16.6 C
São Paulo
sexta-feira, agosto 28, 2026

Vaivém tarifário no comércio de alimentos veio para ficar, diz Eurasia

DEVE LER



Na avaliação de Cristopher Garman, diretor-executivo da Eurasia para as Américas, a guerra comercial entre Estados Unidos e China tende a ficar mais branda ao longo dos próximos dois anos — mas não sai da mesa, com perspectiva, inclusive, de se acirrar novamente em um horizonte de tempo um pouco maior, de cinco a seis anos.

Nessa troca de farpas, produtos agrícolas devem continuar sendo uma importante moeda de troca, contribuindo para a volatilidade dos preços. Na semana passada, a soja caiu 4% na Bolsa de Chicago, o pior desempenho semanal desde julho de 2024, refletindo um pessimismo do mercado norte-americano sobre a relação comercial entre as duas maiores economias do mundo.

O presidente Donald Trump adiou um encontro que estava previsto com o presidente da China, Xi Jinping, para o final deste mês devido à guerra no Oriente Médio. A reunião era vista como a chance de consolidar a trégua comercial firmada entre as duas nações desde o final do ano passado — e que resultou na compra de 12 milhões de toneladas de soja americana pela China. Nas últimas semanas, no entanto, as compras chinesas dos EUA diminuíram significativamente.

As negociações entre os dois países envolvendo as commodities agrícolas afetam diretamente o Brasil, acostumado a transitar diplomaticamente entre esses “gregos e troianos”. Se um dia esse atributo foi considerado uma fortaleza do País, hoje ele, sozinho, não dá conta de enfrentar o futuro.

O caminho a ser trilhado pelo Brasil está, na visão de Garman, nas “alianças entre médias potências”.

“Existe um desejo em vários países de aumentar a resiliência das cadeias produtivas e mitigar riscos de depender exclusivamente de cada uma das grandes superpotências. O Canadá, por exemplo, pagou um preço altíssimo por isso, e agora tem uma visão de que não dá para depender exclusivamente dos Estados Unidos, por exemplo”, afirmou Garman, em entrevista ao The AgriBiz.

O especialista não acredita que esse tipo de aliança venha no formato de um novo bloco, mas numa proliferação de acordos comerciais bilaterais. “Não deve existir uma coalizão única, porque os interesses entre esses países também são muito díspares.”

Do lado brasileiro, entrariam nessa seara as conversas diplomáticas para abrir mercados na Coreia do Sul, os diálogos com os Emirados Árabes, a visita de autoridades canadenses ao Brasil, além das recentes conversas com a Índia, por exemplo.

Não são processos rápidos, nem acordos costurados da noite para o dia. “Provavelmente estão aquém do necessário para reduzir a dependência de mercado chinesa [no AGRONEGÓCIO]. Mas há que se começar de algum lugar”, ressaltou Garman.

Mesmo numa eventual mudança de governo, Garman não enxerga uma alteração estrutural dessa busca por abrir cada vez mais mercados. O que muda é a forma como o Brasil vai se relacionar com as duas principais potências globais.

Na visão de Garman, numa eventual troca de governo com um partido mais alinhado à direita, a relação com o governo Trump ficaria mais próxima, com mais cooperação em áreas estratégicas.

“Eu diria que [um governo de direita] seria mais aberto a capital estrangeiro. Por exemplo, a questão dos minerais críticos e terras raras deve ter mais cooperação com os Estados Unidos. Não que o governo atual não queira, mas está mais focado no processamento local, investimento local”, explicou Garman.

Uma aproximação com os Estados Unidos não vai significar, por outro lado, um rompimento com a China. “Mas eu diria que não seria um governo tão próximo quanto o atual”, destaca Garman, frisando que a direção geral de diversificação de mercados não deve mudar estruturalmente.

E as tarifas?

Ao mesmo tempo em que abre os olhos para outros países, o Brasil continua navegando um mundo com maior protecionismo entre as duas potências globais. Trazendo a discussão para o AGRONEGÓCIO, isso significa um vaivém de medidas ligadas à segurança alimentar.

Um exemplo disso foi o movimento de Trump com o tarifaço. Depois de taxar o Brasil e inviabilizar as exportações de produtos como café e carne bovina, o componente inflacionário apareceu e ajudou na retirada das tarifas.

“Existe um intuito de tentar aumentar a produção doméstica, mas ao mesmo tempo, a agenda de custo de vida segue muito forte. Nós devemos ver muito vaivém de tarifas nas políticas governamentais”, explicou Garman.

Na visão do especialista, a recente queda do tarifaço pela Suprema Corte americana não deve impedir Donald Trump de tentar impor novas tarifas daqui para frente.

Outras tarifas poderiam ser impostas, por exemplo, a partir de investigações (já iniciadas, diga-se de passagem) a respeito de diferentes produtos em diferentes países, de olho em constatar se os Estados Unidos estão sendo lesados por isso ou não.

Na visão do especialista, a visita do presidente Lula a Washington no próximo mês terá como foco não somente reduzir tarifas, mas justamente evitar a recolocação dessas taxas sobre o país.

“O Brasil está no topo da lista dessas investigações, iniciadas no ano passado, por que a Casa Branca já sabia que as tarifas poderiam cair, amparadas na IEEPA [a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional]”, destacou Garman.



Fonte Link

- Publicidade -spot_img

Mais Artigos

- Publicidade -spot_img

Último Artigo