Casar parecia um plano distante quando Caio Scotte fez as contas para comprar um terreno e construir a própria casa. O projeto custaria perto de R$ 1 milhão e, poupando 20% da renda, ele levaria mais de 60 anos para juntar o dinheiro.
A conta mudou seus planos. Em vez de apenas guardar uma parte do que ganhava, Scotte passou a buscar formas de aumentar a renda e fazer o dinheiro render mais. Foi assim que chegou ao mercado financeiro e começou a construir a carreira como trader.
Caio Scotte foi o convidado do episódio 84 do GainDelas, programa do canal GainCast. No programa, ele relembrou uma trajetória que começou carregando flores, passou por um emprego de R$ 550 e chegou ao mercado financeiro.
Anos depois, a busca que começou com o desejo de construir uma família o levaria a dividir o palco com duas das principais referências que encontrou no início da carreira.
Uma conta de 60 anos
Na época, Scotte trabalhava como representante comercial de concreto e aço, mas não via como construir a casa no prazo que desejava.
O terreno custava cerca de R$ 250 mil, e a experiência da família na construção civil permitia estimar o restante da obra.
Antes de pensar em investimentos, havia uma motivação pessoal. “Eu quero casar e, para me casar, preciso de uma casa”, conta.
Ao somar o preço do terreno ao custo estimado da construção, chegou a um projeto de aproximadamente R$ 1 milhão. Depois, calculou quanto tempo levaria para alcançar esse valor poupando 20% da renda e deixando o dinheiro na poupança.
O resultado foi desanimador. “Fiz uma conta lá de 60 e tantos anos”, recorda.
A conclusão foi simples: guardar dinheiro não seria suficiente para realizar o plano no horizonte que imaginava.
Scotte passou, então, a procurar duas alternativas: aumentar a própria renda e encontrar formas de rentabilizar o capital. A conta da casa, que inicialmente era apenas um planejamento financeiro, acabou se tornando o ponto de partida para uma mudança de carreira.
“Não vou casar nunca, né”, brinca.
Antes do mercado financeiro
A vontade de ganhar mais já fazia parte da vida de Scotte muito antes de ele conhecer o mercado financeiro.
Em Santo Antônio de Posse (SP), cidade conhecida pela produção e distribuição de flores, ele saía às quartas-feiras em um caminhão com destino a Belo Horizonte e só retornava na sexta-feira. Durante as viagens, chegou a dormir dentro da câmara fria.
“Meu primeiro trabalho na minha vida foi carregar flor”, conta.
Depois, estudou AutoCAD, incentivado pelo pai, que dizia que ele poderia ganhar R$ 3 mil trabalhando como projetista.
Quando se mudou para Arujá (SP), porém, recebeu uma pasta, alguns currículos e R$ 50 para procurar emprego. No segundo dia, encontrou uma vaga em uma copiadora, onde passou a ganhar R$ 550.
“Então eu já arrumei emprego no segundo dia”, recorda.
Foi também nessa época que uma lembrança da infância começou a ganhar outro significado. Seu avô materno, Sinésio, assinava jornais e pedia ao neto que anotasse as cotações de ações, como Petrobras.
Os dois faziam contas para entender quanto determinados valores investidos poderiam ter se tornado com a valorização ou queda dos papéis.
“Aquilo ficou na minha cabeça. Eu entendi que existia uma dinâmica”, afirma.
Da poupança ao trade
Quando a conta da casa o levou a procurar alternativas à poupança, a lembrança do avô voltou à cabeça.
A leitura de “Investimentos Inteligentes”, de Gustavo Cerbasi, apresentou a Scotte conceitos de ações, renda fixa e fundos imobiliários de forma didática.
Dessa vez, porém, o interesse tinha um objetivo concreto: encontrar uma forma de acelerar a construção do patrimônio.
“Pô, preciso ir pro mercado de ações, que é aqui que eu vou conseguir rentabilizar”, relata.
O primeiro curso de renda variável que encontrou era presencial, ministrado por Leandro Stormer, em Porto Alegre. O treinamento custava cerca de R$ 5 mil — dinheiro que Scotte não tinha naquele momento.
A alternativa foi participar duas ou três vezes de um treinamento de cinco horas oferecido pela B3 sobre investimentos em ações. O estudo virou rotina e, pouco depois, abriu caminho para o trade.
“Desde então nunca mais parei”, afirma.
Anos mais tarde, a história ganhou uma espécie de fechamento de ciclo.
Na premiação do InfoMoney durante a Expert Trader 2026, Scotte ficou em terceiro lugar. Stormer, o professor cujo curso ele não tinha dinheiro para pagar no início da carreira, ficou em primeiro. André Moraes, sua primeira referência no day trade, terminou em segundo.
O homem que um dia não conseguia pagar o curso agora dividia o palco com os dois profissionais que ajudaram a moldar sua trajetória.
“Cara, para mim isso é uma loucura, entende?”, admite.
Quando o objetivo mudou
Com o passar dos anos, o objetivo que havia dado origem àquela primeira conta também ganhou outro significado. Scotte formou a própria família e tornou-se pai de Artur e Vitória.
Ao falar sobre o impacto dos filhos em sua trajetória e na maneira como passou a enxergar o trabalho, escolhe uma palavra para resumir a mudança.
“Vida. Vida. A palavra vida parece rasa, mas vida”, define.
Artur nasceu em um dos períodos que Scotte considera mais difíceis de sua vida. Morando no Rio de Janeiro e distante da rede familiar que costumava acolhê-lo, ele atravessava a pandemia e lidava com uma nova realidade financeira.
A chegada do primeiro filho, porém, mudou a maneira como enxergava aquele momento.
“Eu acho que, quando nasce um filho, nasce um pai, né?”, reflete.
Hoje, a motivação que começou com o desejo de comprar uma casa aparece de outra maneira na rotina. Artur espera o pai terminar as aulas para brincar, enquanto Scotte reserva dias para acompanhar os filhos na natação.
O objetivo deixou de ser apenas construir patrimônio. Passou a incluir algo que, para ele, se tornou ainda mais valioso: tempo e presença com a família.
“Não é sobre dinheiro, é sobre nós entregarmos aquilo que tem de precioso no nosso coração”, afirma.




