Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Agronômico (IAC) identificou um erro que pode comprometer a produção de borracha natural em seringueiras clonadas: a escolha inadequada do porta-enxerto, planta que sustenta o clone enxertado.
A pesquisa mostrou que o porta-enxerto não funciona apenas como suporte físico da muda. Ele atua diretamente na fisiologia da seringueira e pode alterar de forma expressiva a produção de látex. Na prática, a combinação correta entre clone e porta-enxerto pode ampliar a produtividade em até 75%.
Os resultados foram publicados no periódico The Plant Genome e ajudam a explicar por que muitos produtores têm baixa produtividade mesmo quando utilizam clones considerados de alto desempenho.
A borracha natural continua essencial para setores como a indústria de pneus para aeronaves e de equipamentos médicos. O material combina flexibilidade, elasticidade, resistência à fadiga, ao aquecimento, ao rasgamento e à abrasão. Além disso, é uma matéria-prima renovável, e as plantações podem contribuir para a captura de dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera.
Apesar dessa importância, o Brasil tem menos de 2% da produção mundial, não consegue abastecer o mercado interno e precisa importar a matéria-prima. A produção global é liderada por Tailândia, com 35%; Indonésia, com 25%; Vietnã, com 8% a 10%; China, com 6% a 7%; e Índia, com 5% a 6%.
No Brasil, o principal polo produtivo deixou de ser a Amazônia e se deslocou para o Estado de São Paulo. Como a seringueira leva cerca de dez anos para entrar em fase produtiva plena, produtores paulistas que atuam em outras culturas costumam reservar parte da propriedade para o plantio da árvore, como uma espécie de poupança para o futuro.
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Erro só aparece depois de anos
O problema costuma surgir no momento da colheita do látex. Mesmo com clones de qualidade, muitos produtores encontram produtividade abaixo do esperado.
Segundo os pesquisadores, isso acontece porque a escolha do porta-enxerto nem sempre recebe a mesma atenção dada ao clone. Na prática agrícola, a seringueira é propagada por enxertia. Nesse processo, a gema de um clone selecionado, como o RRIM 600, um dos mais utilizados no Brasil, é inserida sobre um porta-enxerto formado por uma seringueira obtida a partir de sementes.
Embora os programas de melhoramento tenham historicamente focado apenas no clone, o estudo mostrou que o porta-enxerto pode alterar profundamente o desempenho da planta.
“Quando se planta o melhor clone sobre o porta-enxerto errado, a produção pode cair para apenas 25% do que seria esperado com a combinação correta”, afirma Anete Pereira de Souza, professora titular do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp e coordenadora do estudo.
Os resultados confirmaram essa diferença. A combinação do clone RRIM 600 com o porta-enxerto PB 235 apresentou a maior produtividade média: 76,03 gramas de borracha seca por árvore em cada operação de sangria. Com porta-enxertos de sementes não selecionadas, a produtividade caiu para 43,29 gramas.
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Porta-enxerto interfere nos genes da seringueira
Para entender por que a produtividade muda tanto, os pesquisadores analisaram o transcriptoma, conjunto de genes expressos, de árvores enxertadas em diferentes porta-enxertos.
“Investigamos, pela primeira vez, os mecanismos moleculares envolvidos na interação entre o enxerto e o porta-enxerto em seringueiras [Hevea brasiliensis], principal fonte mundial de borracha natural. Nossos achados evidenciam que os porta-enxertos não são apenas suportes para fixação dos clones, mas sim agentes ativos na regulação da expressão gênica do material enxertado, com impacto direto na produtividade e adaptabilidade da cultura”, afirma o pesquisador Wanderson Lima Cunha, primeiro autor do artigo.
A análise identificou milhares de genes cuja expressão varia conforme a combinação entre enxerto e porta-enxerto, incluindo genes ligados diretamente à produção de látex.
Entre os principais resultados, o estudo identificou genes exclusivamente expressos e diferencialmente expressos associados a variações na produtividade. Também evidenciou a participação de vias metabólicas, como a do jasmonato, hormônio vegetal que atua principalmente na resposta a estresses e na regulação de processos metabólicos.
A pesquisa ainda apontou diferenças nas redes de coexpressão gênica, indicando maior ou menor sinergia entre genes envolvidos na biossíntese da borracha. Os resultados mostram que o porta-enxerto atua como modulador da fisiologia da planta.
Informação pode evitar prejuízos
Segundo os pesquisadores, a falta de informação sobre o porta-enxerto pode gerar prejuízos importantes aos produtores.
“Quando o agricultor vai comprar a muda, ele pede o clone, mas não pede o porta-enxerto. E ninguém o informa sobre isso. Como a seringueira demora anos para entrar em produção, o erro só é percebido tarde demais. O fazendeiro espera mais de uma década para descobrir que está produzindo muito menos do que poderia”, afirma Souza.
Com base nos resultados, o IAC prepara uma cartilha para orientar viveiristas e produtores sobre as melhores combinações entre clones e porta-enxertos. Os autores também defendem a criação de políticas que exijam a identificação do porta-enxerto na comercialização de mudas.
Nova estratégia para a produção de borracha natural
O estudo aponta para uma mudança nos programas de melhoramento da seringueira. Até agora, as pesquisas e práticas agrícolas focavam quase exclusivamente nos clones enxertados. Os resultados mostram que essa estratégia é insuficiente.
Ao considerar o porta-enxerto como componente ativo, os pesquisadores abrem caminho para aumentar a produtividade, melhorar a adaptação a estresses, como seca, reduzir doenças e tornar a cultura da seringueira mais competitiva.
A pesquisa foi coordenada por Anete Pereira de Souza, professora titular do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp e orientadora do doutorado de Wanderson Lima Cunha, apoiado pela FAPESP. O trabalho contou ainda com a participação do professor Paulo Gonçalves, pesquisador sênior do IAC e considerado uma das maiores autoridades mundiais em borracha natural.
O estudo também teve apoio da FAPESP por meio de auxílio ao Centro de Melhoramento Molecular de Plantas, de Auxílio Regular à Pesquisa concedido a Anete de Souza e de Bolsa de Mestrado concedida a Vinícius Mandolesi Rios, segundo autor da pesquisa.
O artigo Molecular mechanisms associated with rootstock-scion interactions in rubber trees pode ser lido em: acsess.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/tpg2.70147.




