16.8 C
São Paulo
quinta-feira, agosto 6, 2026

Sem previsão para o fim da guerra no Irã, Brasil ainda sofre com valor de fertilizantes

DEVE LER



Sem perspectiva concreta de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, a guerra iniciada em fevereiro de 2026 continua produzindo reflexos sobre a economia brasileira. Um dos principais impactos é sentido no AGRONEGÓCIO, que enfrenta a escalada dos preços dos fertilizantes em razão das dificuldades logísticas e das restrições de oferta provocadas pelo conflito. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o valor desses insumos já acumula alta de cerca de 80% desde o início da guerra.

O aumento dos custos ocorre em um momento particularmente sensível para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Embora mantenha uma relação institucional com o AGRONEGÓCIO, o Palácio do Planalto busca preservar a estabilidade de um dos setores mais relevantes da economia brasileira em um ano eleitoral, enquanto enfrenta os efeitos da forte dependência nacional de fertilizantes importados.

Para o diplomata Eduardo Gradilone, embaixador do Brasil no Irã até sua aposentadoria, em 2023, a vulnerabilidade brasileira decorre justamente da elevada dependência externa desses insumos.

“Nós temos uma dependência estrutural de fertilizantes, já que compramos de fora 85% do que necessitamos no mercado interno, sendo que 25% vem justamente do Irã. Em 2025, o Brasil comprou U$ 72 milhões de dólares em fertilizantes iranianos, o que representa mais de 90% da nossa pauta importadora com aquele país. Após a guerra iniciada pelos EUA, os preços subiram, a logística de transportes se complicou e o Brasil está buscando rotas alternativas, principalmente da ureia”, explicou.

Além da elevação dos preços internacionais, a guerra ampliou os custos logísticos do comércio marítimo. A instabilidade em áreas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, elevou os prêmios dos seguros de transporte e aumentou o risco de atrasos e desvios de rotas, fatores que acabam sendo incorporados ao custo final dos fertilizantes importados.

A doutora em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Jéssica Grassi, destaca que a dependência brasileira torna o setor agrícola particularmente sensível às crises geopolíticas.

“O Brasil importa a maior parte dos fertilizantes que consome, o que deixa o País extremamente vulnerável frente às crises internacionais que impactam o abastecimento do mercado nacional desse insumo. O preço da ureia, fertilizante essencial para o AGRONEGÓCIO, chegou a ter picos de alta que superam os 60% desde o início do conflito, já que o Oriente Médio responde por cerca de 40% das exportações mundiais desse produto”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, a situação é agravada pelo fato de outro importante fornecedor mundial de fertilizantes, a Rússia, permanecer envolvida na guerra contra a Ucrânia desde 2022, o que continua afetando o fluxo internacional desses produtos.

“O aumento dos preços dos fertilizantes eleva o custo de produção agrícola no Brasil, o que também pode tornar as exportações brasileiras menos competitivas no mercado internacional. Entretanto, observando esse cenário, o risco não é só no aumento dos preços, mas crises geopolíticas internacionais como essa podem envolver risco de desabastecimento do mercado global”, disse.

Na avaliação da especialista, o cenário reforça a necessidade de acelerar as medidas previstas no Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) 2022-2050 e ampliar a diversificação de fornecedores, priorizando mercados considerados mais estáveis, como Canadá, Marrocos e Argélia, ainda que existam desafios logísticos para essa estratégia.

Os efeitos da crise já começaram a atingir diretamente a indústria instalada no Brasil. Neste mês, a Mosaic, uma das maiores produtoras globais de fertilizantes, anunciou a redução da produção em algumas unidades brasileiras devido à escassez de enxofre, matéria-prima essencial para a fabricação de fertilizantes fosfatados utilizados em culturas como soja, milho, trigo, café, arroz, frutas e hortaliças.

Segundo a companhia, são necessárias aproximadamente quatro toneladas de enxofre para produzir dez toneladas de fertilizantes. Com a redução da oferta internacional e a valorização da matéria-prima, a empresa revisou seu planejamento operacional para o segundo semestre de 2026. Procurado pela reportagem, o CEO da Mosaic preferiu não comentar o assunto.

Conflito sem horizonte de solução

Passados mais de seis meses desde o início da ofensiva militar americana contra o Irã, o conflito permanece sem sinais concretos de encerramento e já é comparado por analistas a outras longas campanhas militares dos Estados Unidos, como as do Afeganistão e do Iraque.

Nas últimas semanas, a crise ganhou novos desdobramentos. Rebeldes houthis do Iêmen, apoiados por Teerã, intensificaram ações no Mar Vermelho e estabeleceram um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, aumentando os riscos para uma das principais rotas marítimas do comércio internacional.

Ao mesmo tempo, o ministro do Interior iraniano, Eskandar Momeni, esteve no Paquistão em busca de apoio para reabrir negociações diplomáticas. Do lado americano, o presidente Donald Trump afirmou que chegou a autorizar aquele que classificou como “o maior ataque desde a Segunda Guerra Mundial”, mas recuou diante da possibilidade de retomada das negociações. O governo iraniano, entretanto, nega qualquer diálogo em andamento com Washington.

Enquanto a solução diplomática segue distante, o prolongamento da guerra continua pressionando o mercado global de fertilizantes e impondo custos cada vez maiores ao AGRONEGÓCIO brasileiro, um dos setores mais dependentes da estabilidade das cadeias internacionais de suprimentos.






Fonte Link

- Publicidade -spot_img

Mais Artigos

- Publicidade -spot_img

Último Artigo