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segunda-feira, julho 20, 2026

Integração lavoura-vaca: Roncador ataca o maior gargalo da pecuária

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PINDAMONHANGABA (SP) — O produtor normalmente é quem busca orientação na ciência. Mas ocorreu o inverso no início de julho, quando uma comitiva de membros da academia e de instituições de pesquisa visitou a fazenda São Pedro da Mantiqueira, em Pindamonhangaba (SP).

Pesquisadores e técnicos estavam lá para ouvir Pelerson Penido Dalla Vecchia, o Peleco, CEO do Grupo Roncador, falar sobre a Super Cria — como ele vem chamando seu novo sistema de produção agrícola integrada com pecuária de cria.

A novidade tem melhorado índices tanto na agricultura como na pecuária. É uma “integração lavoura-vaca”, em sua divertida definição. “A cria sempre foi uma atividade de pouca rentabilidade, gradualmente empurrada para áreas menos férteis. Buscamos com esse projeto uma originação rentável, responsável e de qualidade”, diz.

O diferencial da iniciativa é que ela não mira recria ou engorda, etapas que avançaram mais rápido em produtividade. Principalmente no Mato Grosso, onde confinamentos, suplementação e integração com a produção de grãos já são relativamente comuns.

Enquanto isso, a criação de bezerros segue majoritariamente em sistemas extensivos, com menor produtividade. É a fase mais ineficiente e um gargalo no País, com uma média de prenhez de 47%.

No caso de Peleco, conhecido pelo pioneirismo na adoção em larga escala de práticas de agricultura regenerativa, a “integração lavoura-vaca” elevou a prenhez para 65%. O intervalo entre partos é de 10 a 11 meses, bem abaixo da média nacional de 18 meses.

Menos invenção, mais organização

A Super Cria não se trata tanto de invenção, mas sim de organização. O projeto reúne e sistematiza práticas de manejo, nutrição e integração lavoura-pecuária. E usa a farta base de dados coletados por Peleco, em alguns casos há décadas. “O único jeito de tomar decisões rápidas e assertivas é usar indicadores. Nada aqui vem do achismo.”

A primeira medida é uma inversão da ordem recorrente na pecuária extensiva: em vez de as matrizes percorrerem grandes áreas para colher o pasto, o alimento é, de certa forma, levado até elas. As vacas ficam soltas, acompanhadas dos bezerros, com 10 a 15 animais por hectare, superando em muito a média brasileira, de 1 a 1,5 cabeça por hectare.

A forragem é produzida e conservada perto das áreas de alimentação — o chamado pré-secado — e, depois, servida no cocho. Eles são móveis e devem ser realocados a cada 40 a 50 dias, seguindo um planejamento para aumentar a eficiência do pasto.

No calendário da Super Cria, a soja ocupa o solo de novembro a fevereiro. De março a maio, planta-se Brachiaria ruziziensis. Em junho e julho, o rebanho se alimenta do pré-secado. Em agosto e setembro, a nutrição é via pastejo extensivo. E outubro é o mês da rebrota, importante para reiniciar novamente o ciclo.

“O segredo da Super Cria é uma boa produção de capim”, sintetiza Peleco.

O sistema usa o esterco do gado na adubação. São quatro quilos por animal por dia, o suficiente para substituir mais de um ano do formulado, nas contas de Peleco. Ele tem construído pátios de cimento próximos dos cochos — eles quase dobram a quantidade de material obtido na comparação com a recolha direta no solo.

A lavoura recebe ainda o que ele chama de “sopa de floresta”, um substrato feito de folhas secas de árvores da reserva da fazenda que povoa o solo com microrganismos.

Em todas as frentes, o processo qualifica a terra. Sistemas extensivos acumulam até 5 toneladas de matéria seca por hectare. Na “mini-Roncador”, esse índice foi de quase 19 toneladas por hectare nos últimos sete anos — bateu em 35,8 em 2024, o recorde.

Isso foi essencial para a fazenda, adquirida em 1998 em região de relevo acidentado — em meio às serras do Mar e da Mantiqueira — e com solo pobre em nutrientes.

“Não existe terra ruim, mas terra que pode ser arrumada com gestão. Toda agricultura deveria ter uma área de pecuária”, diz Peleco. A produtividade da fazenda na soja foi de 74 sacas por hectare nos últimos anos, ante 62 sacas no País em 2025/26.

O estoque de carbono nas áreas de Super Cria é superior até ao do solo na reserva florestal. O sistema inclui outras medidas, como seleção reprodutiva. E permite otimizar a gestão, passando a ser possível “inseminar e abater o ano inteiro”.

Réplica no Mato Grosso

A ideia de Peleco é passar a aplicar o sistema na fazenda-sede, em Querência (MT), até o fim do ano. Não será a primeira vez que a São Pedro da Mantiqueira — com cerca de 3,5 mil hectares, ante 53 mil na fazenda-sede — terá servido de laboratório.

Na palestra, o CEO da Roncador foi didático e detalhista nas explicações, e disse querer que o sistema se alastre nos vizinhos.

Os visitantes — produtores, representantes da Acrimat e técnicos da Embrapa, da Famato, do Imea e do Senar-MT — saíram com o mesmo desígnio.

“Se aqui, com relevo acidentado, solo ruim, clima difícil e necessidade de drenagem ele conseguiu, lá no Mato Grosso a gente tem que ser muito incompetente para não fazer”, definiu Normando Corral, membro do Comitê Assessor Externo da Embrapa Agrossilvipastoril.

Nessa réplica, serão necessários ajustes de clima, topografia e alimentação, lembrou Laurimar Gonçalves Vendrúsculo, chefe-geral da Embrapa Agrossilvipastoril de Sinop (MT).

Outra dificuldade serão as onças, que eliminam cerca de 600 bezerros por ano — número que já chegou a três vezes isso no passado.

Defensor dos animais, Peleco entende que os ataques sinalizam a qualidade e o equilíbrio da biodiversidade local. A Roncador foi a primeira fazenda do País a receber o certificado do Instituto Onça Pintada, em 2018.

* O jornalista viajou a convite do Grupo Roncador.



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