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sexta-feira, agosto 7, 2026

Apertem os cintos, o querosene subiu: alta de 50% aumenta pressão sobre aéreas

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A disparada do querosene de aviação adicionou uma nova fonte de pressão sobre os custos do transporte no Brasil e pode produzir efeitos que ultrapassam os balanços das companhias aéreas. Dados levantados pela Qive mostram que o QAV registrou alta de 49,8%, passando de R$ 5,66 para R$ 8,48 por litro na comparação entre os valores considerados no estudo.

O movimento ocorre em meio ao aumento das tensões no mercado internacional de petróleo, provocado pelo conflito entre Estados Unidos e Irã e pelo risco de interrupções no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de energia.

Para as empresas aéreas, a alta do QAV representa uma pressão particularmente relevante porque o combustível está entre os principais componentes dos custos operacionais do setor. Quanto maior a permanência dos preços em patamares elevados, menor tende a ser o espaço das companhias para absorver integralmente o aumento sem buscar compensações em outras áreas da operação.

Entre as possibilidades estão ajustes de capacidade, revisão de rotas, maior disciplina de custos e repasses aos preços das passagens e do transporte aéreo de cargas. Nesse último caso, o impacto pode alcançar cadeias que dependem da aviação para movimentar mercadorias de maior valor agregado ou que exigem entregas rápidas.

Uma simulação realizada pela Qive ajuda a dimensionar o choque. Caso o volume adquirido em 2025 tivesse sido mantido aos preços máximos registrados em 2026, o custo adicional com querosene de aviação alcançaria R$ 7,8 bilhões.

A resposta das empresas foi reduzir fortemente as aquisições. Nos cinco primeiros meses deste ano, o volume comprado de QAV recuou 62,6%, segundo o levantamento. Na maior parte dos combustíveis analisados, a retração média das quantidades movimentadas chegou a 11,5%.

“Os dados sugerem que as empresas optaram por uma tática de contenção imediata, freando as compras na esperança de um conflito de curta duração. Para times financeiros, isso sinaliza a importância de monitorar o cenário geopolítico, a exposição a insumos voláteis, e manter estoques calibrados, garantindo apenas a margem de segurança para evitar interrupção das atividades, sem imobilizar recursos em insumos caros. Em cenários de alta prolongada, firmar contratos longos no pico é um risco que pode ser evitado com mais inteligência sobre os próprios dados de compra”, disse Daniel Paschino, CFO da Qive.

Pressão nos fretes

O problema, porém, não está limitado à aviação. Outros combustíveis diretamente relacionados ao transporte também ficaram mais caros, criando uma pressão simultânea sobre diferentes modalidades logísticas.

O óleo combustível, utilizado no transporte marítimo e em atividades industriais, avançou 34,5%, de R$ 5,17 para R$ 6,95 por quilo. O diesel, fundamental para a movimentação rodoviária de cargas no Brasil, apresentou aumento de 14,4%, chegando a R$ 7,15 por litro na máxima de 2026.

A combinação é relevante para uma economia fortemente dependente do transporte rodoviário. Caso os preços elevados persistam e sejam incorporados aos contratos de frete, empresas que dependem da circulação de matérias-primas, alimentos, produtos industriais e bens de consumo podem enfrentar custos logísticos maiores.

Esse mecanismo cria um potencial canal de transmissão para os preços finais. Combustíveis mais caros pressionam diretamente empresas de transporte e, quando esses custos são repassados, podem encarecer a distribuição de produtos ao longo das cadeias produtivas.

O efeito sobre a inflação, no entanto, dependerá da duração do choque, da intensidade dos reajustes e da capacidade das empresas de absorver parte dos custos. Uma elevação temporária pode ser administrada por meio de estoques, margens ou renegociação de contratos. Um cenário prolongado aumenta a possibilidade de repasses.

No ambiente corporativo, o GLP apresentou comportamento mais moderado, com avanço de 1,3%, indicando que a pressão não ocorre de maneira uniforme entre os diferentes produtos energéticos.

Mudança de consumo

Os dados fiscais também apontam uma possível reorganização da demanda empresarial. Enquanto as compras de QAV recuaram 62,6%, a gasolina de aviação apresentou crescimento de 30,8% no volume consumido.

“Quando um insumo encarece muito mais do que seu substituto, as empresas tendem a migrar. Os dados sugerem que parte do mercado corporativo fez exatamente isso: reduziu a exposição ao combustível mais caro e deslocou demanda para alternativas mais acessíveis. Isso revela algo importante: quando os dados de documentos fiscais são lidos em conjunto, os padrões de comportamento B2B aparecem antes de qualquer pesquisa de mercado.”, acrescentou Paschino.

O levantamento da Qive foi elaborado a partir da análise de 17,7 milhões de Notas Fiscais Eletrônicas (NFe), responsáveis por R$ 386,4 bilhões em movimentações. A base inclui gasolina automotiva e de aviação, GLP, querosene de aviação, óleo combustível, diesel, etanol anidro e etanol hidratado.

Mais do que revelar uma alta pontual dos combustíveis, os números mostram como um choque originado no mercado internacional de petróleo pode avançar pelas cadeias produtivas. A duração desse movimento será determinante para definir se o impacto ficará concentrado nas margens das empresas de transporte ou chegará com maior intensidade aos fretes, às passagens e aos preços pagos pelo consumidor.






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