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segunda-feira, julho 20, 2026

“Se queriam prejudicar Lula com a tarifa de 25%, o tiro saiu pela culatra”, diz Giannetti

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O economista Roberto Giannetti da Fonseca é uma das principais referências na área de comércio exterior no Brasil. Formado em Economia pela USP no início da década de 1970, já ocupou posições de destaque em organismos empresariais e públicos: foi presidente da Cotia Trading, secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX) durante o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e presidente da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (FUNCEX). Hoje, atua como head do LIDE Comércio Exterior, empresa do grupo comandado por João Doria. Ele conversou com o BRAZIL ECONOMY logo após a imposição da nova tarifa de 25% pelo governo Trump ao Brasil. Confira:

Qual o impacto que o senhor vê para a economia brasileira com a nova tarifa anunciada por Trump?
No aspecto macro, o impacto é muito pequeno para a economia brasileira porque o total das exportações para os Estados Unidos é somente 10% do total, já que eles são hoje o terceiro ou quarto mercado importante para o Brasil, depois da China, União Europeia e outros países que estão também nessa mesma faixa. Considerando ainda que, desses 10%, somente 20% a 25% dos produtos exportados para os Estados Unidos são afetados pela tarifa, estamos falando de 2%, 2,5% da pauta, se tanto, o que não é grave. Mas, quando você olha para os setores, coloca uma lupa, tem alguns muito afetados, que têm 30%, 40% de exportação para os Estados Unidos e, com 25% de tarifa, eles vão ficar provavelmente inviabilizados, com preços fora do mercado, e não têm margem e competitividade para operar lá. Alguns até investiram em depósitos, distribuição, fizeram promoção de MARCA e perderam o mercado norte-americano assim, numa canetada.

Quais mercados o Brasil deve buscar no lugar dos Estados Unidos?
Há grandes mercados no mundo, na Índia, China, Japão, Europa, que podem absorver alguns desses produtos se a gente mantiver o que já está sendo feito, que é um criterioso desvio de comércio e direcioná-los para esses países. Máquinas e equipamentos terão uma dificuldade maior. Já quando falamos de bens de consumo de massa, o Brasil tem condição de desviar grande parte das vendas dos Estados Unidos para outros mercados e não vai sofrer tanto.

O governo brasileiro deve usar as tarifas de que maneira em ano eleitoral?
Obviamente que essa decisão do governo americano é totalmente despropositada. Ela não tem uma justificativa técnica sólida e foi tomada com base em pretextos e argumentos falaciosos. Porque, de fato, falar sobre a concorrência desleal do Brasil com os Estados Unidos, para mim, é uma fantasia total, não existe isso. Então, a Seção 301, que aplica essas tarifas de 25% a uma série de produtos, é usada num contexto geopolítico para punir o Brasil por causa da grande relação com a China. No ano de eleição, eles julgaram que, impondo a tarifa, iriam prejudicar o governo. Se queriam prejudicar Lula em ano de eleição com a tarifa de 25%, o tiro saiu pela culatra, porque isso prejudica muito mais o apoio que Trump explicitamente tem anunciado ao candidato da extrema direita, da família Bolsonaro. Então, nesse aspecto, eu acho que há um erro grave de estratégia que eles cometeram e agora veremos como vai evoluir.

O empresariado estadunidense será impactado de que maneira?
Os empresários de lá compram diversas matérias-primas e produtos básicos brasileiros para transformação e processamento na indústria americana, gerando, do lado de lá, centenas de milhares de empregos e garantindo o funcionamento de muitas indústrias baseadas no bom, regular e competitivo fornecimento da indústria brasileira.

