O impacto financeiro da crise no campo deixou de ficar restrito às fazendas. O movimento de alta nas recuperações judiciais (RJs) entre produtores rurais começou a percorrer a cadeia do AGRONEGÓCIO, atingindo diretamente fornecedores de insumos, fabricantes de máquinas, transportadoras, cerealistas e instituições financeiras.
Se nos últimos dois anos o foco da inadimplência esteve concentrado da porteira para dentro, um levantamento inédito da consultoria RGF Associados indica que os efeitos indiretos já chegam com força aos demais elos do setor.
Raio-X das Recuperações Judiciais na Cadeia
Atualmente, o levantamento contabiliza 313 empresas do ecossistema do AGRONEGÓCIO em processo de recuperação judicial. Em alguns segmentos específicos, o crescimento da insolvência no período de um ano foi expressivo:
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| Segmento da Cadeia | Crescimento de RJs (1 Ano) |
| Atacadistas de Máquinas Agrícolas | 📈 +88,9% |
| Atacadistas de Matérias-Primas Agrícolas | 📈 +64,7% |
| Revendas de Defensivos e Fertilizantes | 📈 +32,4% |
| Laticínios | 📈 +21,2% |
Efeito “Onda” e a Defasagem Temporal
A contaminação da cadeia não acontece de forma imediata, mas segue uma cronologia previsível de desgaste financeiro no mercado de crédito rural.
“O produtor deixa de pagar primeiro. Depois de cerca de três trimestres, esse efeito aparece nas empresas que dependem dele. É um comportamento típico de economias fortemente baseadas em crédito”, afirma Claudio Damasceno, sócio sênior da RGF Associados.
Quando as margens operacionais desaparecem, o agricultor adota uma postura defensiva:
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Posterga investimentos em infraestrutura e renovação de frota;
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Reduz o volume de compra de fertilizantes e defensivos;
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Renegocia financiamentos de longo prazo.
Fatores de Pressão e Operações de Barter
O cenário atual reúne os principais ingredientes para o alastramento da crise: queda no preço das commodities, juros elevados que mantêm o custo financeiro alto, custos de produção ainda pressionados e perdas climáticas.
A redução da taxa Selic também demora a trazer alívio real ao campo, já que a defasagem entre o corte de juros e o efeito prático na lavoura é de cerca de um ano.
Para contornar a escassez de crédito, muitos produtores têm recorrido a operações de barter (pagamento de insumos com a entrega da safra futura). No entanto, essa estratégia transfere o risco e amplia a exposição financeira de tradings, cooperativas e revendas em caso de quebra de safra ou inadimplência.
Próximos Alvos: Setor Sucroenergético e Logística
O estudo da RGF traz alertas importantes sobre a propagação da crise para outros setores:
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Setor Sucroenergético: Embora a cultura da soja concentre o maior número absoluto de recuperações judiciais, usinas e destilarias continuam apresentando a maior taxa proporcional de insolvência entre todos os segmentos analisados.
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Setor de Transporte Rodoviário: Com a renda do produtor menor e a atividade desacelerada, o volume de cargas transportadas diminui, afetando diretamente transportadoras e frotistas.
A alta nas recuperações judiciais de produtores rurais deixou de ser um problema isolado do campo para se tornar um termômetro antecipado da saúde financeira de toda a economia do AGRONEGÓCIO.
Fonte: CNN




