A reforma tributária em implementação no Brasil começa a redesenhar não apenas o sistema de arrecadação, mas também a lógica de relacionamento entre empresas e seus fornecedores. Com a introdução do IBS e da CBS, cuja transição ganha tração a partir de 2026, o aproveitamento de créditos tributários passa a depender, de forma mais direta, do recolhimento efetivo dos tributos ao longo de toda a cadeia produtiva.
Esse novo desenho cria um ponto de atenção relevante para as áreas financeiras e de compras. Na prática, companhias que adquirirem bens ou serviços de fornecedores inadimplentes poderão enfrentar a perda de créditos fiscais, o que altera substancialmente a equação de custo das operações. O risco se intensifica especialmente diante da atuação de devedores contumazes, empresas que utilizam a inadimplência tributária como estratégia para oferecer preços mais baixos e ganhar competitividade no mercado.
A mudança também reposiciona o papel do procurement dentro das organizações. Segundo Lucas Madureira, co-CEO e cofundador da Gedanken, empresa brasileira de tecnologia especializada em homologação e compliance de terceiros, a variável fiscal passa a integrar o centro das decisões de compra. “Historicamente, a decisão de procurement se baseava em preço, prazo e qualidade. Com a reforma tributária, a situação fiscal do fornecedor passa a ter impacto direto no custo real da operação”, disse.
O efeito prático pode ser significativo. De acordo com o executivo, propostas aparentemente mais vantajosas podem esconder perdas relevantes no novo modelo. “Em um contrato de R$ 10 milhões, por exemplo, um fornecedor que ofereça desconto de 10% pode parecer competitivo. No entanto, se ele não recolher os tributos devidos, a empresa compradora pode perder créditos fiscais que chegam a cerca de 27% do valor da operação, dependendo da alíquota final. O que parece economia pode rapidamente se transformar em aumento de custo”, explicou.
Além do impacto financeiro direto, o ambiente regulatório tende a se tornar mais rigoroso. O avanço no cruzamento de dados por parte da Receita Federal e das secretarias estaduais de Fazenda amplia a capacidade de fiscalização e rastreamento das operações. Nesse contexto, a relação recorrente com fornecedores inadimplentes pode gerar questionamentos e riscos de compliance para as empresas compradoras.
Outro ponto crítico está na limitação dos mecanismos tradicionais de verificação fiscal. Certidões negativas de débito, amplamente utilizadas como instrumento de validação, refletem apenas a situação momentânea do fornecedor e podem não capturar mudanças rápidas em seu comportamento tributário. Com o novo sistema, o monitoramento contínuo tende a ganhar protagonismo como ferramenta de mitigação de riscos.
É nesse cenário que soluções de tecnologia voltadas à gestão de fornecedores passam a ganhar relevância estratégica. A Gedanken, por exemplo, desenvolve plataformas que integram processos de homologação, monitoramento de risco, avaliação de parceiros, due diligence e gestão de critérios ESG ao longo da cadeia de suprimentos. A empresa atende mais de 280 organizações, auxiliando na construção de relações comerciais mais seguras, transparentes e sustentáveis.
Para Madureira, a reforma tributária não apenas simplifica o sistema, mas também redistribui responsabilidades dentro das empresas. “A tendência é que parte da gestão de risco fiscal passe a ser incorporada à cadeia de suprimentos. Monitorar a saúde tributária dos fornecedores deixa de ser uma prática acessória e passa a ser um elemento central para proteger margens e garantir competitividade no longo prazo”, afirmou.