Em quais áreas, por exemplo?
As chapas de aço que são mandadas para lá, para laminação, e que são usadas na indústria automobilística, na indústria de eletrodomésticos e em tantas outras não são mais exportadas com 25% ou, se forem, vão agregar ao preço um custo alto. O consumidor dos EUA será profundamente punido porque, se eles importam do Brasil, é porque o produto brasileiro é de boa qualidade, competitivo e tem mercado. Portanto, eles aceitam ou preferem comprar da gente em vez de produtos de qualquer outra nacionalidade. É o caso típico, enfim, de alguns alimentos, vestuário e calçados. Eles vão perder acesso a esses produtos, vai ficar caro. Não é que está proibido importar, mas vai ficar mais caro e aí eles vão comparar os preços e talvez deixem de adquirir, até porque isso afeta a renda deles também. Então, a população americana, por meio da inflação e do encarecimento de produtos brasileiros importados, é punida por essa decisão do presidente Trump.

A que o senhor atribui o fato de os Estados Unidos terem deixado alguns itens de fora da taxação?
Há uma lista de exceções com cerca de 2.100 itens, que incluem carne, café, laranja, suco de laranja, partes para fabricação de aviões, no caso da Embraer, produtos que são importantes para a pauta brasileira. Além de ferro-gusa, café solúvel sem adição de sabor, mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e aço, frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos. Esses produtos não terão tarifas, já que seus representantes foram à Casa Branca e ao Departamento de Comércio, em audiências, negociar. São insumos importantes que não têm oferta doméstica. Os EUA precisam deles e são difíceis de substituir por fornecedores de outros países, de modo que a sobretaxa poderia provocar um grave aumento de custos e desorganizar cadeias produtivas. O USTR, que é o órgão de representação do comércio exterior americano, como é a CAMEX no Brasil, concluiu que os bens que estão sendo tarifados podem ser obtidos em outros mercados e que, portanto, não se justificaria a inclusão deles na lista de exceções à tarifa.

O governo brasileiro tentou negociar da maneira correta?
Negociação é uma atividade dinâmica, oportunística, porque tem que ter estratégia, tem que ter as suas ferramentas, as suas armas de negociação, poder de convencimento. É algo feito sentado à mesa, colocando o tema em debate. E, nessas horas, você tem que ter, evidentemente, uma boa argumentação para colocar a sua posição com assertividade, com firmeza e mostrar os limites que você está disposto a negociar. Eu acho que isso foi feito. A negociação foi no limite, nós tentamos o possível, mas o outro lado foi intransigente, irracional e até diria, de certa forma, ilegal. Vamos engolir essa pílula azeda do tarifaço, mas nós saberemos sair disso com criatividade, com trabalho, com empenho, e eu parabenizo, cumprimento o governo brasileiro, que cumpriu corretamente o seu papel de negociador.

Como o senhor viu o envolvimento do etanol nessas discussões?
O Brasil colocou logo de início que era algo inegociável. Nós temos toda uma indústria estabelecida, que não pode sofrer uma concorrência do etanol americano, que é mais barato que o brasileiro, por sinal, porque é feito de milho, enquanto o nosso é basicamente de cana-de-açúcar. Nós ficaríamos com uma vulnerabilidade de ter uma avalanche de etanol americano entrando no Brasil. Isso não faz o menor sentido. E eu acho que a gente tem uma tarifa aqui que é razoável, não é excessiva e protege a indústria brasileira. Por outro lado, no açúcar, que é o irmão de produção do etanol, os Estados Unidos é que impõem tarifas e cotas há muito tempo, e o Brasil tem sido penalizado por lá há décadas. Então, se você vai negociar o etanol, tem que negociar o açúcar junto. Aí eles não querem.

E o Pix?
É uma conquista do governo e do povo brasileiro, um mecanismo que está aí gerando a inclusão financeira, bancária e digital de milhões de brasileiros, que passaram a ter um instrumento barato, útil, fácil, que está dando um grande dinamismo ao setor financeiro e ao comércio. Todos nós sabemos a importância do Pix hoje para a economia brasileira. Imagina amanhã passar a cobrar taxa pelo Pix, como se cobra nos cartões de crédito, tirando uma comissão do cliente que usou o cartão? É inegociável. Então, isso aí já criou um impasse, porque eles queriam pôr o dedo nessa ferida e o Brasil não vai negociar isso. Acho que foi muito correta a posição do governo brasileiro. Foi feito tudo de boa-fé, com seriedade e diplomacia.

 




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