróleo no preço do derivado, também atrapalha, segundo Felipe Vicchiato, CFO da São Martinho.
“Quando começou a história do governo dizendo que iria dar isenção para a gasolina e não iria aumentar de preço, entrou no subconsciente das pessoas [a mensagem] falando que no Brasil a gasolina era a mais barata, e isso não parou”, disse Vicchiato, em teleconferência com analistas no último dia 11.
Nesse olhar de curto prazo, alguma reação começou a aparecer nas bombas em julho, estimulada pelo fim das férias escolares e à necessidade de algumas usinas fazerem caixa depois de meses de estoques.
Mas essa resposta nas bombas está bem longe do potencial.
“O consumo de etanol cresceu em julho, mostram os dados preliminares da ANP, mas isso é reflexo de um mercado inteiro que cresceu. Tudo aumentou, o etanol também. A participação no consumo de combustíveis segue com potencial de ser muito maior, com base nos dados históricos”, ressalta Zechin.
Desinformação
O que está segurando essa demanda, então? Na visão de especialistas do setor, um dos fatores que reflete o cenário atual é o aumento da desinformação sobre o biocombustível.
“O que explica isso é falha de informação e preconceito. Está cheio de postagens no YouTube dizendo ‘ah, o etanol danificou o bico injetor’. Não tem nenhuma avaliação para saber se o combustível estava adulterado, se foi o etanol que causou aquilo”, ressaltou Nastari.
Na mesma toada, Martinho Ono, CEO da SCA Trading, ressalta a necessidade de estabelecer uma comunicação efetiva com o consumidor. “Não conseguimos enaltecer o impacto ambiental positivo para fora da bolha”, afirmou, ao The AgriBiz.
Em ano eleitoral, o biocombustível também ganhou contornos partidários. Na semana passada, o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) fez críticas ao aumento da mistura do etanol à gasolina, passando de 30% para 32%.
O candidato foi duramente criticado pela indústria de etanol, que classificou as declarações como desinformação. A posição de Flávio é sintomática do momento. O candidato só entrou no tema por acompanhar o engajamento nas redes sociais.
Tudo somado, fato é que o mau humor do brasileiro com o etanol chega em péssima hora. Num ano de oferta abundante — tanto pela produção de etanol de cana quanto pela de etanol de milho — o Brasil encontra um mercado exportador mais restrito.
“Os Estados Unidos estão com uma alta produção também, com um etanol que hoje é mais competitivo do que o brasileiro. Basicamente, eles conquistaram destinos que antes eram tradicionais consumidores de etanol brasileiro, então, não tem como dar vazão”, explica Zechin.
Ficar com estoques de passagem altos num ambiente de juros altos é um pesadelo para as usinas — ainda mais em um momento em que o mercado interno parece pouco animado a reagir, mesmo diante de preços baixos.
Por enquanto, as iniciativas para promover o consumo de etanol parecem tímidas. A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) mantém pelo segundo ano a campanha “Vai de Etanol” — mas, a julgar pelos dados, não tem mexido o ponteiro.
Mudar a cabeça do consumidor teria um impacto significativo. Segundo Nastari, se a proporção de frota flex que usa etanol hidratado voltasse aos patamares de 2019, o Brasil teria um consumo interno 8 bilhões de litros maior.
O aumento da demanda viria a calhar. O Brasil espera, para a próxima safra, um aumento de 11,7% na produção de etanol (mais de 4 bilhões de litros), totalizando 42 bilhões de litros, segundo as estimativas mais recentes da Conab.
***
Procurada, a Unica não se manifestou até o fechamento desta reportagem.




