A indústria de fertilizantes já admite a possibilidade de faltar fertilizantes fosfatados para a próxima safra devido ao prolongamento da guerra no Irã, o que pode resultar em déficits de adubação com reflexos na produtividade de grãos.
A análise é de executivos de empresas do setor presentes em um debate promovido nesta segunda-feira (6) pela Argus Media, reforçando diagnósticos feitos nas últimas semanas por especialistas e consultorias.
“Os anos de 2024 e 2025 já mostraram déficits de adubação, e em 2026 vejo esse movimento se aprofundando”, disse Felipe Coutas de Souza, country manager da Itafos Fertilizantes, multinacional americana com operação na região norte do Brasil.
Ele salientou que os conflitos no Oriente Médio vêm acentuando uma redução na oferta global de enxofre, matéria-prima na produção de ácido sulfúrico, que, por sua vez, é utilizado na fabricação de fertilizantes fosfatados.
“Até agora, só três navios com enxofre conseguiram atravessar o Estreito de Ormuz. Além disso, vêm se acumulando relatos de refinarias atacadas. Então não é só uma dúvida sobre a passagem, mas também sobre a produção no longo prazo”, situou Jasmine Antunes, repórter sênior de enxofre e ácido sulfúrico da Argus.
Como resultado, Souza, da Itafos, estima uma queda de até 15% na oferta dos fosfatados neste ano. “De 40 milhões de toneladas enviadas para transporte marítimo todo ano, entre 19 e 22 milhões vêm do Oriente Médio. Ainda não há risco de desabastecimento, depende da duração da guerra, mas uma paralisação temporária acredito que vai acontecer”.
No Brasil, o Oriente Médio foi origem de 2,3 milhões de toneladas de enxofre em 2025, o equivalente a 42% do total, segundo Antunes. Assim, no limite, o País poderia enfrentar uma falta temporária do produto.
“Para o Brasil, esse ano é um mergulho de apneia. Não há uma solução geral, é fechar o nariz e tentar sair ileso em 2027”, disse Souza.
O cenário é agravado pelo fato de o enxofre ser um subproduto do refino de petróleo e gás, e, por isso, também sofrer com as flutuações na oferta dessas commodities.
Paralisações
Nayara Piloto, gerente sênior de Vendas B2B da EuroChem, destacou que a restrição na oferta já vem impactando algumas operações. “Já vemos algumas plantas parando por falta de enxofre ou porque a relação de custo de produção do fertilizante está muito alta. Essas questões demandam viver um dia de cada vez, além de crédito e incentivo do governo”.
Antes do início da guerra, já em dezembro, a Mosaic paralisou a produção de superfosfato simples (SSP) em suas unidades de Araxá (MG) e Fospar (PR) em resposta à disparada nos preços do enxofre, que já sofria disrupções no fornecimento devido à queda nas exportações da China e da Rússia.
No ambiente de preços nas alturas, a indústria química — que também é compradora de enxofre e ácido sulfúrico — tem um limite “um pouco mais elástico” do que o agro. “Tudo depende do cliente final, se vai ter gente na ponta disposta a pagar o preço. A questão é testar qual será esse limite”, afirmou Souza.
O jogo geopolítico
Os especialistas delinearam três movimentos comerciais e geopolíticos que contribuem para o déficit de matérias-primas para os fertilizantes fosfatados.
Um deles é a entrada da Indonésia como compradora. Não para a agricultura, mas para a indústria química — o país vem crescendo sua produção de níquel, em cujo processo de fundição é usado o ácido sulfúrico.
“A Indonésia passou a desempenhar papel crucial nos preços. Em 2024, compraram 3 milhões de toneladas, e, em 2025, saltaram para mais de 5 milhões de toneladas. E, como não seguem os calendários agrícolas, é difícil prever quando vão ao mercado”, situou Antunes, da Argus.
Já o caso da China é particular, uma vez que o país é ao mesmo tempo importador e produtor. A regulação local “joga” com isso e determina travas para assegurar o fornecimento interno.
“A China tem muitas refinarias que produzem enxofre, seja para fertilizantes, seja para metais. Mas ainda assim, tem que importar quase 9 milhões de toneladas de enxofre por ano. Por isso, tem um papel crucial nos movimentos globais”, explicou Antunes.
“No último ano, a China exportou mais de 4 milhões de toneladas de ácido sulfúrico, mas neste ano os produtores locais terão de reduzir as vendas entre janeiro e abril a 50%”, pontuou Souza.
Segundo Antunes, ao menos na teoria, o gigante asiático não tem urgência para comprar mais enxofre no mercado spot até o segundo semestre.
O terceiro movimento com papel sobre preços e disponibilidade é da Rússia. Nesse caso, o contexto é outro, embora também bélico: após ataques de drones a refinarias durante a guerra da Ucrânia, o país anunciou uma suspensão temporária nas exportações de enxofre. Eram mais de 1 milhão de tonelada por ano jogados no mercado e que agora vão faltar, disse a especialista da Argus.
Nessa toada, o Brasil pode ter de se voltar para produtores na Europa, como Turquia, Espanha e Itália, com preços mais altos, detalhou.
Indústria busca soluções
Nesse ambiente conturbado, cabe às indústrias achar soluções, afirmaram os executivos.
“A grande questão é a viabilidade dos fosfatados de baixa concentração, que trazem mais restrições ao produtor. Estamos acompanhando de perto para saber o que faz sentido, até porque temos um limite de estoque de fosfatados”, afirmou Piloto.
“A indústria vai precisar ser inteligente e entregar produtos eficientes e que o produtor consiga pagar”, acrescentou Souza. Na Itafos, isso passa pelo desenvolvimento de um produto que consome menos ácido sulfúrico, afirmou: “É o tipo de coisa que não vai gerar rentabilidade, mas traz sobrevivência”.
Ambos pediram incentivos do governo: “Os Estados Unidos investem US$ 250 milhões por ano na cadeia de fertilizantes, enquanto o Brasil não tem uma linha específica”.




