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sexta-feira, setembro 4, 2026

Fora da UE, Brasil perde âncora de preços de carnes nobres

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A suspensão das exportações de carne bovina do Brasil para a União Europeia, que entrou em vigor nesta quinta-feira (3), pode até ser pouco relevante no volume exportado pelos frigoríficos nacionais, mas deixa um rastro negativo para a imagem da carne brasileira e pode atrapalhar a precificação dos cortes mais nobres.

“Uruguai, Argentina e Austrália se adaptaram. Como é que o Brasil, o maior exportador do mundo, não fez nada?”, criticou uma fonte que acompanhou o desenrolar do veto europeu ao uso dos antimicrobianos na criação de animais, uma decisão que tem cronograma definido desde 2023.

Para essa mesma fonte, os erros brasileiros são compartilhados em toda a cadeia, o que inclui o governo federal, a indústria frigorífica e os produtores. “Subestimamos, achando que ia ter um jeitinho”, lamentou.

Sem a União Europeia, o Brasil perde um mercado que remunera bem, ajudando a valorizar o boi gordo. No ano passado, os europeus desembolsaram US$ 1 bilhão para importar 128 mil toneladas de carne bovina do Brasil.

Trata-se do quarto maior mercado dos exportadores, em receita, e o principal em preço médio, segundo dados compilados pela Abiec (Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne Bovina).

Para se ter uma ideia da atratividade, o preço médio nas vendas aos europeus foi de US$ 8,2 mil por tonelada de carne bovina em 2025, 57% acima da média geral dos embarques brasileiros (US$ 5,2 mil).

Os preços europeus refletem o perfil de produtos importados. Em geral, são cortes nobres do chamado “rump and loins” (filé mignon, contrafilé e alcatra), além de coxão mole, que é muito usado pelos italianos para a produção de bresaola.

“O Brasil perde a âncora de preços nobres”, resumiu uma fonte da indústria exportadora. Junto com a China, que absorve um mix diferente e mais variado, a União Europeia ajuda a balizar o preço do boi destinado à exportação.

Diante do volume menos relevante dos europeus, que representaram 4,4% das exportações totais em 2025, a expectativa é que os frigoríficos brasileiros consigam um destino para realocar esse volume, especialmente em um momento de escassez global de carne bovina. No entanto, é improvável que os preços praticados sejam os mesmos.

Do outro lado, a ausência do Brasil pode encarecer a carne importada pelos europeus. Na Argentina, a iminência da saída brasileira da lista de países aptos a vender para a União Europeia já provocou um movimento especulativo, valorizando alguns cortes de carne em até 50%, disse uma fonte.

Para os europeus, os brasileiros não eram um fornecedor inexpressivo. Pelo contrário. No ano passado, o Brasil foi responsável por cerca de 35% da carne bovina importada pelos países do bloco, conforme dados levantados pela Abiec.

Além disso, a dependência é ainda maior em alguns cortes e em alguns países. Na Itália, por exemplo, país europeu que mais importou carne bovina do Brasil no ano passado, não há substituto natural ao Brasil porque o grande mercado é o coxão mole voltado à produção de bresaola.

Para essa finalidade, a carne do gado da raça Nelore é a mais indicada pelas características de menor marmoreio. Argentina, Uruguai e Austrália trabalham com raças majoritariamente europeias, que possuem mais marmoreio, ou seja, mais gordura entremeada na carne.

“Eles vão sentir o impacto da ausência do Brasil”, disse outra fonte, tentando ver o copo meio cheio. O problema é que, mesmo que os preços subam para os europeus, a reintrodução do Brasil na lista de países autorizados a exportar deve demorar alguns anos.

Retorno em dois anos

Considerando que há pouco espaço para soluções políticas, os mais otimistas acreditam que, se tudo der certo, os frigoríficos poderiam voltar a exportar para a União Europeia em dois anos, o que corresponde ao ciclo de cria, recria e engorda do boi, nos casos mais eficientes.

Para isso, o Brasil precisa de um protocolo de segregação da produção que seja aceito pelos europeus, demonstrando abolir o uso de antimicrobianos nos animais cuja carne é destinada ao bloco comercial.

Em parceria com a ABCAR (Associação Brasileira das Empresas de Certificação por Auditoria e Rastreabilidade) e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), a Abiec desenvolveu um protocolo de segregação.

A ideia é que esse trabalho subsidie a proposta que o Ministério da Agricultura fará aos europeus, mas isso deve entrar na agenda prioritária da Pasta depois que o veto europeu a produtos como carne de frango e mel forem resolvidos.

Desde a semana passada, uma auditoria europeia está no Brasil para verificar se o País se adequou ao veto antimicrobiano na avicultura e apicultura. Por terem ciclos de produção mais curtos, a avaliação é que a restrição a esses dois produtos possa ser revertida mais rapidamente, possivelmente até novembro, conforme The AgriBiz antecipou. Depois disso, a carne bovina volta ao foco.

Procurada, a Abiec informou, em nota, que a União Europeia é um mercado estratégico e que os esforços estão concentrados na reinserção do Brasil na lista de exportadores.

“A prioridade da Abiec é contribuir para que esse fluxo comercial seja reestabelecido no menor prazo possível, preservando a diversificação de destinos, a competitividade da cadeia e a presença internacional da carne bovina brasileira”, disse a associação.

Em nota divulgada na tarde desta quinta-feira, o Ministério da Agricultura disse que a exclusão de produtos de proteína animal do mercado europeu anula parte dos avanços obtidos no âmbito do acordo Mercosul-UE e pode “modificar o equilíbrio de concessões que permitiu a conclusão exitosa das negociações do acordo”.

O governo brasileiro acrescentou que, caso as negociações não cheguem a uma “solução satisfatória, pode recorrer a instrumentos que possam assegurar condições equilibradas de comércio, inclusive medidas de reciprocidade.



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