O inferno astral da Minerva Foods parece não ter fim. Mesmo após entregar um resultado operacional em linha com as expectativas, a maior exportadora de carne bovina da América do Sul sofre uma das maiores quedas da bolsa nesta quinta-feira (13).
Às 16h34, as ações da Minerva tombavam 8,2%, o segundo pior desempenho do Ibovespa. Com isso, os papéis da companhia da família Vilela de Queiroz atingiram o menor patamar desde dezembro de 2011, conforme levantamento de Einar Rivero, sócio-fundador da consultoria Elos Ayta.
A desvalorização desta quinta-feira ilustra a desconfiança dos investidores com a capacidade da Minerva de desalavancar estruturalmente, além das dúvidas geradas pelo esgotamento da cota de exportação da China e o boi mais caro no Brasil. Não à toa, as ações caem mais de 40% neste ano.
Em teleconferência com analistas durante a manhã, a Minerva sinalizou uma redução do índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) ao longo do segundo semestre.
De acordo com o diretor financeiro da Minerva, Edison Ticle, a companhia pode liberar mais de R$ 3 bilhões em estoques que se acumularam no segundo trimestre, que proporciona uma economia significativa no capital de giro.
Nas contas dele, a geração de caixa advinda da menor necessidade de capital de giro pode reduzir o índice de alavancagem em algo entre 0,5 e 0,6 vez até o fim do ano.
Com isso, a Minerva fecharia o balanço anual com o indicador entre 2,3 vezes e 2,4 vezes, patamar mais confortável na comparação com as 2,9 vezes reportados no balanço do segundo trimestre.
“Estou sendo bastante conservador”, disse Ticle, que também sinalizou que a Minerva pode fazer um Ebitda de R$ 5 bilhões ou até mais neste ano.
A julgar pela reação dos investidores, a sinalização do executivo pode não ter sido suficiente.
Na atual conjuntura, não basta melhorar a relação entre dívida líquida e Ebitda. A Minerva precisa entregar uma economia significativa dos juros associados às linhas de capital de giro (risco sacado e antecipação de recebíveis), que são caras num país de Selic a 14% ao ano.
Nos últimos anos, as despesas financeiras vêm corroendo a capacidade da Minerva de gerar valor para o acionista, deixando o Ebitda da companhia quase todo com os credores.
Atualmente, o equity da Minerva está avaliado em apenas R$ 3,2 bilhões na B3, enquanto o endividamento líquido é de R$ 14,3 bilhões. Na métrica de valor de firma (enterprise value, indicador que soma equity e dívida), cerca de 80% está nas mãos dos credores e apenas 22% com os acionistas.
Para resolver esse dilema, a Minerva terá de reduzir a dívida bruta de forma substancial, abrindo espaço para que a companhia use menos capital de terceiros para rodar a operação.
Por enquanto, essa ainda é uma realidade distante. No segundo trimestre, o uso de risco sacado pela Minerva bateu recorde, notou a analista Renata Cabral, do Citi, em um relatório a clientes. Em 30 de junho, as linhas de risco sacado somavam R$ 4,7 bilhões, um acréscimo de quase R$ 800 milhões em três meses.
Diante da falta de clareza no processo de desalavancagem, os analistas do BTG Pactual, Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, reiteram a posição neutra com as ações da Minerva. “Seguimos à espera de alternativas que reduzam as despesas financeiras e melhorem a geração de caixa ao acionista”, escreveram.
Aos analistas, o diretor financeiro da Minerva reconheceu que a redução do endividamento é fundamental para recuperar a ação.
“A nossa principal prioridade é desalavancagem porque as taxas de juros estão muito altas e a melhor forma de gerar valor é carregar uma dívida menor e uma despesa financeira mais enxuta”, disse Ticle.
Para priorizar a redução das dívidas, a Minerva vai manter a distribuição de dividendos no mínimo de 25% do lucro líquido, obrigatório por lei, mesmo que termine o ano com o índice de alavancagem abaixo de 2,5 vezes — nesses níveis, a companhia poderia distribuir 50% do lucro.




