A estratégia comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está produzindo um efeito que vai além da elevação de tarifas sobre produtos importados. Ao ampliar sucessivamente as barreiras contra parceiros históricos, como Brasil, Canadá e México, Washington cria incentivos para que esses países intensifiquem relações comerciais entre si e acelerem a diversificação de mercados, especialmente em direção à China, hoje o principal destino das exportações brasileiras.
O mais recente capítulo dessa política ocorreu com a decisão do governo americano de impor tarifas de 50% sobre centenas de produtos canadenses, utilizando a Seção 338 da Lei Tarifária de 1930, um instrumento raramente utilizado que permite ao presidente retaliar países considerados discriminatórios ao comércio americano. As novas tarifas entram em vigor em 19 de agosto e atingem produtos como vinhos, laticínios, cimento, móveis e equipamentos esportivos, embora preservem petróleo, gás e minerais críticos. A Casa Branca justificou a medida alegando discriminação contra automóveis, bebidas alcoólicas e laticínios americanos.
O movimento amplia uma sequência de conflitos comerciais iniciada anteriormente com o Brasil, que passou a enfrentar tarifas de até 37,5% sobre parte de sua pauta exportadora, resultado da combinação da tarifa básica de 25% com uma sobretaxa adicional de 12,5% aplicada sobre determinados produtos.
Embora cada país tenha sido alvo de justificativas específicas, economistas observam que o padrão das medidas produz um efeito comum: reduz a previsibilidade das relações comerciais com os Estados Unidos e estimula empresas e governos a buscar novos parceiros de longo prazo.
Essa tendência pode favorecer uma aproximação inédita entre economias que tradicionalmente competem em alguns mercados, mas que passam a compartilhar o mesmo desafio de reduzir sua dependência do mercado americano.
No caso brasileiro, a mudança ocorre em um momento em que a China já ocupa posição dominante no comércio exterior nacional. O país asiático responde pelo maior destino das exportações brasileiras, enquanto os Estados Unidos ocupam a segunda colocação. A tendência é que novos investimentos chineses em infraestrutura, energia, mineração, AGRONEGÓCIO e indústria de transformação ganhem ainda mais importância caso o ambiente comercial com Washington permaneça deteriorado.
Ao mesmo tempo, Canadá e México também passam a buscar alternativas. O Canadá enfrenta uma ruptura significativa com seu principal parceiro comercial justamente quando seus dados mais recentes mostram perda de dinamismo nas vendas para os Estados Unidos. No primeiro trimestre de 2026, as exportações canadenses destinadas ao mercado americano acumulavam queda de 14,9% na comparação anual, enquanto as importações provenientes dos EUA recuavam 6%. Em contrapartida, o comércio canadense apresentou crescimento com outras regiões, incluindo União Europeia, China e Índia, indicando um movimento gradual de diversificação de mercados.
Esse processo pode criar oportunidades adicionais para o Brasil. Embora os dois países tenham estruturas produtivas distintas, há espaço para ampliar acordos em setores como alimentos, mineração, energia limpa, tecnologia agrícola e minerais críticos, especialmente diante da necessidade canadense de reduzir sua exposição ao mercado americano.
O México, que continua sendo o maior parceiro comercial dos Estados Unidos, também vive um ambiente de crescente incerteza. Apesar de ainda manter negociações com Washington, o país permanece sujeito às mudanças frequentes na política tarifária americana, levando empresas instaladas em território mexicano a revisarem cadeias globais de fornecimento.
Na avaliação de especialistas em comércio internacional, esse conjunto de movimentos acelera um fenômeno conhecido como “friendshoring ampliado”, no qual países procuram concentrar suas relações comerciais em parceiros considerados mais previsíveis e politicamente estáveis.
No caso brasileiro, esse redesenho ocorre justamente quando o custo econômico do tarifaço americano começa a ser dimensionado.
Levantamento do IBEVAR-FIA Business School estima que aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações brasileiras estejam diretamente atingidos pelas novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. O impacto potencial equivale a uma perda entre 0,5 e 0,6 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) de 2026, cerca de R$ 76 bilhões em atividade econômica.
Segundo o estudo, o setor madeireiro aparece como o mais vulnerável, com 83% de suas exportações incluídas na lista tarifada. Também figuram entre os segmentos mais expostos minerais não metálicos (56,3%), produtos químicos (51,8%) e alimentos (38,1%), além de calçados, móveis, têxteis e máquinas. A Embraer calcula um custo adicional de aproximadamente R$ 50 milhões por aeronave exportada aos Estados Unidos, com impacto acumulado estimado em R$ 20 bilhões até 2030.
Regionalmente, São Paulo e Santa Catarina concentram mais da metade dos efeitos econômicos da medida. Apenas São Paulo responde por cerca de US$ 3 bilhões do valor atingido pelas tarifas, enquanto Santa Catarina possui a maior dependência relativa do mercado americano, com 68% de suas exportações para os Estados Unidos inseridas na lista tarifada.
Como resposta, o governo federal ampliou o Plano Brasil Soberano, disponibilizando R$ 55 bilhões em linhas de crédito por meio do BNDES. Mesmo assim, os pedidos protocolados pelas empresas já somam R$ 18,4 bilhões, levando o banco a solicitar reforço adicional de R$ 7,25 bilhões ao Tesouro Nacional.
Para Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, os impactos vão muito além do comércio exterior. “O tarifaço não é apenas uma disputa comercial entre dois países. É um evento que atravessa geografia, política fiscal, política monetária e diplomacia ao mesmo tempo. Cada uma dessas frentes já está em movimento, é mensurável e custa mais do que a manchete do dia sugere.”
No plano geopolítico, a consequência mais ampla pode ser justamente o enfraquecimento da influência comercial americana sobre parceiros tradicionais.
Ao atingir simultaneamente Brasil, Canadá e, anteriormente, China, a política tarifária de Donald Trump acaba incentivando exatamente aquilo que pretendia evitar: o fortalecimento de novos fluxos comerciais fora da órbita dos Estados Unidos. Em vez de isolar individualmente seus parceiros, Washington cria um ambiente em que economias afetadas encontram incentivos para ampliar acordos bilaterais, diversificar fornecedores e consolidar relações econômicas mais profundas entre si, acelerando um processo de reorganização do comércio internacional cuja velocidade pode superar a própria duração das tarifas atualmente impostas.




